obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

PARENTI SERPENTI ou PARA QUE SERVE A FAMÍLIA

Revendo o filme italiano, Parenti Serpenti de Mario Monicelli e o que é a família hoje. Ironia e alguma sordidez ao olhar para esta impoluta e "sagrada" instituição.


O grande diretor e ator italiano, Mario Monicelli (1915-2010) dirigiu em 1993 uma obra seminal da vida contemporânea ocidental, Parenti Serpenti, que em um raro rasgo de inteligência foi traduzido para o português como Parente... é serpente. Não farei uma sinopse do filme, convido o leitor à assisti-lo, está disponível " target="_blank" rel="nofollow">aqui.

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A obra, em verdade, se dedica a pôr à mostra, o que se tornou a família contemporânea, em meio aos mais variados interesses e egoísmos envolto no individualismo pesado que nos acerca. A destituição do sujeito amoroso, preocupado e solidário que se possa imaginar um dia ter existido no seio das famílias ocidentais, com certeza está em extinção.

Em tempos sombrios no qual alguns se dedicam a dizer que a família é um ser natural, advindo de Deus e abençoado por natureza por todos os santos e deuses do planeta, Monicelli nos expõe o que os estudiosos dessa instituição social a muito já sabiam, a família é uma arremedo de conveniência e busca de perpetuação da espécie como já se sabia desde Darwin, antes de ser uma ato de amor enlevado aos céus pela força da fé, é tão somente um estado de acerto e conveniências temporais muito bem ajeitadas no decorrer da história humana e convenientemente ordenada para responder as necessidades do meio em que vive.

Convido o leitor a ler a biografia de Guilherme Marechal ou o melhor cavaleiro do mundo, escrita pelo maior historiador francês do século XX, Georges Duby, traduzido e editado pela Graal, é revelador como os pais tratavam seus filhos na alta Idade Média, e como sentimentos de amor incondicional ou compaixão solidária com os próximos é apenas uma questão de conveniência histórica. Em seguida se tiver um pouco mais de tempo, leia Sexo e Poder. A Família no Mundo 1900-2000 do professor e pesquisador sueco, Göran Theerborn editado pela Contexto.

Estas duas obras apenas ilustram o que desejamos atestar, a família é somente um lugar igual as demais instituições sociais, se adequa e se mantém respondendo as demandas da realidade e, claro, aos homens e mulheres. O serpentário do qual trata Monicelli expõe como uma sociedade historicamente impregnada do discurso cristão e todos aqueles decantados valores, hoje tão repetidos em altos brados no Brasil pelos mais conservadores, é uma grande baboseira, coisa para boi dormir e acordar morto de raiva.

Discutir o conceito de família, nos termos propostos hoje para nós, é tão insosso e tolo que não mereceria atenção dos mais inteligentes não fossem os propositores da discussão aqueles que tem hoje o poder. Como a história humana revela, e poderia compor uma lista de duas centenas de obras científicas sérias e respeitadas no mundo todo, a família irá se adaptar aos novos tempos combinando a ciência as manifestações sexuais de todos do corpo social.

Para os românticos ou os conservadores de feição fascista-religiosa, que pensam ser o amor humano ou divino a nos governar na criação e preservação da família, recomendo o deleite do filme de Monicelli. Amores incondicionais são apenas incondicionais, e não importa se falamos de pais ou de filhos, até o momento em que o meu interesse não seja ferido em detrimento deste amor. Nosso prazer hedonista e egoísta se sobrepõe a qualquer intervenção, seja de que caráter for, quando o meu querer é mais importante que qualquer outro.

monicelli.jpg Mario Monicelli

O amor familiar e as tramas dele decorrentes continuarão a existir, mas a crença cega, como alguns ainda tem, de que a família está fortemente sustentada no amor recíproco e ele a guiar as ações e trocas entre seus iguais, é algo que parece cada vez menos prevalente na sociedade ocidental, os níveis de divórcios e tempo de permanência dos casamentos tem oscilado brutalmente para cima nos últimos cinquenta anos na proporção inversa que se procria e coloca-se herdeiros no mundo.

A perenidade do amor familiar é tão extensão quanto o tempo de se consumar um processo de divórcio, semanas, no máximo meses. Não é por outra razão que o filme de Monicelli expõe o desgaste do amor filial e parental de forma tão escancarada e por vezes cínicas com toques de sordidez. Conviver já é algo pontual na maioria das famílias, os encontros são esporádicos, extemporâneos e cada vez mais breves. Monicelli mostra os limites no tempo deste pretenso amor incondicional e perene. Exageros à parte, o serpentário no qual todos vivemos pode estar cheio de najas venenosas ou de cobras até grandes, mas sem veneno para nos matar, só para nos incomodar.


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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