obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

SEM HORA PRA VOLTAR

O belo filme "Que Horas ela Volta?" em um olhar sobre as nossas origens e o que hoje somos.


O filme “ Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert, é uma obra única e feita apenas e tão somente para que nós brasileiros possamos entende-la, expliquemos. O filme é excelente, uma leitura não do Brasil do século XXI e das suas tensas e tênues relações sociais advindas de mais de uma década de inserção das massas excluídas e pobres por um programa de distribuição de renda, mas sim, na verdade, o filme é uma leitura histórica de quem nós somos como sociedade, o que em muito explica o estado de ódio latente que hoje viceja entre nós e serve de motor a dividir a sociedade.

Val, a personagem central é uma mulher miscigenada, assim como a maioria e é oriunda de Pernambuco, não saberia dizer se houve intencionalidade ou não da diretora em delimitar a origem, mas ela é a mesma de Gilberto Freyre, o pensador brasileiro que entranhou por décadas a crença de uma democracia racial entre nós e criador de uma zona de pacificação e harmonia entre a senzala e a casa grande. Pernambuco foi por dois séculos a mais importante região brasileira e tem importância fundamental na construção territorial e indenitária brasileira, muito do que somos e como somos passa pela organização e formação da sociedade pernambucana, sua história é subestimada em nossa história e pouco conhecida pela maioria.

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Somente para tentar localizar a personagem no contexto da obra recordo dos últimos cinquenta anos, foi em Pernambuco pouco antes do golpe de 1964 que Francisco Julião, líder dos camponeses locais lutava contra senhores de engenho, latifundiários e coronéis de todo espécie. Foi depois do Golpe de 1964 em Pernambuco um dos estados que mais se perseguiu, torturou e matou no Brasil. Val, é fruto de uma história que insiste em fazer de mulatos, pretos e ou pobres sujeitos submissos, entregues à própria sorte e sem direitos, servindo, servindo, e servindo – “ Val. Por favor acende a luz.” “Val. Traz o sorvete.” Val. Por favor, eu quero sua filha da porta da cozinha pra lá! Entendeu?” Val é antítese de Julião e sua luta de libertação e direitos dos camponeses pernambucanos e brasileiros. Como se posto do avesso tudo que se pretendia com as Ligas Camponesas, Val é só a submissão, pura e simples.

A ditadura não só fez reverberar as históricas posições ideológicas constituídas na história brasileira, ela assassinou as lideranças que buscavam literalmente libertar uma parte do povo brasileiro que viva ainda em condições muito parecidas com a vida não mais escrava, mas servil. Val é uma serviçal com este lastro histórico em todo sua essência, nela se pode observar tudo o que Julião e muitos outros tentaram extirpa das relações sociais brasileira, um servilismo do qual a filha, consciente se rebela sistematicamente, e neste momento a diretora do filme deixa aberta uma porta de alento, para todos, um bom professor diante de um aluno dedicado, como Jessica, a filha de Val, é capaz de pôr a mostra todas as evidências da realidade.

Um professor conservador e reacionário teria feito de Jessica outra pessoa, uma sucessora de Val nas boas casas de família, em São Paulo ou no Recife, um bom professor, crítico e indignado, com certa verve revolucionária e indignação pode fazer milagres por seus alunos. A educação é muito mais que as formalidades estatuídas ela vai além disto, e um componente ideológico e crítico é fundador para libertar, muitos discordam, sim, muitos desejam que as Vals não terminem nunca de servir.

A beleza do filme, entre outras coisas, é a viva tensão entre o fazer e no não fazer de mãe e filha, uma sempre disposta a realizar tudo e que os senhores mandam, a outra nem sempre disposta a fazer, e antes de fazê-lo perguntar, por que eu? Por que não você? O quartinho, abafado e asfixiante é apenas o lugar material no qual se reduz a outra senzala. A feijoada, criada nestas senzalas com os restos do porco desprezados pelos senhores, é hoje o sorvete belga de avelã e chocolate, a mesquinharia ela não existe aos olhos do outro, a cena de Jessica, de pé na pia sorvendo o alimento dos senhores dono da casa grande flagrada pela sinhá é uma síntese contemporânea, a sinhá não diz, - solte isso, pare de comer o Meu sorvete. – pelo simples fato de poder parecer mesquinho, e se há algo feio é parecer ser o que de fato se é, parecer ser é mais importante do que ser. Os olhares, o silêncio sem música ou qualquer senão na cena fala por si, a menina constrangida e a dona do sorvete a se perguntar, - quem ela pensa que é? Nem sabe quanto custa! Pobre é uma merda!

