obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

ATÉ QUANDO?

Até quando iremos fingir que o aborto não é um problema? É preciso trata-lo com seriedade republicana e não com tolices religiosas. Até quando as mulheres serão tratadas como cidadãs de segunda classe? Na sociedade do fato consumado, um milhão (!!) de abortos por ano, não parece algo relevante?


Até quando a sociedade brasileira irá se recusar a colocar em pauta a questão do aborto? A realidade é pródiga em oferecer oportunidades, e este parece ser um ótimo momento para que tal debate aconteça e se avance, rompendo com a hipocrisia machista, religiosa e se desça a rua, e a vida laica e republicana, na qual as mulheres possam efetivamente serem atendidas.

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A crise vivida com o surto de Zika é o pretexto ideal, diante da comoção por tal situação não é possível esperar para se pensar e sair deste lugar comum e moralista no qual estamos.

O aborto é algo fácil? Não, não é nada fácil, e quem conhece uma mulher que o tenha feito sabe das consequências e sequelas deixadas por tal atitude, fácil não é, mas pior é deixar milhares, sim milhares de mulheres à mercê da sorte.

Em fins dos anos 1990 a FGV no Rio de Janeiro fez uma pesquisa sobre o aborto na cidade do Rio, e se constatou o óbvio, quem massivamente faz uso dele são aquelas que podem pagar e serem bem atendidas e amparadas, todas advindas da classe média e das elites, como noticiou o jornal Folha de São Paulo do dia 31 último, um aborto custa entre cinco e quinze mil reais. As mulheres pobres ficam em duas condições distintas, violentadas pelas mãos de clínicas populares com recursos limitados e higiene precária, mas com preços módicos, e outras, mais pobres e carentes, são “atendidas” por curiosas e pessoas que tiram proveito da situação precária e de desespero destas mulheres fazendo intervenções horrorosas nos corpos destas mulheres. Em todas as situações a vida da mulher fica em risco, isto quando não termina em tragédia, com a morte dela ou um grave quadro infeccioso e demais complicações. Ao cabo disto, todas indistintamente, acabarão abaladas psicologicamente e dependendo do homem que é seu parceiro esta situação só tende a piorar.

Em suma, todos minimamente informados, sabem que as mulheres mais pobres acabam desamparadas clínica e psicologicamente relegadas ao silencio e a hipocrisia da nossa sociedade, e falamos aqui em algo em torno de 1 milhão(!!) de abortos anuais com uma incidência de morte de 25% a 30%. Se não é este um problema social e de saúde pública é o que? Religioso? Mas não é mesmo.

Causa profunda revolta, em mim que sou homem, ver um bando de alucinados defensores “da vida” em sua maioria todos eles de caráter religioso fazendo torça de uma questão que não é religiosa, com argumentos que pouco importam, como pecado, criação de Deus e outras coisas que não tem a menor importância no momento de uma decisão como esta. Esta é uma discussão sim de saúde pública e de interesse social. Estes mesmos hipócritas são aqueles que não ligam de saber que sua igreja protege e acoberta pedófilos, as centenas, ou milhares, quem sabe? Sendo seus hierarcas papas, cardeais e bispos os primeiros minimizarem as violências sexuais perpetradas por seus pares, dúvidas? É ler como João Paulo II e Bento XVI trataram essa questão. Mas aborto é pecado? Crime? Quem são os criminosos? Do outro lado evangélicos ensandecidos, como discutir com sujeitos que acreditam em milagres metaforizados em águas, orações e descarregos circenses na qual cego volta enxergar, aleijado anda, o câncer e a aids são eliminadas do corpo e o espirito santo se manifesta com a estridência de um bêbado enlouquecido.

A parte lúcida da sociedade precisa trazer à baila a questão do aborto, uma prática diária e corriqueira no Brasil real, no Brasil laico e no qual o Estado parece fingir não existir e a religião não é obstáculo de consciência a ninguém que o pratica. A legalização neste momento não é eugenia ou qualquer outra tolice como alguns desejam crer e fazer crer a sociedade, é um fato da realidade, com a presença do Zika, as clínicas clandestinas e outros meios marginais se encheram de mulheres. O que iremos fazer? O que sempre fizemos, dizer que é problema da mulher, acusa-las de desumanas, criminosas e por fim, fingir que não existe esse negócio de aborto entre nós, é tudo coisa de gente ímpia e desalmada e algum cretino ainda, quem sabe, possa fazer alguma analogia acusando as mulheres de serem comunistas.

Precisamos migrar da sociedade dos indivíduos para a sociedade dos cidadãos, e ao que me conste mulher é cidadã neste país, mesmo que sejam de segunda classe, mas são.


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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