obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

O TAMANHO DA NOSSA IGNORÂNCIA (parte 2)

o tamanho da nossa ignorância pode ser medido pelo meio milhão de zeros na redação do Enem, ou pelo profundo desprezo que os jovens tem pela carreira do magistério, ou ainda pela existência de milhares de escolas sem biblioteca e quadra poliesportiva, ou o ridículo dos nossos livros didáticos e o currículo enciclopédico, ou as médias nacionais em provas públicas, abaixo de 5,0. Motivos não faltam.


A escola no Brasil é o lugar mais falado e menos conhecido da sociedade brasileira, não há político que não se diga preocupado com ela, não há cidadão que acredite ser a escola pública um lugar bom para se colocar os filhos. Falasse muito, sabe-se pouco. E assim ela continua uma porcaria.

Nós temos uma rede com mais de 160 mil escolas e mais de 49 milhões de alunos divididos em 17 milhões na rede municipal, que é responsável pela educação infantil e parte do fundamental 1 e 2; 23 milhões na rede estadual responsável pelo fundamental 2 e ensino médio; 300 mil nas escolas técnicas federais e 9 milhões na rede privada.

Fora da escola estão 3,5 milhões de adolescentes entre 14 e 17 anos, as motivações são variadas, mas a ineficácia da escola com um currículo antiguado e burro associados com materiais didáticos pífios, estimula a saída escola de uma parte dos alunos. As crianças, alicerçadas nos programas sociais do governo estão hoje, em sua maioria esmagadora na escola, pela primeira vez em nossa história.

Este modelo no qual municípios e estados dividem a responsabilidade da educação brasileira foi consagrado em 1988, a parte lúcida do Congresso Nacional como o senador Cristovam Buarque tentou a federalização da escola, mas fracassou. E fracassamos em todos as avaliações nacionais e internacionais que medem os níveis de aprendizagem e conhecimento dos nossos alunos nas diferentes etapas da escola. O ENEM com meio milhão de zeros na redação é um espelho deste fracasso e da nossa ignorância. A questão é saber por que fracassamos?

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Creio que a combinação entre estrutura e infraestrutura corroboraram para que cheguemos a este ponto. A infraestrutura, e alguns liberais descabeçados dizem que não é o problema, pois implica dinheiro, é sim um grave problema, mais de 75% das nossas escolas não tem bibliotecas, ou seja, não tem sequer um mínimo esperado para uma escola, um lugar onde alunos e professores tenham livros para ampliar seu conhecimento e estudar. Isto sem contar aquelas que tem instalações precárias, como a falta de salas de aula, banheiros e até carteiras para se sentar. Para piorar, mais de 60% das escolas não tem qualquer espaço para atividade física, ou seja, não possui uma mísera quadra de esportes. A questão não é dinheiro?

Esta pobreza se explica, em parte pela invenção de municípios sem qualquer condição de serem municípios, sem receita são incapazes de investir minimamente na educação, dos mais de 5.500 municípios brasileiros, pelo menos metade não tem capacidade de se manter financeiramente, dependendo de fundos e receitas federais. Os ricos, e cito aqui Campos dos Goytacazes no estado do Rio de Janeiro, um dos dez maiores PIBs do país e uma população de mais de 430 mil habitantes, tem uma rede de escolas tão precária que 15% delas sequer tem telefones instalados e mais de 40% nem possui rede informatizada, além de não se ter bibliotecas em mais de 60% das escolas. Quer dizer, quando há dinheiro ele não é colocado onde se deve.

A rede federal de escolas técnicas, é a única que efetivamente funciona com eficácia, voltada para o ensino médio técnico, tem altos índices de aproveitamento, é só observar como são elas as únicas à rivalizarem com as escolas privadas no Enem.

A questão estrutural é muito mais grave, pois combina um currículo burro e capenga com livros didáticos medíocres. O currículo das escolas brasileiras é o chamado enciclopédico, ou seja, nele se ensina de tudo um pouco, somos adeptos da quantidade, muita quantidade, um pequeno exemplo ilustra isso, o currículo de matemática do ensino médio brasileiro é 65% maior que um canadense do Quebec, e nem por isso os alunos brasileiros saem da escola sabendo o que é uma equação de 2º Grau. O Currículo de história se repete entre os 6º e o 9º anos no ensino médio, exemplo, se estuda história europeia, medievo e modernos repetidamente, mas não se estuda história da América.

O livro didático é um destes lixos autoritários herdados da reforma da ditadura na lei 5691/71 que não conseguimos nos livrar, a combinação dos sistemas de ensino e suas metodologias e currículos embutidos em sistemas apostilados são em sua grande maioria desqualificadores da vida escolar. Este espaço não permite aprofundar este problema, mas notamos que na maioria do mundo o que se usa em sala de aula são manuais de apoio, que ao mesmo tempo são mais profundos e criteriosos com os conteúdos do que os materiais didáticos produzidos no Brasil, é muita imagem e estratégias estéticas, e pouca qualidade.

