observações sobre o belo e o sublime

Sob um ponto de vista fortemente influenciado pelos olhos de quem viu...

Farah Serra

Uma jovem mulher que está deixando de ser quem era e se transformando em quem é... Se é fácil? Não. O que vem adiante? Não sei. Mas alguma coisa está acontecendo.

As grandes esperanças e as ilusões vividas

Há um modo das coisas serem ou não serem, e sempre que eu precisar relembrar que o ideal é ter uma ilusão honesta e vivida assistirei ao filme Grandes Esperanças, de Alfonso Cuarón. Esse filme nos coloca de cara com aquelas questões relacionadas às ilusões e esperanças que nós mesmos criamos. É uma história linda, forte, envolvente - merecedora de toda a nossa abertura à totalidade que a sua experiência nos proporciona.


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Grandes Esperanças (Great Expectations) não é um filme novo, ele é de 1998, mas é um daqueles filmes que assistimos milhões de vezes e milhões de vezes nos emocionamos e choramos. A sua fotografia é fantástica. A predominância do tom verde para muitos passa despercebida. Uma sequencia de cenas com lindas pontes também pode escapar aos olhares dos expectadores menos atentos. A trilha sonora, por sua vez, é alucinante e realmente nos envolve, fazendo-nos cair de corpo e alma no enredo do filme.

Pra mim, a cena mais marcante deste longa é quando o então artista ‘de sucesso’ Finnegan Bell (Ethan Hawke) finalmente se sente a altura da sua amada Estella (Gwyneth Paltrow). Eu acho essa cena visceral! Finn grita a plenos pulmões e com toda a sua intensidade tudo aquilo que, também nós às escondidas, sonhamos um dia gritar: “Eu consegui! Somos felizes agora?!” Neste momento meu coração sempre bate forte se derretendo logo após, quando finalmente a porta da casa de Estella se abre. Porém, ao contrário do que imaginamos a cena seguinte não é de happy end e justamente por conta disso levamos mais uma baldada de fortes emoções.

Dessa vez nos vemos imersos em uma das cenas mais sublimes do filme. Uma cena que por si só valeria o Oscar. Trata-se de um memorável e sutil mix de dor profunda e delicadeza. O resultado não poderia ser nada menos do que o nosso inevitável envolvimento: o arrepio passa correndo por todo o corpo e as lágrimas escorrem como uma cachoeira. Voltando à cena... Ao entrar na casa, para a sua surpresa, Finn não encontra sua amada Estella, mas sim a causadora de toda a sua dor - a excêntrica milionária Ms. Dinsmoor (Anne Bancroft). Desiludido, ele pede a ela a sua mão e a coloca em seu peito dizendo: “Você pode sentir isso? É o meu coração... e ele está partido.” Ela, entendendo o mal que o causou, pede desculpas e caí em profundo remorso.

É um filme lindo, forte, envolvente. E talvez seja justamente por isso que não percebemos - de forma evidente - o plano de fundo de profundo psicológico em que essa história está baseada. Um psicológico que, também despercebidamente, faz parte do nosso modo de viver a vida.

Através de seu enredo, Grandes Esperanças, versa questões psicológicas relacionadas às ilusões, às expectativas e esperanças que nós criamos para nós mesmos e para o nosso entorno (os chamados valores simbólicos). E de forma intensa e perspicaz ele também aborda as transferências que conscientemente ou inconscientemente fazemos...

Logo no início dessa fábula entre o órfão Finn e a rica Estella, Finn é alertado pela Ms. Dinsmoor que não deveria se apaixonar por Estella, pois ela só o faria sofrer. Entanto o recado passa despercebido. O jovem Finn só dá ouvidos ao que ele quer ouvir: o seu coração. E começa então a amar aquela linda garota - amor que o acompanhará por toda a sua vida.

O fato é que Finn não entende o recado naquele momento, porque na verdade ele ainda não viveu aquela história... Assim é a vida real. Nós humanos damos ouvidos e seguimos aquilo que queremos ouvir e queremos seguir. E não há nada de errado nisso: aprendemos a viver vivendo! Como disse Goethe, temos de mergulhar na experiência e, então, refletir sobre o significado dela. Precisamos sofrer para aprender a não sofrer. Precisamos amadurecer antes de entendermos os nossos próprios passos. Para reavaliar o que fizemos, precisamos das nossas experiências, mas só temos experiências vivendo! Apanhando, amando, rindo, chorando, caindo, levantando...

É durante o processo de viver, que criamos as nossas próprias interpretações dos acontecimentos das coisas que nos capta e que nos cabe. Somente assim poderemos tirar as nossas livres conclusões sobre a vida.

