observações sobre o belo e o sublime

Sob um ponto de vista fortemente influenciado pelos olhos de quem viu...

Farah Serra

Uma jovem mulher que está deixando de ser quem era e se transformando em quem é... Se é fácil? Não. O que vem adiante? Não sei. Mas alguma coisa está acontecendo.

Mas afinal, o que se discute?

Outro dia acompanhei, como espectadora, uma discussão sobre o famoso beijo de George Mendonsa e Greta Zimmer Friedman retratado por Alfred Eisenstaedt. Após isso, a minha cabeça permaneceu malhando em torno aos argumentos levantados e como o debate se desenvolveu. A única conclusão foi que continuei com a interrogação: Foi ou não foi estupro?


V-J Day in Times Square, Alfred Eisenstaedt.jpg

Fora a história da fotografia eu desconhecia a polêmica que a circundava e como talvez você igualmente não a conheça, antes de qualquer coisa, as transcrevo a seguir.

Esta histórica foto virou símbolo da comemoração da vitória dos aliados sobre o Japão no fim da Segunda Guerra Mundial. Ela ocorreu em 14 de agosto de 1945, quando Alfred Eisenstaedt retratou o famoso beijo de George Mendonsa e Greta Zimmer Friedman, na Times Square, em Nova York.

Já a polêmica foi levantada há alguns anos pelo website Feministing.com. Tal site alegava que este famoso beijo não foi natural e sim forçado, portanto, abuso sexual. Não era um beijo entre duas pessoas que se amavam. George e Greta eram totais estranhos, e de repente ele a agarrou para beijá-la e celebrar.

Sessenta anos depois, Greta descreveu o ocorrido dizendo que havia aproveitado uma pausa em seu trabalho para confirmar os rumores sobre o final da guerra que tinha ouvido no consultório dentário onde trabalhava. Foi até a Times Square, chegando ali, um marinheiro a agarrou de repente. Segundo ela, não foi algo romântico. Foi mais um ato de celebração do que um beijo. O rapaz estava feliz em não ter que voltar para o Pacífico. Uma forma de dizer: “Graças a Deus a guerra terminou”. Ao mesmo tempo, George recorda que estava em um show quando o interromperam para dizer que a guerra havia acabado. Ele exultante, foi para a rua e quando viu uma enfermeira a beijou por pura alegria.

No outro dia, a polêmica entre as minhas colegas começou porque uma delas pediu a exclusão dessa foto no Instagram do grupo, alegando que esta tão simbólica imagem na realidade era o retrato da subjugação feminina. Que não havia existido o beijo, e sim o estupro. Professando a sua interpretação de que a Greta não conhecia o marinheiro Mendonsa. E que ele, embriagado, a agarrou a força não lhe dando chance de escapar.

Apesar de não ter participado da conversa, fiquei altamente incomodada pelo uso da palavra estupro. É um vocábulo extremamente categórico para se referir a um beijo roubado, ou para o que uma delas afirmou na rede: “Beijo forçado é estupro, passar a mão na bunda é estupro...”. Não que eu minimize o crime do roubo ou do desrespeito moral, pelo contrário, porém considero que temos um amplo vocabulário do qual os conhecedores do assunto - com um pouco mais de pesquisa e reflexão - seriam capazes de achar um termo mais adequado para casos do tipo.

A verdade é que o uso desses chavões como premissas autoprobantes, valores inquestionáveis e critérios infalíveis do certo e do errado faz com que nasça uma pulga atrás da minha orelha. Digo isso porque, o estupro, neste caso em específico, só existe na confrontação lógica de ideias e valores. Pois, quem além da Greta poderia nos falar sobre isso? Ninguém. No entanto os defensores da polêmica os usam tentando nos passar a impressão de que refletem realidades imediatas, improblemáticas e reconhecíveis à primeira vista. Com isso eles não buscam despertar em mim ou em você a consciência de como as coisas se passaram, eles querem apenas uma reação emocional favorável à sua ideia.

