obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

León Ferrari Dadaísmo Latino e Humor

Um olhar sobre a obra de León Ferrari, o maior artista plástico argentino


León Ferrari (1920-2013) foi o mais importante e criativo artista plástico argentino de todos os tempos, pouco conhecido no Brasil mesmo após algumas poucas retrospectivas após sua morte, merece ter sua obra mais conhecida por aqui, até porque, uma parte da sua produção se deu em São Paulo entre 1976 e inícios dos anos 1990 quando o artista se exilou para fugir da ditadura militar argentina (1976-1983).

Em verdade Ferrari nunca fez parte da “elite” das artes mundiais, sua produção, múltipla e rica, vai da colagem a escultura passando por instalação, objetos e vídeos. Se não era um marginal, era, pode-se dizer, um outsider no melhor que esta definição tem. Era avesso aos modismos ou as tendências do mercado da arte, pensava e criava como argentino e como latino-americano, sem, contudo, deixar de fazer uma arte universal.

Dentre as muitas leituras que se possa fazer da sua grande obra, eu fico com a de um artista que leu, interpretou e expôs a vida argentina e latina- americana a partir da sua herança e legado histórico revelando suas entranhas mais profundas e duras, porém com um humor e um sarcasmo típicos da latinidade. A sua leitura da história recente e da não tão recente, remete a ideia, como lembra Néstor Canclini, uma sociedade a qual o relato, a história é sempre subvertida e contada pelos vencedores.

Ironias a parte, Ferrari foi laureado na Bienal de Veneza de 2007 e aclamado pela crítica norte-americana e européia como um dos maiores artistas vivos e produzindo, isto quando Ferrari já era um senhor de idade avançada e fazia troça do reconhecimento e dos valores estratosféricos que suas obras alcançavam nos leilões internacionais. Creio, Ferrari queria apenas continuar criando e colocando suas obras a serviço da arte e da consciência argentina.

Em uma exposição, toda ela dedicada a fazer a crítica a herança católica argentina e latina, em 2004, Ferrari foi atacado e achincalhado pelo hoje Papa Francisco como uma aberração, uma afronta aos mais caros valores cristãos e argentinos. A obra, abaixo, o Cristo crucificado em um avião de combate e sustentado sobre as bombas que ele carrega é uma crítica contumaz, Ferrari dialoga com o arcebispo Bergoglio dizendo, a igreja aqui representada é a mesma que endossou, legitimou e acobertou todas as barbaridades perpetradas pela ditadura militar, em especial os 30.000 desaparecidos e as centenas de crianças sequestradas e roubadas, assim como esta mesma igreja legitimou o nazi-fascismo até quando lhe convinha e depois abriu o caminho dos ratos pelo qual milhares de nazistas fugiram da Europa para América Latina acobertados pela Igreja Católica. Ferrari fez colagens com as lideranças católicas e nazistas da Segunda Guerra.

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A sucessão de objetos sugestivos, como a Virgem a lado do Filho dentro de um tanque de guerra, ou um punhado de santos e santas todos eles em uma frigideira esperando para serem marinados, assim como as imagens colocadas dentro de um liquidificador prontas para serem batidas e misturadas buscam ser um relato, assim como uma apresentação, bem-humorada, de como Ferrari lia a história da igreja e em especial com no seu contexto argentino. Se não quisermos falar de humor, o sarcasmo também serve. Não serve qualquer discurso moral, posto que estava tratando de uma instituição na qual a moralidade era, e é, pura retórica.

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Ironia e sarcasmo levados as alturas e provocando a ira da hierarquia católica e de dos mais conservadores, apontam para uma igreja cúmplice da violência e dos barbarismos, assim como omissa quando posta diante das suas responsabilidades sociais e históricas. Bergoglio, o hoje Papa, era cobrado por Ferrari de por que ele e sua igreja silenciaram diante de tanta afronta a vida humana? O constrangimento do Arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, poderia ser menor se ele mesmo não fosse acusado de saber e ser conivente com todos os fatos conhecidos da história recente da Argentina, se ele sabia por que sempre silenciou? Se não sabia, por que ainda se mantém em silêncio e nunca fez uma autocrítica ao povo argentino?

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León Ferrari provocava com suas obras o mesmo desconforto nos católicos que eles haviam criados nas Abuelas de Plaza de Mayo quando acorriam a cúria argentina, durante a ditadura, e ouviam palavras de escárnio codificadas em frases feitas de auxílio e consolo apenas para ouvidos moucos. Ao incomodar e questionar valores e símbolos, Ferrari, transcende a crítica simplória de uma igreja e uma sociedade sempre coniventes com a degradação se ela é para o bem comum. Em última instância, que bem comum?

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O Dadaísmo e o Surrealismo estão presentes na obra de Ferrari, o Globo tomados de baratas com insígnias militares reconta o nosso desejo belicista e dá nome aos bois, ou melhor, as baratas ou algumas delas deste mundo. O que deixa um ar de farsesco na obra e ao mesmo tempo de humor negro, afinal nada mais asqueroso que uma barata, nada mais terrível que a guerra, as ditaduras e seus senhores. Baratas, assim como este mundo não estão providos de moralidade para propor julgamentos.

este mundo.jpg A obra que liga Ferrari ao mundo Dada, como uma releitura de Duchamp e sua Fonte, Ferrari vai além, ao invés deste utensílio masculino ele universaliza a crítica, compõe um vaso performático com grafismos que poderiam ser assinaturas em todo seu corpo, assim como o vaso pode ter vindo de um lixão descartado por qualquer cidadão. A sua universalidade provocativa é porque o vaso é por si unissex, traz à baila homens e mulheres para o mesmo lugar, cumprindo a mesma função para ambos.

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Estas como a maioria das peças e objetos criados por Léon Ferrari, provocam riso, uma certa graça em nós, ou ao menos naqueles que se sentem confortáveis diante das suas criações, sua obra é extensa, mas sempre que a contemplo sinto grande prazer, e vejo nele o melhor do nosso humor latino e do deboche desbocado argentino, e hoje muito presentes no seu cinema e na sua propaganda. É este um mundo cercado de surrealismo e que somente um verdadeiro dadaísta pode representa-lo? Creio que sim, a base de um humor sólido, tão sólido como a nossa identidade latina, disfuncional, anacrônica e criativa.


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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