obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

O TAMANHO DA NOSSA IGNORÂNCIA ( parte 3 )

Uma amostra dos hábitos de leitura do brasileiro.


Escrevi neste espaço, duas semanas atrás, sobre o Tamanho da Nossa Ignorância (1) na qual tratava sobre o universo das bibliotecas públicas brasileiras, agora, me debruço na pesquisa realizada em 2011, a mais atual, patrocinada pelo Instituto Pró Livro, sobre os hábitos de leitura do brasileiro.

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A pesquisa foi feita com todas as classes sociais e buscou saber qual a relação das pessoas com o livro e a leitura, a primeira constatação é que apenas 50% das pessoas podem ser consideradas leitoras, ou seja, leram ao menos 1 livro em parte, ou todo ele, nos últimos três meses.

Quando questionados sobre as dificuldades de leitura, as respostas encontradas foram, 19% leem muito devagar o que propicia enfado e desgaste; 12% afirmam não ter concentração para ler, não são capazes de se retirar e mesmo em silêncio se fixar na leitura; 8% afirmam simplesmente não entender o que leem; 20% apenas atestam não ter paciência com a leitura.

A falta de paciência ou a não concentração estão todas no mesmo lugar, porém suponho que para a grande maioria o ato de ler é algo misterioso, impenetrável, e aqui vale para o livro como vale para o jornal, a revista ou a internet. Metade da população quando se depara com um texto, sofre diante das suas limitações pessoais, um conjunto de fatores parecem se combinar, baixa escolarização, má formação e precariedade intelectual corroboram para que metade dos entrevistados não leiam por não saberem ler.

Ao perguntar o que significa a leitura para as pessoas se ofereceu um conjunto no qual se poderia escolher três opções, dentre elas 12% afirmaram ser uma perda de tempo ler; 8% pura obrigação; 6% algo cansativo 5% algo chato; 5% nem souberam defini-la, mas do total entre leitores e não leitores 67% foram categóricos em afirmar que que não gostam de ler. E aqui surge um dado mais surpreendente, do universo de 33% que admitem gostar de ler, e o fazem com prazer, 31%(!!) o fazem por razões religiosas. Isto explica porque dentre os 25 autores brasileiros mais citados pelas pessoas encontramos 1 padre, 1 pastor e 2 médiuns.

É preciso entender que há uma diferença abissal entre a leitura, literária ou científica, daquela atrelada ao texto religioso em especial a bíblia, texto único, este tipo de leitor busca salvação, respostas no além ou revelações para satisfazer a sua fé. A dimensão do ato de ler, como sugerido na pesquisa, é outro, é como a fruição leitora se apresenta para a população. Esta fruição seria o quanto de conhecimento do mundo e prazer eu posso tirar de um Fernando Pessoa, um Borges, Tezza, um Hobsbawm, um Sennett.

Os 2% que restam são aqueles que compram livros por prazer, e o leem por interesse ou deleite, de certa forma se explica a penetração do livro na sociedade, 2% de 178 milhões de almas alfabetizadas estamos falando de pouco mais de 3,5 milhões de potenciais leitores de diferentes literaturas, desde a mais contemporânea até ensaios e obras de diferentes ciências. Tiragens pequenas entre mil e três exemplares são aqui explicadas.

Um dado que não pode ser desprezado é que dos 50% leitores, como constatado no início deste artigo, é razoável deduzir que uma ínfima parte, quase insignificante são leitores de fato, a grande maioria lê por mera obrigação escolar ou profissional.

Gostaria de acrescentar uma informação, mesmo que antiga, mas valiosa e que provavelmente deve continuar atual, em 2005, o INEP, Instituto de Estudos Pedagógicos do MEC realizou uma pesquisa sobre os hábitos de leitura dos universitários brasileiros, 19% haviam passado todo ano letivo sem ler um único livro, um mísero livro sequer. Por alguma razão o INEP não repetiu a pesquisa nos anos subsequentes.