Isto é, tais pessoas se fazem valer das palavras de forte impacto apostando no efeito emocional imediato que elas nos transmitem. O que até aí é uma tática, tudo bem. O problema é que com isso se confunde propositalmente palavras e coisas. Induzindo-nos a crer que temos como base uma visão direta da realidade. E, pior, conferindo a autoridade de verdade absoluta a afirmações que, na melhor das hipóteses, têm uma validade relativa.

“Se você é treinado para ter sempre as mesmas reações diante das mesmas palavras, acaba enxergando somente o que é capaz de dizer, e dificilmente consegue pensar diferente do que os donos do vocabulário o mandaram pensar.”

Outro ocorrido que me chamou a atenção foi o desenrolar da discussão. Que, logo de início, se desenvolveu com ótimos argumentos. Certamente não se chegaria a uma resposta se esse histórico ato foi ou não um estupro, mas poderia se acercar de um momento em que as partes concordassem com um meio termo em comum. Todavia, com o cansaço, essa calorosa conversa apenas alcançou o seu final imaginável: ofensas, desacordos, e inimizades.

Deixando a polêmica de lado e olhando para a ação, apenas uma entre todas as interlocutoras pensou que o mais importante era compreender a verdade de algo, pois era um assunto em que não se tratava de Greta ou delas mesmas. Ao passo que a reação das demais foi a de seguir a compulsiva necessidade de ‘tomar posição’ - isso antes mesmo e independentemente de conhecer os verdadeiros fatos em questão. Deste modo, a partir do segundo argumento não se tratava mais: a ideia do estupro; de ser ou não feminista; das visões do acontecimento, quer dizer, as interpretações do que poderia ter ocorrido de fato naquele momento em que a foto foi tirada. Nada disso foi examinado extensivamente. Não houve confrontação de hipóteses. Em vez disso, as opiniões adversas foram deformadas dando a entender que não passavam de tomadas de posição irracionais e sem fundamento. Sim, passou-se a discutir (única e exclusivamente), posições – atitudes, crenças e antipatias.

Mas também, convenhamos, é muito mais fácil carimbar as ideias dos adversários como ‘preconceitos’, não é mesmo? Deste modo não temos que nos dar ao trabalho de ter que examinar as razões que as fundamentam. Pensar que elas possam ter nascido de boas intenções? Muito menos!

“Raciocinam na base do ‘quem não está conosco estão do outro lado’, mostrando que nem sequer em imaginação podem conceber que exista uma inteligência livre, capaz de atacar o mal sem cair no automatismo mentecapto de supor que a simples inversão da ruindade faria dela um bem.”

E é assim que as coisas são. São essas coisas, que constituem o arroz com feijão das nossas conversações, independente de seu âmbito ou nível cultural. Aquelas longas discussões para se chegar a um consenso há tempos não se vê. Aliás, ninguém sabe mais o que se debate. A queda de braço e a procura de quem tem razão predominam nos diálogos atuais. Ao outro também não se ouve mais - a não ser para pinçar um argumento x e transformá-lo a seu favor. Eis que jaz aquilo que um dia se chamou argumentação, e ao seu lado foi enterrada a confrontação de ideias…

O problema é que não se constrói conhecimento, cultura, “acumulando unicamente opiniões convergentes, mas sim buscando laboriosamente a verdade entre razões divergentes”.

(Quero ressaltar, que ao falar de estupro não estou entrando aqui em méritos de Lei e Código Penal, me refiro única e exclusivamente à polêmica gerada em torno dessa simbólica fotografia. Ao mesmo tempo em que não tenho a intenção de tratar se foi ou não um abuso masculino sobre o feminino. Até porque acho que isso é uma questão pessoal de Greta e pelo que me parece ela não considera este acontecido como tal. Caso tenha interesse, leia a versão original da sua entrevista.)

Fonte de inspiração e fonte: CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. 7º Edição. Rio de Janeiro: Record, 2013.


Farah Serra

Uma jovem mulher que está deixando de ser quem era e se transformando em quem é... Se é fácil? Não. O que vem adiante? Não sei. Mas alguma coisa está acontecendo..
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