obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

O ANO DA INFÂMIA

O ano em que as instituições brasileiras foram tomadas de assalto por bandidos e chantagistas.


A década de 1930, é conhecida na Argentina como a década da Infâmia, expressão cunhada por historiadores e pela classe política, por se tratar de um período na qual a Argentina mergulhou em um tempo sombrio, combinando a decadência econômica e política do país nas mãos de militares e de uma oligarquia burra e conservadora, com a manipulação descarada do processo eleitoral e alijamento da população da vida do país.

Este ano, no Brasil, pode ser chamado de o ano da infâmia, poucas vezes fomos capazes - em nossa História republicana - de criar momentos tão vexatórios e, ao mesmo tempo, ver à frente das mais importantes instituições do país um bando que tomou de assalto a nação.

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A Infâmia começa com a crença mirabolante, para não dizer cínica, de que os 54 milhões de votos da presidente eleita não deviam ser respeitados, a oposição, um deserto de liderança e um tsunami de incompetentes se fizeram juntar com grupelhos conservadores e autoritários saudosos da ditadura e com profunda ojeriza da classe trabalhadora no afã de perpetrar um golpe de estado. Ou não há simbolismo e sinalização do que viria quando lembramos a manifestação dos ricos e brancos, moradores do bairro de Higienópolis, em São Paulo, contra a chegada do metrô no bairro e a “gente diferenciada” que ele traria? Isto lá em 2010 já apontava o que estava por vir. Ou o desconforto com a quantidade de “gente diferenciada” em aeroportos e voos pelo país.

Do outro lado, o congresso, tomado de assalto por uma cruzada dos leais servidores de Cristo a serviço da barbárie e do atraso, resgataram tudo que de mais nefasto se poderia imaginar e infamante para a nação, senão vejamos: mudança na maioridade penal, queda do estatuto do desarmamento, negação da laicidade do Estado, chegando ao absurdo de se realizar um culto religioso na Câmara dos Deputados, chantagem aberta com o executivo para aferir vantagens pessoais de toda ordem e, por fim, um toque de maldade, o recrudescimento das práticas já limitadas do aborto. Jesus está no comando e Cunha é o usufrutuário dele, em uma legislatura que entra para história como uma das mais sombrias.

O executivo se fez refém dos meliantes, se mostrou impotente, e ainda mergulhou o país em uma crise econômica com precedentes, a menos para quem conhece nossa História, apesar da presidente ser uma mulher honesta e digna, politicamente se mostra despreparada para lidar com a crise, mas destitui-la para quê? Gostaria de ouvir a resposta da oposição, porque a situação econômica não irá melhorar e o partido destituído continuará ativo e vivo fazendo política e fazendo-se presente na vida do país.

No judiciário, um juiz sem noção metido a justiceiro prende para aferir confissões coagindo suspeitos, auxiliado por uma polícia corrupta que vende delações e informações no atacado e a granel, é só pagar, e não irá custar muito para produzir provas contra alguns, qualquer dúvida é ver a história do banqueiro milionário, puro pleonasmo, que tinha em mãos documentos sigilosos vazados de dentro da carceragem da polícia federal.

O ano da infâmia se consagra com a pseudo indignação pública com os atos de corrupção que pululam pelo país, pois bem desde que a OCDE e o Banco Mundial fazem análises setoriais e dos seus países membros no quesito corrupção o Brasil sempre esteve no topo, a indignação é típica da classe média e a elite que se finge de aviltada, quando na verdade sonha para si e para os seus uma boquinha no butim. Tanto é verdade que para a maioria conservadora defender um corrupto confesso como Cunha é fácil, ou o governo de São Paulo, atolado até o pescoço com denúncias no metrô e trens urbanos, em detrimento do ódio contra a presidente honesta. É a indignação seletiva. Assim como a memória é seletiva, escolhe o que lembrar, em especial quando o ódio se põe a frente ou a crendice religiosa paira sobre as almas.

A corrupção é uma mazela brasileira, a maioria dos cidadãos se regozija de prazer quando dobra um guarda com uma caixinha, escapando assim de uma multa de trânsito. A sociedade é conivente com a corrupção e não será este espetáculo circense e non sense que vai por fim a ela. O que não dá para aguentar são as vestais, as virgens no meio da zona, tipo Aécio, FHC, Caiado, Serra, entre outros tantos se pondo estarrecidos.

Chegamos ao final do ano infame com uma negociata de fazer os grandes líderes da República como Floriano Peixoto e JK virarem na tumba de perplexidade, se deseja impedir à presidente, e com isso o que poderá restar da nossa democracia, conquistada a duras penas? Os diversos grupelhos conservadores salivam pelo poder e desejam ardorosamente uma nação mais autoritária, mais atrasada nos costumes e por conseguinte mais repressiva com os diferentes, e dentro de diferente você pode colocar tudo o que não é igual a eles, como nos anos 1960-1970 “somos todos comunistas” estes idiotas, propositores da conservação vêm comunistas em todos os lugares, dos coletivos gays até os que defendem a democracia como eu, se duvidar é só ler alguns autores aqui do Obvius para tudo há uma explicação comunista, e para tudo há uma saída mítica em Cristo. Nada mais aterrador do que imaginar que estes crentes com seu Deus vingador e punitivo governando nossas vidas, é de causar calafrios.

Na superfície destes movimentos conservadores se põe o desejo de nos fazer ficar literalmente de joelhos, do outro lado os oportunistas de plantão apinhados no meretrício do congresso e na sopa de letrinhas dos partidos querem um pedaço do poder para si. Pergunte a oposição qual o projeto de país deles, não há, o projeto é tirar uma corrente hegemônica do poder, este é o projeto, tipo assim, perderam o jogo e agora lutam para furar a bola para que ninguém mais jogue. A cidadania seja nas mãos dos conservadores, seja nas mãos da oposição está em risco.

Quem sabe, é chegada a hora daqueles que não compactuam com infâmia mostrar que não se deve e não se pode respeitar quem nunca nos respeitou, durante toda história do Brasil, porque todas as vezes que os conservadores tomaram o poder, a prisão arbitrária, a tortura e a violência foram as suas práticas. Contra a infâmia o desrespeito, contra os cínicos que nos afrontam com seu conservadorismo, um pouco mais de caos e desordem, um pouco mais de revolta e desrespeito contra esta parte que não respeita ninguém poderia ser um bom remédio contra a letargia e a babaquice que nos assola.


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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