Outro tema muito bem abordado nessa história é o problema de realidade versus ilusão. Nós, como Finn, interpretamos a nossa realidade. Vemos o mundo segundo nossas próprias condições e confiamos em nós mesmos. “A única verdade segura que os homens têm é aquela que eles próprios criam e dramatizam”, afirma Ernest Becker. Em palavras mais simples: enxergamos a nossa imaginação não como imaginação ou hipótese, mas sim como verdade. É por isso que a nossa cabeça pode ser muito perigosa, pois adotamos como verdadeiras as nossas versões da história e, em cima disso, criamos expectativas em relação a nós mesmos e às outras pessoas. E mesmo que alguém nos diga, “veja bem, talvez não seja bem assim”, continuamos a acreditar naquilo que pensamos ser a verdade.

O problema é que o homem também pode ser vítima de sua própria desilusão. No filme isso acontece quando Finn já é um homem. Ele se vê diante de todo o banimento do mistério, da crença ingênua, da esperança simplória, quando descobre que o seu benfeitor não era quem ele sempre imaginou que fosse, mas sim uma pessoa de quem ele mal se lembrava de ter ajudado quando criança. Ele se sente desiludido, sem chão, quando descobre a verdadeira verdade por trás da sua falsa e imaginária realidade.

Até essa dura revelação Finn segue de acordo com aquilo que tem como verdade. Ele batalha de acordo com essas ideias e chega até a magoar o seu Tio Joe - quem o criou e sempre esteve ao seu lado. Finn se envergonha de seu tio por ele ser um simples pescador, um grosseirão, ‘mal-educado’, que não sabe se vestir e nem se comportar dentro do novo ambiente que ‘o mais novo artista de sucesso’ de Nova Iorque passa a frequentar. É nesta hora que nos deparamos com outro aspecto psicológico: o valor simbólico. “Um animal que adquire seu sentimento de valor mediante símbolos é obrigado a se comparar, em todos os mínimos detalhes, com aqueles que o cercam, para ter certeza de que não vai ficar em segundo lugar.”

Por fim, outro aspecto marcante do filme é o que os psicólogos chamam de transferência – “a fatal e esmagadora escravizadora de homens”. Ela fica claríssima naquele discurso visceral de Finn que te contei logo no início. No fim do seu desabafo e antes que a porta finalmente se abra ele grita: “Tudo o que eu tenho de especial em mim... é você!”.

O objeto de transferência é o local de nossa consciência, de toda a nossa cosmologia do bem e do mal. Ele representa toda a vida, todo o destino do indivíduo e por isso sempre se apresenta de forma exagerada: “Tudo o que eu tenho de especial em mim é você”. Para Freud a transferência é um “fenômeno universal da mente humana” que “domina toda a relação de cada pessoa com o seu ambiente humano”.

Bem, isso são apenas partes da história - as mais profundas e as menos óbvias. Talvez a maior lição desse filme esteja logo no seu início. Grandes Esperanças, começa com uma introdução belíssima de Finnegan Bell que - como tanto outros detalhes do filme - passa despercebida a muito de nós expectadores:

“Há um modo das coisas serem ou não serem. A cor do dia, como era ser criança. A sensação da água salgada nas pernas queimadas pelo sol. Às vezes a água, é amarela. Às vezes, é vermelha. Mas a cor que fica na memória depende do dia. Não contarei a história do modo como aconteceu. Vou contá-la do modo como me lembro dela.

Assim é a vida. Assim funciona o nosso psicológico. E é justamente assim que me lembro de Grandes Esperanças: um filme marcante. O assistirei mais um milhão de vezes. Sempre que perceber que eu preciso sentir meu sangue correndo nas veias. Sempre que eu quiser me emocionar. Sempre que eu precisar relembrar que o ideal é uma ilusão vivida, mas ao mesmo tempo uma ilusão honesta o suficiente para seguir com meus próprios mandamentos.

A você, eu diria: pegue o filme (mesmo que já o tenha visto antes), aumente o som e abra-se à totalidade dessa experiência...

Nos vídeos abaixo é possível ver (em inglês) as duas cenas que eu mencionei neste post. Grandes Esperanças - special in me... is you

Grandes Esperanças - this is my heart and it´s broken

*Citações, fonte de inspiração e fonte: BECKER, Ernest. A negação da Morte – Uma abordagem psicológica sobre a finitude humana. 6º edição. Rio de Janeiro: Editora Record, 2013.


Farah Serra

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