Um dos símbolos do filme é o conjunto de café com garrafa térmica comprado nas Casas Bahia, para presentear a patroa, e desprezado, hora com educação, hora com virulência, para alem das compreensões estéticas que separam o servo do senhor, o brasileiro educado morador da suite do outro do quartinho, é o que simbolicamente representa o presente das Casas Bahia, o ato de maior subserviência a sinhá, e a consciência de Val se apercebe disso, ao fim do filme, o conjunto de Café é também a despersonalização da dona da casa, da patroa por Val. Símbolos foram feitos para serem também desconstruídos ou despossuídos, ou um dos medos das nossas elites mais conservadoras não é ser despossuído de seus "bens" pela massa? Ver sua piscina tomada de pretos, pobres, mulatos e nordestinos? Seus aeroportos e aviões ocupados por gente com cara e jeito de desocupado?

O melhor do filme, porém, é a relação de José Carlos, o patrão e Jessica, a filha de Val, condensa-se ali, desde o primeiro encontro entre eles tudo o que nos formou como sociedade, e como havia notado Gilberto Freyre, em Casa Grande e Senzala e Sobrados e Mocambos houve sempre um consentir entre a negra e o senhor, a mestiçagem não foi fruto da força, foi antes da sedução e de acertos advindos das diversas heteronímias que formavam nossa sociedade entre os séculos XVI e XIX. A violência não era a parte do encontro sexual, era um pacto sublinear que perfazia a vida entre a casa grande e a senzala, o pátio da casa e a relva, entre a sinhazinha puritana e histérica e a negra fogosa e sensual, são nestes vazios que os desejos do homem branco, mesmo fraco, indolente e arrivista se faz presente cumprindo o dever de suprir a vacuidade construída pelo modelo social. O ápice do filme, sob meu olhar, é o patético, quase infamante, pedido de casamento do senhor dono da casa grande, é no limiar a virada da história, da nossa história, sem poder possuir a escrava ou serva pela força, resta o patético papel de implorar alguma comiseração, mas como não há mais comiseração com os senhores, os servos não precisam mais deles para ter um lugar na casa grande ou preencher vazios na existência infeliz destes senhores. O homem branco preencheu na história os vazios impondo-se a mulher negra ou mestiça pela coerção e pela força, pois crê ser a negra e mestiça a melhor expressão da sua dominância estéril e hipócrita. O vazio se preencheu com a força e o sexo, e não pelo afeto carinhoso, a cola que fixava os elos a preencher este vazio civilizatório. Ou algum de nós crê ainda que a escravidão e a servidão possam serem entendidos como estado civilizador? Civilização hoje é apenas desprezo, profundo, por um senhor lascivo e fraco, tão fraco que disponibiliza para o pobre a subserviência de sua alma medíocre, desamparada e oca. Jessica parece em tudo mais civilizada que o patrão. E este ponto se coaduna com uma sutileza no filme que acredito poucos notaram, o seu profundo laicismo.

Em nenhum momento a palavra deus, jesus ou qualquer referência religiosa se apresenta para amparar dores, alegrias, intempestividades ou revelações. Não aparecem símbolos religiosos de nenhuma espécie, se o filme faz uma ponte entre a nossa memória e o tempo presente é o realismo laico quem oferece a oportunidade de colocar as coisas hoje, no bairro do Morumbi em São Paulo, com uma família branca e de elite, o vestibular da Fuvest e as contradições de vivermos hoje com o fardo de nossa história colonial, cristã e servil.

O espectador pretensamente realista dirá ser um descalabro, mas é, creio, propositado, pois se houvesse o deus, o jesus salvador e legitimador da servidão, da solidão e da dor pouco restaria para se pensar quem é e quem será Val, ficaria tudo muito simplório, e sem sentido, a arte pode subverter o real, as evidências de humanidade, e só a humanidade das personagens me parecem muito mais ressonantes com a realidade do que uma Val sustentada por uma fé non sense na qual um pastor enlouquecido, um padre careta, se faria de alicerce para a servidão e o dízimo arrefeceria a angústia da pobreza e da desesperança que rodeia Val e o futuro.

O futuro, o amanhã? Ele é jovem, inteligente, laico, desbocado, sem culpas, sem remorsos ou tristezas imobilizadoras. A vida é boa por ser capaz de nos oferecer a chance de reconstruir o hoje e o amanhã todos os dias, basta estar vivo. Ou, como muitas famílias dos Morumbis do Brasil, o amanhã poderá estar na Austrália, nos Estados Unidos na Nova Zelândia bons lugares para a nossa elite purgar a sua mediocridade patética, e quem sabe, longe daqui, permitir que todos participem e possam tomar o mesmo sorvete.

Este não é um filme para o Oscar, é um filme para lembrar o que nós somos e de onde viemos, somente quem conhece o Brasil é capaz de perpetrar sua beleza e importância.


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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