observações sobre o belo e o sublime

Sob um ponto de vista fortemente influenciado pelos olhos de quem viu...

Farah Serra

Uma jovem mulher que está deixando de ser quem era e se transformando em quem é... Se é fácil? Não. O que vem adiante? Não sei. Mas alguma coisa está acontecendo.

PS. O que não se diz

O que não se diz é que a verdadeira batalha dos renegados é com a tal humanidade que não conhece humanidade. Eles, esses seres – humanos – batalham com a minha e a sua omissão. Eles enfrentam a difícil guerra com a nossa cegueira moral. E enquanto nós vemos o horror, mas não o vivenciamos, eles não só o assistem como o vivenciam.


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Nesses tempos tem se falado muito, porém pouco de novo se diz. Tagarela-se (tagarelar, segundo meus antepassados, é não pensar e falar demais; freneticamente; falar repetidamente e não falar nada). Muito se escreve sobre Síria, Aylan, Estado Islâmico, Europa abre e fecha confine, números disso, daquilo, refugiados, imigrantes, mas nada, ou muito pouco, se fala dos renegados. Refiro-me a esses seres – humanos – que estão lá nas fronteiras da Europa, ou para os que como eu cá vivem, desses seres – humanos – que estão logo aqui nas esquinas de casa.

O que não se diz é que os renegados sofrem. Sofrem porque não são bem-vindos. Porque são rejeitados com o nosso desprezo. Eles são negados repetidamente: “re-negados”. Seres – humanos – negados pela sua própria pátria, pela pátria dos outros, pelos sistemas, pela humanidade.

Não se narra que suas lutas diárias não se restringem apenas às guerras ou às circunstâncias de coerções extrema. E nem se fala que as rasteiras que levam são cotidianas, porém invisíveis aos nossos olhos, visto que eles também são negados por mim e por você. Eles lidam com o nosso pior lado, onde reina a nossa indiferença diária diante do sentimento do outro – sendo que ele é o outro. As suas batalhas são com o que existe de mais desumano. “Di persona”, em primeira pessoa, eles lidam constantemente com os bárbaros, os cruéis, os desalmados. Eles combatem com um mundo atroz, com líderes políticos e religiosos que não os querem, com sistemas que não os contemplam. Pelejam comigo e com você – com a nossa insana insensibilidade.

O que não se expõe é que a verdadeira batalha dos renegados é com a tal humanidade que não conhece humanidade. Eles, esses seres – humanos – batalham com a minha e a sua omissão. Eles enfrentam a difícil guerra com a nossa cegueira moral. E enquanto nós vemos o horror, mas não o vivenciamos, eles não só o assistem como o vivenciam.

Esses renegados sofrem com a nossa incapacidade egoísta de compreendê-los, lidam com o nosso medo.

Tá certo, que nós seres – também humanos – não gostamos de pensar sobre as incertezas ou de não nos sentirmos seguros. Essas coisas nos desconfortam, nos atormentam. E para não sair do nosso próprio eixo, da nossa zona de conforto, é melhor não nos envolvermos. É melhor deixar falar e não ouvir. É melhor ver e não enxergar. É mais “certo” não nos embrenharmos nesse terrível mundo da sensibilidade, da compaixão. É mais tranquilo assim, mais garantido. Não somos maus a troco de nada. Somos maus porque tememos o desconhecido, nos sentimos inseguros diante das incertezas que esses seres – humanos – projetam em nossos futuros.

Entretanto, o que não se diz é que a nossa sociedade está colapsando por culpa nossa, não deles. E grande parte da nossa culpa se dá pelo nosso interesse próprio, fundado no que é mais conveniente para nós mesmos, na nossa impaciência, na nossa insensibilidade, no nosso medo, na nossa falta de vontade e disposição de pensar diferente, de fazer algo, de praticarmos a compaixão, de…

O que não se nota é quão pobres são esses seres – humanos – que não têm direito à vida e cada vez menos à morte, e que tudo o que nos pedem é um pouco de compaixão.

