obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

ESQUECER DE PERDOAR

Perdoar é saber esquecer, o duro é aprender a esquecer.


Não é simples, não é fácil e num muito menos corriqueiro o perdão, mesmo vivendo em uma civilização cristã, na qual um dos fundamentos é o perdão, saber perdoar é uma benção, os apóstolos no Novo Testamento, em especial Matheus e Lucas se aplicam em ensinar os homens e as mulheres a perdoar.

Diríamos que esta é quase uma tarefa inglória, em especial em tempos onde cada vez mais a fé se torna um ato privado e a exegese interpretativa do texto sagrado despareceu. Poucos se sentem temerosos de pecar e se ver diante da danação, inclusive de exercer o perdão.

Mas, enfim, o que é perdoar? Entendemos que não é preciso e nem muito menos necessário ser cristão para poder saber perdoar, é preciso Ser Humano, na acepção da palavra. E, entendemos que não há perdão sem esquecimento, porque todo aquele que sabe esquecer, sublimando a memória e as lembranças do mal sofrido é capaz de perdoar.

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Boa parte da nossa existência se dissolve em nossa memória, se esvai em esquecimento pura e simples, o que sobram na maioria das vezes são como pontos de um tracejado falho e descontínuo no qual, nos esforçamos para poder completar e dar forma.

Esquecemos um tanto de coisas felizes vividas com alguém, com pais, irmãos, amigos, amores e até com pessoas extemporâneas em nossa vida. Esquecemos porque queremos? Evidente que não, mesmo o mais feliz e agradável dos dias, dos momentos se esvaem em sua plenitude, resta um traço por vezes fraco, muito incompleto que por vezes nos esforçamos em emendar com boa dose de imaginação e alegria.

O mesmo vale para a dor, o luto, o desamor. Longe de nós acreditar que seja fácil viver tais estados. Se o esquecimento da alegria e da felicidade é frustrante, a memória da dor é dilacerante. Hannah Arendt disse em Da Condição Humana, que o humano é composto de uma pluralidade primitiva, ou seja, que há em nós algo residual de bárbaro uma deficiência essencial no ser humano. Mesmo tendo construído uma existência social, pública, e outra privada, familiar. Mesmo o nosso esforço em viver e conviver, dar e se dar ao outro humano em diferentes esferas, não nos fez capaz de secar a ideia de vingança diante de uma dor.

Se não temos um adubo para a manter viva a memória da felicidade em toda sua completude, a dor é adubada regularmente pela vingança, pelo mais profundo desamor, se podemos usar uma palavra cristã.

O traço primitivo é o esforço humano e sobre-humano, as vezes de não manter a memória da dor viva, presente e exultante em nós como a mais elementar das condições. Não há perdão possível para uma memória ativa e presente. É preciso esquecer para perdoar.

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O esquecer é um ato individual, único em cada sujeito, não se opera fora de nós, mas dentro, unicamente dentro de cada um de nós, e em tempos como esse é bom que se diga que esquecer nada tem a ver com justiça ou a falta dela, é tão somente o ato individual de não lembrar mais. Mas como esquecer?

Nenhum grande pensador desde a Grécia antiga deixou de tratar do esquecimento e da memória, nenhum. Manter a memória, mesmo que ela nos dilacere, maltrate e infelicite parece uma sina humana, o traço primitivo do qual fala Hannah Arendt, ao invés de desejar a memória da felicidade primamos para manter a dor, o luto e o desamor.

Se a memória revigora o espírito, e alimenta a esperança re-significando a vida, a existência cotidiana, ela também imobiliza o humano ao se dispor apenas para a dor. Reduzindo a memória a um estado de mera pulsão de uma vontade primitiva, assim limitamos, também, o existir a uma formalidade banal, tão banal que o mal se torna mais presente do que bem no humano.

Esquecer não precisa ser uma amnésia, mas pode ser um traço fraco o bastante para que o perdão se imponha diante de nós, um tracejado tão fraco que nos permite re-viver, e continuar a existir sem as amarras de uma amargura infinita nos corroa e dilacere.

Quem não deseja esquecer também não deseja perdoar, prefere sofrer, incontinentemente, sem trégua ou armistício, não saber esquecer e não querer perdoar transforma a memória em uma serva, uma escrava da dor constante, jogando por terra a sua nobreza e sentido de ser. Lembra-se para se viver não a nostalgia do passado mas para reforçar a ira mais primitiva e elementar. A memória deixa de ser depositária do mais hedonista dos sentimentos e apenas se faz instrumento de vingança e ódio.

Perdoar não é exercício só do ser cristão praticante, é uma necessidade humana, para cumprir a tarefa mais elementar de todo ser vivente desde que elegemos a razão como meio e fim, superando a animalidade primária, buscar a felicidade


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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