observações sobre o belo e o sublime

Sob um ponto de vista fortemente influenciado pelos olhos de quem viu...

Farah Serra

Uma jovem mulher que está deixando de ser quem era e se transformando em quem é... Se é fácil? Não. O que vem adiante? Não sei. Mas alguma coisa está acontecendo.

O paraíso de A Praia

O filme “A Praia” tenta nos revelar que o paraíso não é um lugar que podemos procurar, porque não é aonde vamos. É como nos sentimos em um momento da nossa vida.


Phi Phi.jpg

Quem não se lembra daquele filme britânico “A Praia”, de Danny Boyle, estrelado por Leonardo DiCaprio? Tá certo que esta retrospectiva é de 15 anos atrás, sim, já se passaram 15 anos e “A Praia” está debutando… Todavia, as paradisíacas paisagens das Ilhas PhiPhi, na Tailândia, são inesquecíveis, assim como, as suas principais cenas: a assustadora apresentação de Patolino (Robert Carlyle) - um louco velho viajante, marcado por anos de sol e drogas que de forma paranoica conta a Richard (Leonardo DiCaprio) a improvável história de uma ilha secreta, um paraíso na Terra; a chegada à ilha; o salto na cascata; o confronto com o tubarão; o mágico e romântico mergulho por entre o plâncton resplandecente; a frenética sequência de loucura na selva, com flashes de videogame. Sem contar a envolvente e eletrizante trilha sonora que nos leva do feel-good ao drama psicológico num ápice.

Diante disso tudo, deixamos de reparar na grande mensagem que este filme traz. Aquela de que o paraíso não é um lugar e sim um momento. O discurso di Richard (DiCaprio) que inicia e termina o filme por muitos passou despercebido, mas ele é tão lindo quanto as deslumbrantes paisagens de PhiPhi:

“Confie em mim

É o paraíso

Este é o lugar onde a fome chega para se alimentar

A minha é uma geração que circunda o globo

Em busca de algo que não tenha experimentado antes

Por isso, nunca recuse um convite

Nunca resista ao desconhecido

Nunca deixe de ser educado

E nunca fique mais do que o desejado

Apenas mantenha sua mente aberta e

Absorva a experiência

E se isso doer

Você sabe que...

É porque provavelmente valeu a pena

Você espera, você sonha

Mas nunca acredita que

Alguma coisa vai acontecer com você

Não como acontece nos filmes

E quando acontece

Você espera se sentir diferente

Mais visceral

Mais real

Eu estava esperando por isso bater em mim

Eu ainda acredito no paraíso

Mas agora ao menos eu sei que não é um lugar que você pode procurar

Porque não é aonde você vai

É como você se sente em um momento da sua vida

E se você acha este momento

Ele dura para sempre”*

*Em tradução livre.

Com um olhar mais demorado, percebemos a relação da mensagem que transmite o filme com a nossa realidade. Sonhamos com a fuga do nosso atual estado das coisas. Enganamos o nosso mal-estar com a ideia de viver de um modo completamente diferente. Sonhamos com o paraíso como se ele fosse um lugar ideal e perfeito – por isso, utópico.

Em um determinado momento do filme, Richard diz: “Eu apenas sinto que todo mundo tenta fazer algo diferente, mas a gente sempre acaba fazendo a mesma maldita coisa”.

Entanto, o enredo de “A Praia” nos mostra que, na realidade, o céu na Terra não é tão perfeito. Coisas ruins acontecem. Conflitos pessoais, ciúmes, rivalidades, trágicos eventos ocorrem em qualquer lugar. Até mesmo nas comunidades mais libertadoras, o almejado paraíso pode se transformar em um inferno.

E mesmo que Freud já tenha nos dito: “em sua busca pela felicidade, através do princípio do prazer, o homem é limitado pelo princípio da realidade”, continuamos tão agarrados a essa ideia de lugar ideal que não nos damos conta de que na verdade o paraíso pode ser um momento. Essa descoberta é libertadora! Crer que o paraíso é um momento e não um lugar o torna, paradoxalmente: palpável.

Dividindo o paraíso em momentos ele se torna administrável e facilmente conquistável. Aí está a liberdade!

O lugar paradisíaco é aquele que nos promove momentos de experiências marcantes, irrepetíveis, totalmente novas. Beleza, excitação, experiências… No fundo não é isso que buscamos?!

A ideia da existência de um mundo perfeito é, simplesmente, magnetizante e não sou que quero mudá-la. Entanto, acreditar que é possível transformar o paraíso em momentos, me fascina muito mais. Pois assim, fazendo a minha retrospectiva de vida, posso dizer que eu já vivi muitos paraísos nos meus trinta e poucos anos. E que ainda quero arriscar a minha vida em busca de uma coisa: aquela sensação de êxtase que só pode ser encontrada em momentos paradisíacos.

Casamento FL.jpg


Farah Serra

Uma jovem mulher que está deixando de ser quem era e se transformando em quem é... Se é fácil? Não. O que vem adiante? Não sei. Mas alguma coisa está acontecendo..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Farah Serra