O que não se discorre é que sina é a desses renegados. Não se descreve quão resilientes são esses seres – humanos – que corriqueiramente encaram tamanha negação, tamanho sofrimento, desprezo, repúdio… não se conta dos seus dias longos e noites ainda mais longas ao relento, no calor, no frio, na fome, na sede, na dúvida, na incerteza, na insegurança, no desconforto físico e mental. Não se conta que lhes falta tudo, comida, água, roupa limpa, saneamento básico, segurança, saúde, amizade, compaixão… E quem é que sabe nos dizer se lhes sobra esperança?!

Tagarela-se que estamos vivendo “uma crise humanitária”, mas ninguém pronuncia que nós – eu e você – precisamos recuperar a nossa humanidade. Que necessitamos achar e trazer de volta a nossa sensibilidade. Para que possamos finalmente enxerga-los de olhos e mentes abertas, para percebermos que no mundo de hoje, não cabe mais o “eu”, só cabe o “nós”. Nós: eu, você, e os renegados. Deve haver um lugar para todos nesse mundo. E cabe a nós – eu e você – migrarmos do individual para o coletivo. Gostando ou não, querendo ou não, encontrarmo-nos com os renegados é a única via possível nesse mundo globalizado. “Conviver para sobreviver.”

O que não se profere é que precisamos deixar a nossa arrogância de lado para enxergarmos que existem soluções quando optamos pela humildade e inteligência. A solução desse problema cabe a nós. Eu e você devemos dar a eles condições de uma vida melhor, mais digna, mais segura, mais humana. Pois, o que não se pronuncia, é que eu, você e os renegados, podemos viver bem, em harmonia, com condições de vida e trabalho semelhantes.

w704.jpg Crédito: Jonathan Davis / upliftconnect.com - “A crise de refugiados na Europa está mostrando que os seres humanos ajudando uns aos outros, independentemente das fronteiras nacionais, é muitas vezes a forma mais eficaz de ação.”

O que não se fala é que temos que administrar essa crise de uma maneira mais humana, do que humanitária. E o que se diz menos ainda é que a lógica atual não funciona, não temos lideranças capazes de governar essa situação. Nós (eu, você e os renegados) carecemos demasiadamente de Mandelas e Ghandis capazes de irem além dos acordos sobre cartas e de discutirem mais do que número de renegados acolhidos. Faltam-nos lideranças capazes de desenharem planos concretos de integração e de mudança social. O que significa que “precisamos reformar a nós mesmos e precisamos fazer política”.

PS.: O que não se diz é que “tocca a noi”, cabe a nós – a mim e a você. Cabe a nós compreendermos que mais do que perceber e acompanhar o movimento dessa crise humanitária, nós precisamos ser os protagonistas, os precursores dessas mudanças – humanas. Os renegados e o mundo precisam da gente, das nossas mentes, corações e braços abertos. Abertos para o novo, para que possamos encontrar soluções fora do senso comum.

Compartilho esse texto (em inglês) “There Are No Migrants, Just Humans” para que você possa se inspirar em pessoas “outliers” – aquelas fora de série, que pensam fora da caixa e por conta própria fazem as coisas acontecerem.

O que Olavo de Carvalho disse: "Só acredito é em gente ajudar gente, uma por uma, não na mágica platônica das 'mudanças estruturais' (…) Na verdade, quem acredita nela erra até ao dar nome ao problema geral. (…) algo está faltando na nossa percepção da realidade social. No mais das vezes, o que falta (…) é as pessoas compreenderem que a pobreza não é um estigma, não é uma desonra; é uma coisa que pode acontecer a qualquer um e da qual ninguém se liberta só com dinheiro, sem o reforço psicológico de um ambiente que o ajude a sentir-se novamente normal e, em suma, um membro da espécie humana. Entre as causas culturais da pobreza, a principal não está nos pobres: está na falta de educação dos outros." (Substitua “pobreza” por “renegados”).


Farah Serra

Uma jovem mulher que está deixando de ser quem era e se transformando em quem é... Se é fácil? Não. O que vem adiante? Não sei. Mas alguma coisa está acontecendo..
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