obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

amor cristão. lições a serem lembradas

O mal, levado a lugares nunca antes imaginado serve como objeto de reflexão a todos, homens e mulheres de boa vontade, e providos compaixão e amor pelo seu próximo.


A história recente da Argentina, desconhecida pela maioria dos brasileiros, é pródiga em lições que precisam ser conhecidas, estudadas e compartilhadas por todos em especial na América Latina.

A ditadura militar argentina (1976 – 1983) foi palco de ações abomináveis e só comparadas as práticas nazifascistas no século passado, porém com requintes de maldade e crueldade únicos, tudo legitimado pela cúria católica e por boa parte da hierarquia da igreja, tudo em nome do verdadeiro amor cristão.

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Os militares argentinos foram liderados pelo General Videla, católico praticante e tendo como seu confessor o monsenhor Adolfo Tórtolo que na época do golpe era também presidente da Conferência Episcopal Argentina, o equivalente a CNBB brasileira. A relação entre Videla e a cúpula católica será fundamental para legitimar as ações do regime, seja no plano interno seja no exterior. A igreja será um alicerce essencial para a ditadura e suas várias ações de extermínio dos opositores.

Videla e a Igreja.jpg Videla e seu Confessor em comunhão.

A visão messiânica dos militares, compartilhada pela igreja católica na Argentina, fazia crer a eles que o golpe deveria restabelecer a paz, a fé e a moral cristã entre todos os argentinos, e Videla apoiado e legitimado pela hierarquia católica deveria cumprir o papel histórico de restabelecer o Deus católico entre todos os argentinos. Aos que não desejavam ou se opunham restou o Império da Morte, como bem nota Marco Novaro e Vicente Palermo, em sua obra monumental, A Ditadura Militar Argentina 1976-1983. Do golpe de Estado à restauração Democrática (Edusp, SP, 2007).

O império da morte foi estabelecido para eliminar todos os opositores do regime, mas dentre as várias estratégias pensadas, uma delas é, em nosso entender, a mais aterradora e cruel, a mais desumana e anticristã de todas. Foi arquitetado pela junta militar, com a conivência da cúpula católica uma estratégia singular, todas as mulheres presas pelo regime que estivessem grávidas eram preservadas até o nascimento da criança, depois disso as mães eram eliminadas e as crianças ficavam com os militares e suas famílias, para isso foram criadas maternidades clandestinas e todo um aparto de apoio, imagina-se, sem que haja comprovação documentada, que muitas mães e seus filhos pereceram nestes locais.

Os pais destas crianças nascidas em cativeiro, e outras de meses até aproximadamente dois anos de idade ou um pouco mais, que eram presas junto com seus pais, serviam para acalentar as famílias de militares e pessoas próximas dos assassinos. Os números de crianças sequestradas pode ter chegado a mais de 200. Os pais foram torturados ou fuzilados clandestinamente. As mães depois do nascimento tinham o mesmo fim, em alguns casos o requinte de maldade era maior, se é possível pensar em maior ou menor crueldade, já debilitados pais e mães eram jogados de aviões em pleno voo ainda vivos no Rio da Prata.

As crianças raptas de seus pais eram entregues ou para família de militares, ou famílias próximas aos militares, e incrível, em alguns casos o algoz, o próprio assassino dos pais naturais da criança a adotava. Por trás desta ação macabra de Estado, se justificava que as crianças teriam uma verdadeira educação cristã e se tornariam verdadeiros argentinos. Os pais naturais eram degenerados, comunistas e montoneros (grupo de esquerda peronista) e deveriam ser defenestrados da Terra para que estas crianças tivessem a chance de serem humanizadas por estas verdadeiras famílias cristãs. A hierarquia da igreja não só sabia destas práticas como a endossava e abençoava tais ações. Ao dar legitimidade a esta prática horrenda, a igreja estabelecia haver na sociedade argentina um tipo de família merecedora de confiança e amparo, e outra que deveria ser extirpada e eliminada como um câncer do seio da sociedade. Era está uma guerra justa, no entender da igreja (Novaro e Palermo p129 nota 33 e 34) assim se podia: sequestrar, torturar, fuzilar e matar, tudo em nome da fé cristã e o amor cristão daria nova vida a todas as crianças sequestradas pelo Estado argentino.

É em meio a esta barbárie que nasce o grupo Abuelas de la Plaza de Mayo ou as Avós da Praça de Maio, que exigiam do regime uma explicação sobre o paradeiro de seus filhos e netos, nunca o regime deu qualquer resposta ou explicação, enquanto os generais estiveram no poder, nada se sabia do destino de pais e filhos. No sítio na internet, www.abuleas.org.ar é possível ter acesso a documentos e relatos detalhados da luta destas mulheres por seus filhos, filhas netos e netas.

