observações sobre o belo e o sublime

Sob um ponto de vista fortemente influenciado pelos olhos de quem viu...

Farah Serra

Uma jovem mulher que está deixando de ser quem era e se transformando em quem é... Se é fácil? Não. O que vem adiante? Não sei. Mas alguma coisa está acontecendo.

Grace, eu, e as nossas vidas

É a tal sincronicidade, a 'coincidência significativa', desenvolvida por Carl Gustav Jung que explica a minha identificação com a história da lendária atriz e princesa de Mônaco, Grace Kelly. Só percebi a intensidade de tudo o que eu estava vivendo quando assisti ao filme Grace de Mônaco, de Olivier Dahan. Obviamente duas histórias distintas, mas coincidentemente duas histórias de amor, de transformação e, sobretudo, de reinvenção de si mesmo.


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Sincronicidade é a experiência de ocorrerem alguns eventos que coincidem de uma maneira que seja significativa para a pessoa que o vivencia. Em outras palavras, trata-se de acontecimentos que se relacionam não por relação causal e sim por relação de significado. Mas... o que isso tem a ver comigo e com o filme Grace de Mônaco de Olivier Dahan (2014)?!

Tanto na história de Grace quanto na minha ocorreram situações similares. Nós duas vivemos um momento em que demos ouvidos a uma voz interior e topamos encarar o novo, mas também vivemos períodos de transformações hercúleas no nível pessoal e profissional.

Esse filme trata das situações e questões que a Grace Kelly (interpretada por Nicole Kidman) enfrentou pouco depois de ter se casado com o príncipe Rainier III (Tim Roth). Situações muito similares com as que eu vivi há três anos, quando me mudei de mala e cuia para a Itália. A começar pelo motivo da minha mudança que foi igual ao da belíssima Grace. Motivo esse muito bem explicado em seu discurso no filme: “Alguns perguntaram por que parti de Hollywood. Bem, parti porque... porque me apaixonei pelo príncipe encantado”.

O que nós não sabíamos sobre as histórias de amor é que, diferentemente da ficção, a realidade é dura também para os que amam. Para realizar o nosso sonho de viver o grande amor, caímos em uma situação onde não tínhamos escolhas a não ser a de nos redescobrir, nos reinventar. Tudo é muito lindo, mas muitas coisas dão errado. As dificuldades se fazem presentes. O grande amor exige crescimento e renascimento para algo completamente diferente - fora do nosso conhecimento e muitas vezes do nosso domínio. A realidade nos exigiu esforços, nos colocou cara a cara com as muitas mudanças não imediatas e muito menos perfeitas.

Foi aos poucos que percebi que os recomeços são assustadores, dolorosos, ricos, profundos... Foi aos trancos que entendi que recomeçar é uma batalha pessoal.

Neste processo enfrentamos um duelo acirrado com o nosso próprio eu. Precisávamos identificar aqueles significados que nos ajudariam a dar sentido ao que já tínhamos. Eu, particularmente, sabia que estava tendo uma super chance - em pleno voo - de reinventar o meu próprio eu e a minha história, mas diariamente sentia a sensação de que era preciso afastar o meu medo e de que era preciso me encontrar de uma forma profunda. Em um determinado momento do filme, o Padre Francis Tucker (Frank Langella), o fiel conselheiro de Grace a pergunta: “E quem é você verdadeiramente?”.

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O que tudo isso mostrou, a mim e imagino que à Grace Kelly também, é que essa nossa deliciosa oportunidade de mudar nos exigiu um verdadeiro crescimento pessoal. Ela, como eu, teve que ser capaz de olhar para si mesma com estranhamento para que pudesse enxergar as novas possibilidades.

Precisávamos nos reinventar. Precisávamos buscar as nossas próprias verdades, através de perguntas sinceras, ao mesmo tempo em que tínhamos que contornar os nãos que a vida nos oferecia. Ou seja: fomos desafiadas a buscar significado no nosso caminho, a refletir sobre uma vida mais autêntica, a descobrir o que realmente gostávamos, o que sabíamos fazer, o que nos dava orgulho e alegria, até mesmo a trabalhar com outras coisas. E não por menos, a aceitar que, muitas vezes, simplesmente não sabíamos, mas que não estávamos começando do zero.

Nós fomos à busca, prestando mais atenção as nossas vidas, cavoucando as nossas experiências, buscando o que realmente nos definia... Para enfim renascermos e encontrarmos a serenidade. Aquela mesma que o Padre Francis a aconselha: “(...) e você precisará fazer isso sozinha. (...) a serenidade a que todos nós aspiramos. E encontrará a paz quando aceitar os papéis que é destinada a interpretá-lo. Mãe devota, esposa fiel, líder beneficente. Diante desse desafio maior que você, superará os seus medos (...)”.

“Esse é o processo de se desconhecer como uma forma mais profunda de se conhecer. (...) Exige muita coragem. Porque dá um medo danado.”

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“No século 18, na obra Observações sobre o Belo e o Sublime, o filósofo alemão Immanuel Kant definiu dois sentimentos principais na forma como experimentamos a arte e a vida. Segundo Kant, o belo é aquilo que nos causa um prazer despreocupado, como a visão de uma flor ou de uma criança. Já o sublime é o que provoca um encantamento misturado com temor: como a visão de uma tempestade.”

Diante tudo, o que te posso dizer é que reinventar a minha vida foi e está sendo uma experiência sublime. Se é fácil? Não. O que vem adiante? Não sei. Mas alguma coisa está acontecendo.

Adaptação do Artigo Reinventando a Vida, escrito por mim e publicado originalmente aqui.


Farah Serra

Uma jovem mulher que está deixando de ser quem era e se transformando em quem é... Se é fácil? Não. O que vem adiante? Não sei. Mas alguma coisa está acontecendo..
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