obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

O TAMANHO DA NOSSA IGNORÂNCIA (parte 1)

O Brasil tem pouco mais de 6 mil bibliotecas públicas, pouco,muito pouco, e é sobre elas que iremos tratar.


Qual o tamanho da ignorância que graça por este país varonil? Pelas minhas contas 6.102 bibliotecas públicas, é este número oficial em uma nação com pouco mais de 5.500 municípios e 200 milhões de almas.

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Os dados são provenientes do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas do MinC, Ministério da Cultura, e creia, a dez anos atrás os números eram bem piores, em 2004 havia pouco mais de 4.300, mas mesmo assim, estamos longe de qualquer nação civilizada. As bibliotecas estão divididas da seguinte forma, 503 na Região Norte, 1847 no Nordeste, 501 no Centro Oeste, 1958 no Sudeste e 1293 no Sul. Estes dados são de 2015.

Tomemos a região mais rica do pais, o Sudeste, e façamos um pequeno exercício, a cidade de São Paulo tem 115 bibliotecas públicas, a maior rede do país, a cidade do Rio de Janeiro, antiga capital federal, 15 e mais uma que é a Nacional. As duas cidades juntas têm mais de 18,4 milhões de habitantes, não se conta aqui as regiões metropolitanas. Biblioteca é um artigo raro. A situação na cidade de São Paulo é boa, mas no Rio, vergonha nem é a melhor palavra para definir o quadro. No estado de Minas Gerais a situação não é melhor, com 853 municípios, mais de 100 deles não tem nenhuma biblioteca pública.

Na outra ponta pegamos uma das dez maiores e mais ricas cidades do Estado de São Paulo, São José dos Campos, e que é o 21º PIB per capito do Brasil, segundo o IBGE, e tem população de mais de 673 mil habitantes, e uma, sim, uma única biblioteca pública, que é o mesmo número de Solonópoles, (você certamente não conhece, fica no Ceará) com pouco mais de 18 mil almas. Não existem dados sobre acervos, ou seja, não sabemos exatamente o há na maioria destas bibliotecas e quantos livros e exemplares estão disponíveis ao público, mas aposto que não é nada de grande monta.

O quadro se agrava quando cruzamos as seguintes informações, primeiro, a maioria destas bibliotecas não são circulantes, servem apenas para consulta, dificultando o acesso ao livro; segundo, das mais de 162 mil escolas no Brasil, mais de 113 mil não tem biblioteca alguma.

Não é preciso ser um gênio para imaginarmos que a maioria das bibliotecas sofrem de dois males, acervos antigos e desatualizadas, ou muito pequenos, e muitas vezes alimentados por doações e, segundo, localizadas em lugares distantes e inacessíveis para a maioria da população, geralmente elas ficam perto de quem não precisa delas. Assim fica fácil tornar o livro um objeto de luxo e ao mesmo tempo obsoleto para a maioria.

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Com os números das tiragens que as editoras fazem por aqui, é de se imaginar que rara, muito raramente o poder púbico municipal e estadual gasta com a atualização dos acervos, faça a conta, com tiragens médias de 3.000 exemplares por livros publicados, em um universo de 6.000 bibliotecas públicas, quer dizer, não se compra nada.

Obras de referência e de literatura digna do nome, para além das porcarias pseudoliterárias, nem chegam perto das bibliotecas. Quando falamos em obras de referência tratamos daquelas que alunos e professores precisam ler em algum momento dada sua importância e por outro lado poderiam muito bem ajudar ao cidadão comum entender melhor onde ele vive.

Quando se ouve e lê coisas de arrepiar os cabelos e o espírito, com gente de todo tipo defendendo ditaduras, golpes, pregando a morte de figuras públicas, discriminação por gênero, cristofobia, uso de armas e punições mais severas para todos, inclusive adolescentes, e no qual as redes sociais servem como amostragem, é possível ver o tamanho da ignorância, inflada por um profundo desconhecimento da realidade associados a baixíssima qualidade argumentativa.

As relações entre incultura, baixa escolaridade, o brasileiro tem em média 8,7 anos de escolaridade, e lê 2,4 livros ano, sendo que aí se coloca a bíblia e uma profusão de obras de milagreiros, lixo de autoajuda e pastores salvadores, com este desconto, as grandes obras e aquelas que de fato ajudariam a formar uma civilização se restringem a uma elite intelectual entende-se assim, em parte, as dimensões da nossa barbárie e ignorância.

O que pensar de uma sociedade que não tem bibliotecas? Aos meus olhos de professor e bibliófilo, é a certeza de que vivo em um lugar de bárbaros, pois, quando se vasculha o portal da transparência se observa que os parlamentares, que lutam para levar dinheiro para os seus currais, não tem a menor preocupação em reverter verbas para as bibliotecas. O bando de toupeiras de terno e gravata, no Congresso Nacional quando muito devem ler a “bíbria”, e gastam mesmo com obras inúteis ou pior, votam a isenção fiscal para igrejas e se digladiam em combater gays, comunistas e diabos em lugares imaginários, mas bibliotecas e livros, nada.

Haverá algum ficcionista que dirá que hoje é possível acessar via digital uma parte das obras de referência ou literária, bom se você pensar em um aluno ou cidadão do Arkansas ou de Auckland pode ser, mas em língua portuguesa isto não é verdade, e mais, o livro de papel tem uma vida e pode despertar uma paixão única nas pessoas, algo que nenhum outro meio propicia.

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É doloroso ver uma nação que não entende a importância de se ter bibliotecas, e livros ao seu dispor, doloroso e infamante, pois, nega-se o direito a informação e ao conhecimento. Existem diversas formas de se negar a realidade e a modernidade, sem dúvida uma das mais eficazes é esta que estamos trilhando.


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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