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A hierarquia católica, seja a Conferência Episcopal, seja a Nunciatura em Buenos Aires jamais se moveu na direção de atender aos pleitos das avós ou mesmo interceder junto aos militares, em especial no período Videla, no qual havia um fácil transito desta cúpula com o general, para pedir, ao menos, pelos recém-nascidos ou pelas crianças desaparecidas como se pode constatar na obra reveladora de Bruno Passarelli e Fernando Elenberg Il Cardenale e i Desaparecidos. L´Opera del nuzio Apostolico Pio Laghi. Narni, EDI2000, 1999; e na obra de Pilar Calveiro Poder Y Desaparición. Los campos de concentración en Argentina. Editora Colihue, 2008. A hierarquia católica se calava ou tergiversava junto as famílias de desaparecidos. Uma leitura dos vários documentos disponíveis no sítio das abuelas permite que se entenda melhor este processo, porém a pergunta que se faz é por que a igreja compactuou com isso?

Eu fico com a tese de Novaro e Palermo ( p 128 nota 33 e p 136 e segs) de uma lado a igreja via na ação da ditadura e em Videla especificamente, uma redenção do caos vivido pela Argentina nos anos anteriores, por outro lado a crença de que a sociedade argentina precisava ser depurada dos elementos estranhos a vida e as crenças históricas desta sociedade, e para isso, se preciso fosse, e foi, torturar, massacrar, fuzilar se deveria fazer, e a igreja e parte de seus pares legitimavam tais ações. Quando falamos parte, é porque uma parte desta mesma igreja foi perseguida e morta, padres simplesmente desapreciam como os demais cidadãos, bispos eram emboscados em acidentes suspeitos e morriam, toda vez que se punham a questionar sobre os desaparecidos. Em suma, os interesses e ambições políticas da ditadura eram os mesmos da hierarquia da igreja argentina.

Porém, no que tange especificamente as crianças o cinismo da hierarquia católica não teve limites, era preciso purificar estas crianças da nefasta influência de suas famílias, não bastava matar o pai e a mãe, era preciso mantê-las distante de toda sua família biológica, avós, avôs maternos e paternos, tios e tias pois seriam eles uma influência ruim para estes seres indefesos, coloca-los nas mãos de famílias confiáveis era um ato de amor cristão.

Por baixo das camadas de cinismo e amor cristão havia algo menos nobre como a oportunidade que a ditadura oferecia a igreja, manter seus níveis de influência e doutrinação religiosa e política recebendo apoio e incentivo nas suas mais diversas instituições educacionais e religiosas. Quando se fala em plano de doutrinação, os generais de plantão na Argentina sabiam que a igreja católica poderia através de seus mais diversos tentáculos educacionais continuar manipulando boa parte da população argentina, na mesma mediada que cometia toda sorte de atrocidades.

A infâmia e cinismo da hierarquia católica argentina durante a ditadura foi de tal monta que por várias vezes as avós procuraram, seja a cúria em várias cidades, seja a nunciatura e eram ludibriadas por cardeais, bispos e padres dispostos a evitar que as famílias dos desaparecidos soubessem do paradeiro dos seus entes queridos, em especial dos pequenos e dos recém-nascidos. Em depoimento possível de ser consultado no sítio das Abuelas, Hebe Bonafini, uma das líderes conta que fez uma viagem ao Brasil em fins de 1979-1980 e deixou com Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal Arcebispo de São Paulo a época, documentos e várias demandas denunciando a situação argentina, ela fez isso porque a igreja na Argentina não era confiável e Dom Paulo e a Comissão de Justiça e Paz ligada à sua arquidiocese era o único lugar seguro para se falar e tratar dos desaparecidos.

Dentre os milhares de desaparecidos e mortos no período da ditadura na Argentina nada impressiona mais do que o sequestro das crianças, pequenas e recém-nascidas, nada é mais duro, dada a crueldade sem limites, estes meninos e meninas não foram apenas privados de seus pais assassinados, pior, foram privados de sua história de vida, de sua memória e do amor verdadeiro e sincero de sua família de fato. Em que pese todas as ponderações hoje, a farta documentação mostra os níveis de conivência e legitimidade oferecido pela cúpula católica para que isso ocorresse, até hoje não houve manifestação de qualquer ordem da igreja na Argentina a este respeito.

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Para todas as ironias do destino, nos últimos 12 anos os governos Kirchner foram os responsáveis pelos maiores avanços na investigação das crianças desaparecidas, assim como na punição de todos aqueles que eram responsáveis, a ironia se completa com a eleição de Jorge Bergoglio como Papa.

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Desde sua eleição ele não visitou, ainda, a sua Argentina, eu como todos os latino americanos e em especial os argentinos e as Abuelas que ainda vivem, esperam um mea culpa da igreja e uma profunda reflexão sobre seu papel neste momento da história Argentina. O padre Bergoglio sabe o peso que sua igreja carrega por conta deste período, e tudo que a sua igreja não fez pelos mais desesperados e desamparados, foram 30.000 desaparecidos, mortos nos porões e campos de concentração da ditadura argentina, mais de 200 crianças sequestradas e milhares tiveram as suas vidas destruídas em nome da providência que salvaria o Estado e a sociedade, em tempos de crítica ao egoísmo, a igreja deu mostras claras de ser uma instituição na qual o amor cristão ficou a reboque dos seus interesses mais mesquinhos enquanto vidas eram roubadas.


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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