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Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

Maldita Religião! E as Partes do Conflito Sírio

O conflito sírio a sua complexidade de interesses e grupos.


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A situação síria é tão confusa que boa parte dos serviços de informação e acompanhamento no mundo ocidental acabam sem saber ao certo qual a realidade efetiva da guerra civil. Os mais bem informados neste momento são os russos dada a longa história de colaboração e apoio militar e logístico a ditadura da família Assad, dentro daquilo que se tem disponível iremos tentar mapear a situação hoje e as razões para o êxodo de refugiados pela Europa.

A guerra começou em 2011 com um pedido de mais democracia e a saída do poder do Partido Baath, controlado pela família Assad e apoiado pela elite Alauita, uma minoria religiosa dentro do islã e com forte apoio da população de minoria cristã que vive no país. Além destes dois grupos uma parte da maioria sunita, outro ramo islamismo dá sustentação ao regime desde sempre.

A resistência do regime no início do conflito já apontava para uma guerra nos moldes daqueles vividos pelo Líbano nos anos 1970-1990, com facções religiosas recebendo apoio externo e usando de táticas fratricida e forçando conversões de parte das populações, em suma, a guerra apontava e hoje está claro que é este o caminho tomada por ela, para uma um processo de genocida e de eliminação em massa dos inimigos de ambas as partes.

A confusão se estabelece quando fica claro que nenhum dos lados conseguiria uma vitória fácil, e neste ponto uma explicação é a quantidade de grupos lutando por um ideal, todos eles com um princípio religioso como pano de fundo, e não mais político.

Vamos tentar entender quem são estes grupos, inicialmente os sunitas, maioria da população, que sempre viveu integrada e em paz na sociedade síria, parte dos sunitas recebeu recursos, armas e apoio logístico da Arábia Saudita, que são sunitas de tendência Wahhabista e que luta ideologicamente para aumentar a sua presença e influência religiosa na região.

Existem alguns grupos de desertores da elite militar e baixa patente sem uma identificação clara com as questões religiosas e que no início do conflito buscaram o apoio do ocidente, mais especificamente do Reino Unido e dos Estados Unidos, até onde se sabe esses grupos são pequenos, mas ativos em algumas regiões, e seus comandantes se norteiam mais pelo oportunismo da situação e um certo espírito de vingança contra o domínio do Baath e dos Assad. Neste momento é difícil dizer o tamanho estes grupos e se ainda operam em pequenas áreas, como na capital Damasco e ao longo da fronteira jordaniana.

O complicador da história foi a criação, a partir do Iraque, do Estado Islâmico, oportunizado pela guerra no país vizinho expandiu seu poderio por parte do território sírio e é a face mais cruel e midiática da guerra, perpetrando execuções e atos de selvageria em nome do islã. Em tese, o Estado Islâmico, é uma fusão da Al Qaeda com grupos radicais que gravitavam na região e tem o apoio, discreto de alguns estados do Golfo Pérsico. Eles são sunitas e dada sua intransigência religiosa tem um elenco de inimigos no islamismo, como o Irã e contra todos no ocidente.

Uma outra frente combatente é Al Nusra, que é sunita como o Estado Islâmico, e também tem pretensões cruzadistas e salvacionistas, até onde se sabe uma boa parte desta guerrilha, se juntou ao Estado Islâmico, ao menos uma parte expressiva dos seus contingentes, a outra manteve-se enfraquecida, mas ainda presente no território sírio.

Para além destas facções e grupos, existe a presença iraniana que mantém em território sírio uma parte da sua elite militar em uma guerra que não é santa, mas busca garantir a influência xiita, minoritária na região. O regime de Assad precisa e acolhe as forças iraniana, mesmo sabendo que os Aiatolás de Teerã repudiam teologicamente os alauitas, mas a conveniência da guerra permite tal aliança, que ainda recebe combatentes do Hezbollh baseado no Líbano e preocupado em perder o apoio de sírios e iranianos caso haja outro vencedor na guerra.

Existem ainda pequenas milícias cristãs incorporadas as forças regulares sírias, é sabido que se qualquer um dos grupos hoje vencesse a guerra, os cristãos, juntamente com os alauitas seriam os primeiros a serem dizimados.

Passados quatro anos do início da guerra civil todos os governos ocidentais, Europa e Estados Unidos, sabem que Assad, neste momento é o mal menor, pior seria a vitória de um grupo Wahhabista o que colocaria estes radicais sunitas nas portas de Israel e com consequências impensáveis. Mas muito, muito pior é imaginar que Assad caia e o Estado Islâmico se estabeleça na região, seu radicalismo e sua vocação expansionista, eles se entendem como cruzadistas, salvacionistas do islã, ficariam prontos para atacar, Jordânia e Líbano e depois Israel, estendendo sua influência sobre a faixa de Gaza, ao menos junto aos grupos sunitas.

Por mais incrível que possa parecer, manter Assad no poder, e é isso que os Russos estão fazendo, ampliando bases militares e aumentando os efetivos no país, tem as bênçãos do ocidente, a questão é que nenhum líder do lado de cá do mundo tem coragem de vir a público e dizer, - “ olha este ditador sanguinário é ainda a garantia mínima contra malucos cruzados deflagrem uma guerra santa contra o ocidente. Apoiemos Assad.”

No meio deste caos e da violência desenfreada de todos os lados, a população foge, sem outra alternativa. Na mesa de Vladmir Putin e Sergey Lavrov o ministro do exterior russo assim como no Pentágono e na Comissão Europeia o caminho estratégico para salvar interesses de todos ou de boa parte dos envolvidos, é fazer desaparecer a Síria e o Iraque como nações e outros paises serem criadas, isolando o Estado Islâmico e buscando compensações para os demais grupos da região e as nações que tem interesse na região como Arábia Saudita, Irã, Jordânia, Turquia, Líbano, e Kuait. E Israel correndo por fora. Na prática, hoje, ambas as nações não existem mesmo, ao menos geográfica e politicamente.

A alternativa pode ser viável se ainda incluírem os Curdos na questão e oferecerem um estado independente para eles. Quanto a população civil, não imagino alternativas de curto prazo para que elas permaneçam na Síria, não há garantia de nada, nos territórios sob controle de Assad, a tensão e pressão são enormes por apoio incondicional ao regime, do outro lado minorias e resistentes aos senhores da guerra são condenados a morte sem cerimônia alguma. Os civis estão a merce de todos e as paixões religiosas e políticas definem quem vive e quem morre.

A questão religiosa orienta o discurso ideológico de boa parte das facções que lutam na Síria, por mais que saibamos haver uma gama de interesses outros de muitas nações e grupos locais, a verdade é que a maldita religião serve de arcabouço legitimador para que milhões de inocentes sejam expulsos de suas casas e de suas vidas.

Ainda veremos, por muitos anos hordas de sírios vagando pelo mundo, pouca ou nenhuma esperança parece haver para eles hoje.


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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