observações sobre o belo e o sublime

Sob um ponto de vista fortemente influenciado pelos olhos de quem viu...

Farah Serra

Uma jovem mulher que está deixando de ser quem era e se transformando em quem é... Se é fácil? Não. O que vem adiante? Não sei. Mas alguma coisa está acontecendo.

Onde está o nosso eu?

Em alguns momentos das nossas vidas sentimos que precisamos parar e nos questionar sobre o que estamos fazendo e para onde estamos indo.


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Normalmente, isso acontece na adolescência, quando na maioria de nós lateja este dilema, ou quando algo – muito importante – acontece e passamos a sentir que está na hora de parar para pensar.

No entanto, em geral, a vida nos suga atirando-nos as atividades padronizadas. Seguimos tocando a vida no automático, não temos tempo e nem mesmo vontade de parar para pensar nela. Até porque precisamos caminhar pelo mundo com certo tipo de força e retidão. Agimos pelo instinto. É muito mais simples seguir a vida assim - vivendo em um mundo pequeno, em um fragmento de realidade, onde seguimos uma percepção programada que nos gera uma reação programada.

O problema é que somos um animal inteiramente aberto à experiência. Nós não vivemos apenas o momento presente, mas estendemos o nosso eu interior ao amanhã, a nossa curiosidade a séculos passados, aos nossos temores a daqui a cinco bilhões de anos. Vivemos não apenas em um minúsculo território, tampouco em um planeta inteiro, mas numa galáxia, num universo...

O nosso eu é confuso. Queremos saber - pois não sabemos - quem somos, por que nascemos, o que estamos fazendo neste planeta, o que deveríamos fazer, o que podemos esperar. A nossa existência nos é incompreensível. E ela nos é incompreensível porque somos formados de uma maneira em que todos os nossos significados nos são introduzidos pelo lado de fora, pelas nossas relações como os outros. É isso que nos dá um ‘eu’ - um superego. Todo o nosso mundo de certo e errado, bom e mau, nosso nome, exatamente quem somos, tudo isso é enxertado em nós.

O sistema social em que nascemos traça as trilhas para nós, trilhas com as quais nos conformamos, às quais nos moldamos para que possamos agradar aos outros - nos tornamos aquilo que os outros esperam que sejamos. E em vez de trabalhar o nosso segredo interior, vamos aos poucos cobrindo-o e esquecendo-o, até que nos tornamos homens puramente exteriores.

“(...) ele pode ser perfeitamente capaz de ir vivendo, de ser um homem, pelo que parece, de ocupar-se com coisas temporais, casar-se, gerar filhos, conquistar reputação e estima – e talvez ninguém repare que, num sentido mais profundo, lhe falta um eu.” [Søren Aabye Kierkegaard]

Esquivamo-nos da nossa vida, deixamo-nos levar para longe de nós mesmos, do nosso autoconhecimento, da nossa autorreflexão. Ignoramos nossos motivos, buscamos o estresse, forçamos nossos limites e enfim, nos esquecemos de nós mesmos, não ousamos acreditar em nós mesmos, achamos arriscado demais sermos nós mesmos... passamos a acreditar que é muito mais fácil e mais seguro ser como os outros, tornar-se uma imitação, um número, uma insignificância na multidão.

Para Ernest Becker, esta é uma caracterização magnífica do homem ‘culturalmente normal’, aquele que não ousa defender seus próprios significados porque isso significa um perigo e uma exposição grande demais. É melhor não ser ele mesmo, é melhor viver encaixado nos outros, engatado em um seguro arcabouço de obrigações e deveres sociais e culturais.

Mas... #sóquenão, temos que reagir e buscar o que falta agora ao nosso eu, que é, por certo, realidade. Na verdade, examinando mais detalhadamente, o que nos falta realmente é a N-E-C-E-S-S-I-D-A-D-E, é o poder de nos submeter ao necessário para nós mesmos.

Precisamos nos tornar cientes de nós mesmos - cientes do que somos e do que queremos ser. É isso que significa: ser uma pessoa, ter individualidade e singularidade.

Para tanto, para conseguirmos ser este tipo de pessoa, precisamos parar para refletir e para nutrir ideias sobre o nosso eu secreto, sobre o que este eu poderia ser. Devemos nos perguntar: Onde está a nossa individualidade? Qual é a nossa singularidade? Qual é a nossa verdadeira vocação - aquela que temos prazer de fazer e que nos alimenta o coração?

O que está no nosso íntimo? Onde estão as nossas emoções? Nossos anseios? Devemos nos redescobrir, resgatar as perguntas da adolescência e os sonhos de criança...

Precisamos procurar pelo nosso eu para vivermos mais distintamente, para enriquecer tanto a nós mesmos quanto a humanidade que nos cerca. Somente mantendo essa busca interior inteiramente viva e consciente é que conquistaremos um eu com um valor máximo, não mais restrito aos valores culturais e sociais que o mundo nos atribui.

Fontes e fontes de inspiração: BECKER, Ernest. A negação da morte. Uma abordagem psicológica sobre a finitude humana. 6º Edição. Rio de Janeiro: Record, 2013. LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal. Ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Adaptação do Artigo “Onde está o nosso ‘eu’?”, escrito por mim e publicado originalmente aqui.


Farah Serra

Uma jovem mulher que está deixando de ser quem era e se transformando em quem é... Se é fácil? Não. O que vem adiante? Não sei. Mas alguma coisa está acontecendo..
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