obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

Refúgio da Indiferença

Refugiados africanos estão morrendo as dezenas, centenas , milhares e os europeus e os norte-americanos fingem que não é um problema deles, não é mesmo, é nosso, de todos nós, afinal estamos falando de seres humanos.


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No último ano e meio, a Europa - e mais especialmente a Itália e a Grécia - foi tomada por uma horda de homens, mulheres, crianças, velhos e toneladas de esperanças vindas da África e, agora nos últimos meses, de sírios à cata do que os africanos, magrebinos em sua maioria, procuram: uma vida digna em uma sociedade mais justa, igualitária e menos violenta.

A primeira constatação a se perceber, e indignar, é a indecente, imoral e aviltante posição dos Estados Unidos. A polícia do mundo simplesmente se calou nos últimos meses, e em especial nas últimas semanas, fingindo ser este um problema exclusivo dos europeus e de ninguém mais. Fato é que a política externa norte-americana no pós Segunda Grande Guerra é um caos com uma sucessão de equívocos, assassinatos em massa, guerras espúrias e perdidas, violações de toda ordem de direitos e princípios básicos. Do Vietnã à América Central e do Sul, passando pela África, os norte-americanos patrocinaram ditaduras sanguinárias, culminando com invenção do Talibã no Afeganistão. E agora no Iraque, durante dez anos de uma guerra que nunca foi vencida, fez surgir o Estado Islâmico.

Nada no pós-Segunda Guerra passou incólume à incompetência norte-americana. Este só é mais um, a indiferença com a humanidade, que ela lentamente ajuda a desumanizar, mas para além da desfaçatez norte-americana, temos o cinismo europeu pós-colonial, em especial Inglaterra e França, que inventaram fronteiras africanas e hoje se comportam como se não tivessem qualquer responsabilidade frente a este êxodo massivo. É preciso entender porque estas pessoas fogem de suas vidas, de seus entes queridos sua terra e arriscam tudo por uma vida melhor na Europa, que diga-se, tem facções conservadores babando de ódio só em imaginar o que estas hordas de desesperados possam viver em seus quintais, e uma parte delas é parte do estafe de poder em alguns países europeus.

Estes expatriados podem ser divididos em dois grandes grupos, os africanos magrebinos e os subsaarianos que fogem da miséria crônica e de conflitos regionais e tribais, os casos mais escandalosos são dos líbios, deixados largados a própria sorte depois da morte de Gadafhi, e metidos em um país sem lei e sem governo, só para lembrar uma milícia invadiu e matou, há pouco mais de três anos, o embaixador norte americano no país em um evento até hoje não explicado pelo departamento de estado. Se o embaixador da polícia do mundo é morto com esta facilidade o que dizer do cidadão comum? Alvo fácil das várias milícias que dividiram o país em áreas de influência tribal.

Ao sul do Saara, a miséria depois de séculos de exploração e usurpação associado a uma complexa teia de interesses nefastos em países muitas vezes inventados por tratados convenientes tornaram esta parte da África em um universo de conflagrações sanguinárias e esquecidas pelo mundo ocidental, do Atlântico ao chifre da África conta-se nos dedos nações que tiveram uma década de paz após a descolonização dos anos 1950-1960. De exércitos de crianças como na costa atlântica em Serra Leoa, Costa do Marfim e Libéria passando pelo genocídio em Ruanda e a desintegração da Somália como nação, hoje em situação similar a Líbia e o Sudão em luta religiosa e tribal constante, além do Zimbábue e a República Centro Africanas em crise econômica e política crônicas.

A situação no Magreb é de caos, com a Líbia esfacela a vida humana não vale nada, a Argélia oscila em uma guerra civil não declarada, mas alimentada pelos franceses desde os anos 1990 contra facções islâmicas radicais, a Tunísia sem apoio externo vai sendo sufocada pelo terrorismo, muito dele sustentado por governos do Golfo Pérsico. O Marrocos e sua monarquia bafeja na indigência e na pobreza, com as bênçãos de Paris.

Abaixo do Saara o caos, a miséria e a pobreza são a regra governos corruptos apoiados ou legitimados por europeus e norte-americanos exploram e punem suas populações com toda sorte de abandono. Viver em alguns países, como Mali, Chade, Sudão e Libéria é um exercício de coragem. A indiferença europeia e a norte-americana são aviltantes, se pudéssemos listar aqui a situação de cada um destes países. Fato é que a vida vale pouco nestes lugares.

A mão pesada da Europa na África por mais de cinco séculos hoje apresenta uma parte da fatura em botes e barcos improvisados largados ao léu no mar Mediterrâneo, todos os dias dezenas deles se aventuram na esperança de chegar ao litoral italiano, maltase ou grego e até a semana passada a comissão europeia na figura de sua mais alta comissária, com status de ministra do exterior da comunidade, Frederica Mogherini, decidiu parar de dourar a pílula e depois de mais de um milhar de mortos, isto é só uma estimativa, nem sabemos ao certo quantos já morreram na travessia do Mediterrâneo, sugeriu, apenas sugeriu cotas para imigração nos países comunitários, respondido de pronto com a negativa de alguns e com cinismo por outros.

Centenas já morreram e por dia outros milhares se aventuram para poder fugir, e tudo até então parecia viver a indiferença, até o dia que a criança síria aparece estampada nos principais jornais e no horário nobre de todas as televisões europeias, mas nem isso parece fazer eco para alguns governos, Inglaterra e França por um lado e Estados Unidos pelo outro simplesmente fingem que isso é problema de quem é dono das praias onde essa gente aporta, viva ou morta. Nem a Comissão Europeia em Bruxelas sabe ao certo quantos africanos já morreram nestas travessias, e nem parecem muito interessados.

Com os recursos logísticos hoje disponíveis, seria possível que os países mais ricos do mundo pudessem acolher estas pessoas, não parece ser esta a disposição, o departamento de estado norte-americano sequer se manifesta, o primeiro ministro conservador David Cameron finge que a Inglaterra não tem na a ver com essa história e os franceses, apavorados com a força da extrema direita e o terrorismo local pretendem que mais africanos, se possível, se afoguem no Mediterrâneo, salva-se neste mar de indiferença, a Alemanha, que se empenha em receber parte dos refugiados. Isto para não se falar de Polônia e da Hungria que odiosamente, com seus governos também conservadores querem ver todos os refugiados longe de suas fronteiras.

É difícil pensarmos o que será destes seres humanos, hoje vivendo precariamente, em sua maioria em campos de acolhimento na Itália e Grécia as pessoas estão morrendo e tudo que se lê e ouve das autoridades e nações mais ricas do mundo são evasivas de toda ordem, as cotas sugeridas pela bela Frederica Mogherini são pífias e até agora nem um plano de contingência, para evitar as mortes estúpidas no Mediterrâneo foi pensado.

Estes seres humanos de pele escura querem um pedaço da boa vida, da vida digna que os europeus e norte-americanos amealharam nos últimos séculos muito em razão das estripulias militares, política e econômica que estas nações fizeram na África, o mundo não está globalizado? O Capitalismo não é o regime da riqueza? Pois bem, estes seres humanos estão dizendo, gritando, até o último suspiro, que desejam uma parte, para que? Só para viver com dignidade e poder manter as esperanças. Viver, e só.


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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