obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

Lágrimas de Porco

Um simples acidente de caminhão na maior cidade do país, expõe o espírito de porco que assola a vida de muitos entre nós.


Há uma expressão muito conhecida em português, para denotar deboche ou pouco caso com alguém ou uma situação, “lágrimas de crocodilo”, não quero ser debochado nem fazer pouco caso dos sentimentos alheios, mas, o acidente que causou a morte algumas dezenas de porcos, a meio de caminho do matadouro trouxeram cenas que no mínimo nos fazem refletir sobre estes tempos estranhos que hoje vivemos.

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A fatalidade com os suínos foi de fato horrível, imprudência do motorista que por certo não teve acesso a escola e desconhecia que quanto mais alto o veículo há uma dificuldade proporcional de manter o seu centro de gravidade, o que facilita, quando se faz manobras bruscas, mesmo a baixa velocidade, que o veículo possa se estatelar no chão, ou seja, altura, certa velocidade e alguma imperícia levaram ao festival de incompetência assistida por todos. Sim, porque os “engenheiros”, ou seja lá quem teve a ideia de desvirar o caminhão sem antes retirar os porcos, trouxe mais sofrimento aos combalidos animais já jurados de morte, e combinemos, nenhum ser vivo precisa sofrer desta forma nas mãos de gente tão incompetente.

Não vou me ater aos funcionários da rodovia e dos órgãos públicos e privados que ali acorreram para salvar os condenados animais e trazer alívio aos motoristas presos em um congestionamento monstruoso que se arrastava por quilômetros por horas. Quero me fixar nos socorristas dos porcos, nos diligentes cidadãos defensores da vida animal, estes sim dignos de nota e de todo respeito, não fosse o exagero ao qual estes cidadãos de boa-fé se mostraram durante todo evento.

As lágrimas de alguns socorristas era digna e revelava todo sofrimento advindo da empatia deles com os pobres suínos que sofriam, feridos e com toda sorte escoriações e mutilações dado o impacto do tombamento e as seguidas tentativas de desvirar o caminhão. Havia tanta comoção que eu, da daqui comecei a me incomodar, não mais com os condenados sofrendo, mas com as pessoas que choravam e sofriam com intensidade e sinceridade. Fiquei me perguntando de onde provém tanta empatia com os porcos? Sim, há um estado empático entre aquele que se debulha em lágrimas diante do sofrimento real do outro, a questão é quando o seu outro é um porco.

Fiquei me perguntando que tipo de sociedade nós inventamos na qual as pessoas sentem tamanha empatia com um singelo porco? Sabedor de que comemos carne, todas elas, desde que estávamos lá em cima de árvores, e que muito provavelmente foram as suas proteínas que permitiram a nós chegarmos até aqui como somos, me causa mais espécie ainda ver aquelas pessoas em estado de tamanho sofrimento emocional.

Nós sempre comemos tudo que andava, voava, rastejava ou estivesse vivo e dando alguma bobeira, sempre comemos os animais. Retomo a pergunta, que tipo de sociedade é esta na qual uma parcela se sente empática de um porco? A minha reflexão conduz a uma expressão cunhada pelo historiador Simon Schama, é o desconforto da riqueza, ao menos a riqueza de alguns (Desconforto da Riqueza. A Cultura Holandesa na Época de Ouro. SP, Cia das Letras, 1992). Somente uma sociedade muito rica, que superou boa parte daquilo que nossos antepassados tinham como mais elementar e essencial para a existência minimamente digna, podem se permitir colocar a vida de um simples porco, ou meia centena deles, em tamanha repercussão e com a lástima já narrada.

Este desconforto é tamanho, ao menos para uma camada da sociedade, que é preciso criar novas necessidades e premências essenciais para legitimar a existência, as categorias básicas a muito supridas e superadas exigem outras prioridades, eleger animais de uma forma geral é uma delas. Há que se pensar que em um país como o nosso, longe de ser uma Noruega ou Suécia, temos muito o que fazer pela maioria até chegarmos a este ponto, mas para uma parcela da sociedade este momento já chegou, a vida burguesa e enfadonha, cercada de todas as benesses se faz entediante, vazia de significados e sentidos, é preciso buscar novas perspectivas para se superar este desconforto, muitas vezes revelado como desprezo ou aversão ao outro. Este maravilhoso mundo burguês que nos ofertou esta fartura, este exagero nunca antes vivido desde a mais escura das cavernas, é também ele quem fincou no fundo dos corações o egoísmo narcísico que assola, com especial intensidade, a burguesia. Penso, que apenas uma sociedade profundamente egoísta poderia se sensibilizar a ponto de comover seres humanos diante de porcos acidentados. A fonte narcísica que alimenta o mundo burguês tem a mão dupla de trazer uma profunda desumanização das pessoas.

Desumanização é este estado de coisas onde semanas antes quase uma vintena de seres humanos foram assassinados, e tudo indica que pela instituição que deveria preservar a ordem, e a sociedade, meio que deu de ombros, e ainda dá, uma menina de quinze anos morreu assim como cidadãos pobres em um lugar miserável perderam a vida sem nenhuma razão que não a vingança torpe de um bando de delinquentes travestidos de justiceiros. Quem chorou por estas pessoas para além das suas famílias e amigos?

Uma parte da sociedade se mobiliza para salvar porcos, mas não se indigna com perda de vidas humanas fuziladas em pleno espaço público como ato de justiça, mas em verdade, decretando a pena de morte como fato entre nós. A morte de dezenove seres humanos parece dizer muito pouco a maioria das pessoas. Nos desumanizamos, o outro pouco nos diz, nós não temos por ele qualquer empatia, e alguns cretinos ainda irão vociferar que eram todos bandidos, não eram, eram pobres mesmo. Cretino.

Não concebo a ideia de viver em uma sociedade desigual, injusta e segregada como a nossa, e contemplar pessoas velando e chorando porcos, é quase um acinte a todos com alguma consciência social. Me recuso a cair no lugar comum de citar todas as carências e carentes que temos, mas imagino parte da população, ao menos de paulistanos vendo no jornal local noturno aqueles cidadãos em quase desespero, vertendo prantos de dor diante dos porcos, que sei, sofriam, mas são apenas porcos, que nós iriamos encontrar dias depois em gondolas de supermercado transformados em toucinho, lombo e apetrechos para feijoada, tento imaginar como o homem e a mulher comum se sentiram vendo esta cena, não sei responder, mas a mim causou espécie e repulsa, ao mesmo tempo que hipoteco ver a vastidão oca e desumaniza a povoar almas que sofrem por porcos.

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Em tempo, uma vaquinha organizada pela internet arrecadou mais de cinquenta mil reais para amparar os porcos, as famílias dos mortos em Osasco agradecem a solidariedade prestada.


Dante Donatelli

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