Estes números suscitam uma série de perguntas as quais não podemos responder mas permite-nos construir hipóteses de toda ordem: 1- como esta massa gigantesca adquire conhecimento? 2- quais os meios utilizados pela população para entender a realidade? 3- qual a capacidade compreensiva dos não leitores acerca do discurso oral, posto que, é possível afirmar por não serem leitores tem um vocabulário e uma capacidade de entendimento discursivo menor. 4- como esta população trata as informações veiculadas nos diferentes meios a qual tem acesso, como TV, Internet e rádio?

Me atenho primeiro as perguntas 3 e 4, a oralidade e a capacidade ouvir e entender o que se ouve ou lê, como na internet estão intimamente ligadas à nossa formação intelectual, quanto maior o vocabulário, o conhecimento acerca do que ouve ou lê associado ao domínio da sintaxe da língua, maior a chance de se entender efetivamente o que ouve ou lê. Óbvio. Nem tanto, acredito que a maioria dos ouvintes ou leitores rápidos da internet não conseguem depreender uma boa parte do que ouve ou lê, sintomático disto é observar nos fóruns de discussão que seguem logo abaixo das notícias e perceber como parte expressiva dos leitores não entendeu o conteúdo da notícia ou simplesmente disfere um palavrão ou achincalhe acerca dos fatos narrados em um claro sinal de incompreensão. Estamos hipotecando que os 8% que afirmam não entender o que leem, possa ser bem maior,um número expressivo de sujeitos que acreditam saber o que estão lendo mas quando escrevem ou falam, revelam que nada entenderam. Por não serem capazes de estabelecer relações simples entre sujeitos, ideias, temas ou objetos especialmente quando o discurso é mais elaborado e com uma sintaxe e vocabulário mais rico.

Quanto ao ouvir, é possível observar, em especial em canais fechados de TV, no qual os telespectadores são convidados a interagir, via mensagem de texto com os apresentadores, uma parte significativa da audiência não entende uma simples ironia ou mesmo uma mera explanação sobre um tema. Uma crítica criteriosa é tratada como sendo uma negação do tema, dispondo uma parte da audiência a se manifestar com absoluta agressividade. Várias vezes ouvi os apresentadores, com ironia dizer, “olha eu não estou dizendo isso, mas sim aquilo”. “Olha não estou falando mal apenas sendo crítico”.

Os itens 1 e 2 são difíceis de serem respondidos, acredito que boa parte dos saberes advém das complexas relações travadas pelas pessoas e brotam das trocas orais, já que a formação escolar e mesmo universitária é precária, com todos os complicadores nele implicados. Um bom exemplo deste fato é um exemplo recente, a mudança na forma de aposentadoria, o chamado cálculo de 90 e 95 anos, muitas e muitas pessoas entenderam que somente com estas respectivas idades mulheres e homens poderiam se aposentar. É tão absurdo crer nisto que fica até engraçado, mas essa é a realidade de uma sociedade inculta e facilmente manipulada, a palavra somatória entre tempo de trabalho e contribuição é misteriosa para a maioria das pessoas, é um tipo de conhecimento que elas não possuem, a palavra se torna um impeditivo para se perpetrar a realidade.

Ouvir, e mesmo, ver, exemplificado como se daria o novo cálculo não tornou mais fácil o seu entendimento, porque a maioria das palavras e a sintaxe imposta para se saber, implicava em um conjunto de conhecimentos prévios da língua e da realidade que a maioria simplesmente não tem. Quanto menos se lê menos se é habilitado a penetrar a realidade e ser agente dela, não entender o que se ouve, não saber o que foi dito é causa direta de uma lógica ignorante na qual a condição de leitor do mundo é abandonada e em seu lugar resta a aversão ao conhecimento perceptível não só na precariedade sintática mas na agressividade latente e na abstenção de argumentos.


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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