obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

A Guerra como Alternativa

Travar uma guerra contra o Estado Islâmico parece ser o caminho inexorável, uma guerra antes de tudo cultural.


Os animais que perpetraram os atentados da sexta-feira, treze de novembro, em Paris, em carta ao jornal Le Monde colocam em seu cabeçalho que falavam em nome de Deus e em nome da sua misericórdia, assim como haviam feito três semanas antes na carta em que assumiam o atentado contra o avião russo no Egito. A expressão Misericórdia de Deus é repetida ao menos cinco vezes para louvar o assassinato covarde de inocentes.

Será esta mesma misericórdia de um Deus que não creio e não pode existir se admitirmos a simples lógica de haver um Deus tão mal(u), pois este mesmo ser misericordioso abrirá definitivamente as portas do inferno para estes animais travestidos de humanos. A Guerra virá.

Durante todo final de semana, as televisões da França, Itália e Alemanha dedicaram horas e mais horas de sua programação para debater o tema da guerra e como ela se dará. Exceção dos ingleses, capachos dos norte-americanos e no aguardo para saber para onde penderá seu aliado, as principais nações europeias não têm dúvidas quanto ao início de uma nova guerra no Oriente Médio e de proporções maiores e mais profunda do que até então vivemos e conhecemos. O nível de tensão e indignação chegou a tal ponto que os jornais suecos de domingo noticiavam e analisavam o fechamento das fronteiras do país, algo inédito no pós segunda guerra, parte da imprensa sueca defende a tese de países como França, Itália e Rússia de que a guerra é inevitável.

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De tudo que pude ler e ouvir, o mais interessante foi a análise do ministro do interior da Itália, Angelino Alfano em um programa de televisão na RAI sábado à noite na qual ele falava da diferença cultural que nos separa destes animais.

Sem traços de xenofobia ou qualquer outro preconceito, fica claro que o que desejam estes seres tementes a este Deus misericordioso, é um ódio político ao modo de vida que nós ocidentais temos, um misto de complexo de inferioridade com uma leitura de mundo despregada de qualquer sentido compreensivo acerca do que é vida, sentimento, humanidade, comportamento, intelecto, conhecimento, ciência e verdade.

É bom que se diga, esta discussão nada tem a ver com o um bilhão e seiscentos milhões de muçulmanos do mundo, mas sim, tem tudo a ver com estes grupos de radicais tomados de um fanatismo político, no qual a religião é o melhor escudo legitimador, que se interpõe entre a nossa cultura e eles.

A guerra, proposta pelos europeus, é cultural e é de extermínio destes grupos, não há possibilidade de negociação ou acordo, é uma guerra para se vencer ou vencer. O tom belicista do ministro italiano não difere dos seus pares, é um embate entre a civilização e a barbárie, e se não houver guerra se terá aberto as portas para que a extrema direita europeia a arrombe, e faça o banquete dos mais conservadores, penalizando muçulmanos inocentes que vivem por toda Europa e, com consequências nefastas para todos cidadãos europeus, os mais conservadores no poder em momentos de crise já se mostraram despreparados e rancorosos com a sociedade e a cidadania.

Por sinal, a extrema direita, seja na França, na Itália ou na Inglaterra já tenta capitalizar na tragédia de Paris, defendo a expulsão e a prisão arbitrária de muçulmanos e processos que afrontem o maior bem que temos, e os animais do Estado Islâmico desconhecem, a Liberdade. A nossa extensa, contraditória e divertida liberdade é o que mais aflige aos animais e a extrema direita, defende-la é primordial, vive-la é o próprio fim e razão de ser do mundo ocidental e burguês.

A questão religiosa não é secundária como alguns querem fazer crer, é essencial para arregimentar e determinar fins claros nas ações terroristas, ao fingir ser secundária a questão se deseja evitar a guerra e o inevitável embate cultural, que digamos, já ocorre nos principais países europeus, em todos eles, da Suíça a Dinamarca, passando pela França, Inglaterra, Alemanha e Itália todos tem leis restritivas a alguma prática de caráter cultural e religioso dos muçulmanos locais. Nós adviemos de um outro lastro histórico, a cultura greco-romana e a tradição judaico-cristã é, possível conviver com os muçulmanos com certa tolerância, mas a guerra proposta, e em curso, tem traços culturais e de separação clara, do tipo, nós cremos nestes valores, e vocês nestes outros.

Os animais do Estado Islâmico pregam entre outras coisas a escravidão, a mutilação física, o sequestro das mulheres conquistadas e a sua transformação em “esposas” dos soldados conquistadores, para além de queimar e degolar pessoas assim como nós optamos por este ou aquele produto em uma prateleira. Estas práticas são entendidas como teologicamente aceitas em um Califado, e são praticadas sem qualquer constrangimento. Liquidar inocentes em praça pública, metralhar comensais em um restaurante é algo culturalmente difundido e aceito nas hostes destes homens. Liberdade e alegria parecem trazer mal estar a eles.

Sem ingenuidades infantis, a maioria dos muçulmanos deseja usufruir e viver as benesses do mundo burguês ocidental, achar que este mundo globalizado, repleto de corporações ambiciosas e desejos de novos mercados e lucros, do qual a elite muçulmana participa, e gosta, ser vista como um mal é tolice. A maioria quer ser parte do jogo, para ter um bom smarthphone e uma TV de tela plana com HD, e para isso é preciso admitir a presença ocidental em seu meio, os cínicos dirigentes das micronações no Golfo Pérsico que o digam, Emirados, Catar, Bahrein e Kuait tiram proveito destas maravilhas e da riqueza que brota do petróleo e das relações financeiras globais destas economias.

Uma guerra de caráter cultural não atinge estes parceiros que lucram, e felizes, participam da festa burguesa, ela vai bater na periferia do mundo árabe onde parte expressiva dos miseráveis e desvalidos são alvos fáceis dos animais que vivem na idade média, e a ele se juntam alguns milhares de “europeus” desejosos de viver a barbárie não mais como utopia fantasiosa virtual mas efetivamente, creio, mais do que o simples alijamento de parte da população dentro das fronteiras europeias a justificativa para esta adesão é a sedução do fanatismo religioso, há um componente humano que se permite e deseja seduzir, e quer ser seduzido pela doença religiosa, defendo a tese que uma parte dos homens e mulheres adoram pensar na ideia de um deus serial killer, do qual eles são agentes legítimos da sua vontade aqui na Terra pondo fim a todos que NÃO são ou não creem como eu.

A periferia do mundo árabe, os seus pobres são as verdadeiras vítimas desta situação, a sua adesão aos animais enlouquecidos serve como esteio de esperança ou única alternativa cabível diante de miséria e atraso em que vivem, estes são a periferia da periferia, ou fogem como fazem agora aos milhares para se protegerem ou ficam e se submetem ao mundo revival do medievo que o Estado Islâmico propõe.

Uma guerra é sempre trágica per si, e pelos seus efeitos diretos e colaterais, os mais pobres irão sofrer e muitos irão morrer, a questão é que a maioria dos ocidentais, razoáveis e de bom senso, não desejam mais bancar uma ideia de tolerância diante de um interlocutor com uma arma nas mãos. A guerra contra os insanos muçulmanos buscará por um fim nas ameaças, destruir uma ideia, é isto que se persegue agora e os europeus discutem como faze-la, dará trabalho, mas, que outra alternativas se tem?


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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