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A combinação entre currículo atrasado, típico do século XIX e materiais apostilados didáticos de má qualidade resulta no que já sabemos. Escolas medíocres. O Ensino Fundamental 2 tem no mínimo 11 disciplinas na grade podendo chegar a 12,13, 14 e o Ensino Médio no mínimo 12 no máximo 16 ou, o céu é o limite.

Na outra ponta desta estrutura se tem um vazio de políticas públicas, pense, por exemplo, no Estado de São Paulo, governado há vinte anos (!!!) pelo mesmo partido político, e observe os níveis das escolas públicas paulistas, pífios, incrivelmente ruins, isto se deve a mais absoluta ausência de uma política pública para a escola. A secretaria de educação é um balcão de negócios assim como o metrô, no qual oportunistas travestidos de especialistas em educação fingem administra-la. São vinte anos, quase uma geração inteira, e se for perguntado ao governo qual a sua política educacional, você não obterá uma resposta razoável, pois cada espertalhão que se torna secretário coloca a sua expertise em cena.

As notas média do estado de São Paulo no IDEB, Índice de Desenvolvimento da Educação Básica do Estado de São Paulo em 2013 foi: 5º ano 5,7; 9º ano 4,4 e 3º do Ensino Médio 3,7 Estas são avaliações de aprendizagem, que mensuram o nível dos alunos ao final de cada segmento educacional, as notas falam por si.

Neste contexto, o professor, é uma peça insignificante, e neste quesito estou convencido que a questão central não é o salário miserável pago a eles, é a sua formação que embala a miséria financeira e intelectual.

É preciso responder à pergunta de onde vêm os professores da escola pública, onde estudaram? Quem deseja ser professor hoje? O tamanho da nossa ignorância é proporcional a desqualificação dos nossos professores. As faculdades isoladas e as universidades privadas se entupiram de ganhar dinheiro com cursos baratos de formação de professores, história, geografia, ciências, matemática, letras, filosofia e pedagogia. Cursos muito baratos com currículos ridículos e universidades patéticas produzem que tipo de profissional? Exagero? Um exemplo do que afirmo, nos dois últimos concursos públicos para professor no estado de São Paulo, simplesmente não se conseguiu preencher todas as vagas em todas as disciplinas, por que? Porque parte expressiva dos candidatos, em filosofia e português, por exemplo, mais da metade não conseguiu notas mínima na prova específica. Não sabiam nem filosofia e nem português suficientemente para poderem acessar a carreira.

Por mais de vinte anos fui diretor de escola, cansei de entrevistar professor de história que não sabia quem era Jacques Le Goff ou Sérgio Buarque de Holanda, professor de português que desconhecia porque adjetivos são uma classe de palavras abertas, professor de matemática com dificuldade de resolver uma equação. Cada vez mais o magistério se tornou um território ocupado por aqueles que parecem desprovidos de mais oportunidades, pesquisas feitas pelo Datafolha revelam que os jovens não desejam o magistério, e alunos talentosos querem outras carreiras. Se dá um círculo vicioso, ser professor acaba sendo a opção dos sem opção, na maioria dos casos, sem qualificação e resultados palpáveis a sociedade em silêncio legitima a miséria do ser professor, não se paga para ouvir medíocres.

A gravidade da situação é tal, que em algumas áreas como: geografia, matemática, química e física já há um déficit de professores grande e a sua tendência é aumentar com a profissionalização daqueles poucos que ainda se formam nestas áreas. Sem dados confiáveis se imagina que em dez anos teremos um déficit de mais de 40% de professores nestas áreas. O tamanho da ignorância poder ser visto nas notas públicas de provas como Pisa, Prova Brasil e Enem onde se revelam toda a nossa pobreza formativa e educacional, notas pífias e médias medíocres expõe o tamanho da fratura e falta de perspectivas ao qual estamos confiando uma parcela expressiva dos nossos jovens.

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Neste momento se discute uma reformulação curricular, ela está sendo gestada há anos, quem sabe consigamos de vez colocar a escola no século XXI, mas até lá muito ainda irá se perder e muitos serão vítimas da ignorância tamanha que nos assola.

E duro mesmo é ver a extrema direita com seus olavos e seus oráculos dizendo que a escola é um antro comunista gramsciano no qual os professores foram preparados para serem doutrinadores e fazedores de cabeça dos alunos, inocentes úteis, é patético ouvir isto.

Neste espaço, aqui do Obvius, há um autor que tem como lema em seu blog, - Nem tudo que te ensinaram na escola era verdade- imagino que ele estudou em um lugar bem ruim e nem sabe para que serve uma escola. Este tipo de postura me incomoda sobre maneira, pois expõe as dimensões da nossa ignorância. Escola não é igreja, não busca a verdade, busca a reflexão e à aprendizagem. Sorte nossa que a ignorância deles só ajuda, pois oferece uma chance de se dar risadas em meio ao caos.


Dante Donatelli

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