obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

O Gay Caricato

O problema do comportamento humano nas esferas pública e privada


Em meio a uma discussão sobre a inserção no mercado de trabalho de jovens homossexuais, me deparei com uma questão séria e ao mesmo tempo complexa, que acabou por me fazer parecer conservador, algo que não sou, diante dos argumentos da outra parte e da sua virulência em defender seu ponto de vista.

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Pois bem, a questão é sobre a postura afetada, em especial dos homens, quando na vida pública. Por vida pública entendemos tudo aquilo que não se encontra na esfera privada, ou seja, as relações de trabalho, os encontros sociais ou profissionais com não amigos, e para ser mais abrangente, a esfera pública é tudo que está no âmbito do político, ou seja a vida fora da redoma protegida da casa ou de cúmplices afetivos.

Postura afetada é a inflexão de voz acentuadamente afeminada, acompanhada de trejeitos e gestos por vezes exagerados e desmedidos. Em uma evidente demonstração de que não se é nem homem e nem mulher, mas sim homossexual. Essa na verdade é a forma mais estereotipada e carnavalesca da figura do homossexual em nossa sociedade e, em nossa cultura. Algo um tanto exagerado e meio cômico que o carnaval se incumbe de refletir. Em Dona Flor e seus dois maridos de Jorge Amado Vadinho sai vestido de mulher e todo espalhafatoso pelas ruas de Salvador, assim como muitos se vestem de mulher caricatamente para se divertir, exagerando nos gestos e vozes.

Chamo de caricatura a re-leitura da realidade com traços de exagero e humor combinados, quando penso na figura do homossexual caricato, vejo aquela figura desmedida em atos, gestos, com uma prosódia desagradável, nem feminina e nem masculina, no qual, em alguns casos somos compelidos ao riso dado seu exagero, o desmedido como uma mimese do feminino, e por não ser uma mulher, até porque as mulheres não são assim, se constrói uma caricatura. Decididamente não consigo entender o exagero de gestos e palavras de alguns homossexuais, insisto na ideia de tudo fazer parecer a quem ouve e vê, uma carnavalização do comportamento. Neste sentido, muitas vezes, como ao “ler” uma caricatura, nos divertimos, rimos e fazemos troça.

Reflito aqui não aquilo que EU acho, mas aquilo que É, na esfera pública, não se espera de um médico diante do paciente, do advogado diante do juiz, do engenheiro frente aos comandados, do professor com seus alunos, do contador o economista o veterinário com seus clientes um discurso perfilado em trejeitos afetados com uma inflexão pouco convincente. Isto não tem nada de preconceituoso, é apenas bom senso, Tim Cook , presidente da Apple é homossexual e nem por isso quando apresenta um novo produto se põe diante das pessoas com afetação ou com trejeitos, ou se deixa afetar, alongando vogais ou dando “pitis”, e mais, um dos grandes líderes pelos direitos civis dos homossexuais, Harvey Milk, na vasta literatura que trata dele e de seu papel político, em nenhum momento aparece algo caricato ou estereotipado, ele, antes de tudo, como Cook, é um cidadão se comportando na esfera pública de maneira discreta, para que não se deixe margem de dúvida acerca da sua seriedade, a atenção está no conteúdo da sua fala e não na sua opção sexual. Mesmo Milk sendo militante não se deixa levar pela performance no lugar do conteúdo.

Seriedade é a palavra que se contrapõe a afetação de gestos e voz exatamente com o mesmo intuito que tem um hetero assim se comporta para ser ouvido, se não fosse desta forma dificilmente estes homens seriam reverenciados naquilo que fizeram ou fazem.

O sentido desta discussão, na qual fui chamado de atrasado, é a inconformidade de alguns militantes em entender porque empresas não se sentem confortáveis em contratar homossexuais que sejam afetados, caricatos, porque simplesmente estas empresas sabem que por mais que eu, elas e muitas pessoas reconheçam os direitos iguais dos homossexuais, há uma questão cultural de fundo, mais forte que eu, o direto e a empresa que é, a cultura em nosso entorno, seria no mínimo constrangedor pensar em uma reunião de trabalho no qual, um comportamento caricato se fizesse presente, do mesmo modo que um funcionário, se perder a compostura na mesma reunião, seria demitido ou severamente advertido, o este constrange a todos, o outro provoca risos incontidos.

E pior, se ser caricato é uma forma de militância e autoafirmação de uma causa está errado, pois existem outras formas de se lutar e fazer ouvir que não seja a exposição ao ridículo ou sendo a caricatura de si mesmo. Gostaria de me deter especificamente no problema comportamental, na vida pública, um parceiro de trabalho, um cliente, um chefe, um terceiro nas relações, e não importa gênero ou escolha sexual, se espera que tenha um comportamento adequado, ninguém tolera pessoas grosseiras, que usam palavras inadequadas, chefes abusivos com “pitis” no qual ofendem a todos ou ameaçam os subordinados, pessoas destemperadas que por pequenos ou grandes motivos se descontrolam ou simplesmente se comportam de forma abusiva. O que estamos tentando mostrar é que, a questão comportamental vale para todos, em uma entrevista de trabalho não se flerta com a entrevistadora a nossa frente, da mesma forma não se diz impropérios de baixo calão para se referir a quem quer que seja, ou, como não deixar de se ter um certo incômodo diante de alguém afetado e repleto de trejeitos com uma voz dissonante.

Na esfera privada podemos ser o queremos ser grosseiros, brutos, cheios de manias e afetações, mas na vida pública e, especificamente no mundo do trabalho, se não houver o mínimo de comedimento de nossa parte, se nosso comportamento não for razoavelmente adequado para se evitar conflitos desnecessários, ou chacota na qual se acabará trazendo à baila conflitos, simplesmente não á espaço.

Defendo intransigentemente o direito de todos os cidadãos não importa sua opção sexual a ter uma família, ter filhos pelos meios que assim desejar ou puder e ter plenos e iguais direitos. Mas não posso entender o sectarismo de alguns coletivos e grupos LGTB em querer impor as empresas uma prerrogativa da qual elas não são possuidoras, a percepção cultural dos indivíduos acerca do outro.


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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