Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

A arquitetura do golpe

Seria mais honroso se a oposição tentasse chegar ao poder pela via eleitoral, e não por meios ilícitos, através de mais um golpe de Estado.


arquitetura.jpg

Na quarta-feira (2/12), horas após a bancada petista ter decidido acolher a investigação sobre Eduardo Cunha no Conselho de Ética, o presidente da Câmara dos Deputados decidiu acatar um pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff assinado pelos advogados Hélio Bicudo, Janaína Pascoal e Miguel Reale Júnior.

Embora a atitude de Cunha seja uma mesquinha vingança pessoal contra o PT, não devemos cair em interpretações simplistas, como se o acolhimento do pedido de impeachment fosse uma decisão que tenha surgido do nada.

É preciso entender os fatos dentro de um contexto mais amplo. Trata-se da grande campanha golpista que se instalou nos últimos anos não apenas no Brasil, mas em vários países periféricos.

Não é mera coincidência que, após a crise capitalista de 2008, golpes de Estado (ou tentativas) ocorrem em Honduras, Venezuela, Tailândia, Paraguai, Egito e na Ucrânia.

Apesar de a crise ter surgido nos países centrais do capitalismo, são as nações da periferia do sistema que devem pagar pelas intempéries econômicas, através da pilhagem de suas riquezas, facilitadas por governos vassalos às grandes potências.

Daí o fato de chefes de Estado que possam representar o mínimo entrave para a recuperação dos lucros dos grandes capitalistas serem alvos de campanhas difamatórias ou simplesmente serem depostos.

Sendo assim, conforme apontou uma matéria do Diário do Centro do Mundo, não é por acaso que organizações dos Estados Unidos têm financiado grupos de direita no Brasil para defender suas bandeiras e tentar desestabilizar o governo federal.

Cinco décadas após o golpe civil-militar que derrubou Jango, o imperialismo ianque ainda utiliza o mesmo modus operandi quando constata que têm interesses contrariados em sua principal área de influência.

crise 2008.jpg

Também é fato que a direita brasileira, eleitoralmente inviabilizada, tem se voltado para mecanismos extra-parlamentares como o judiciário (através das punições seletivas) e a mídia (com seu jogo de manipulação dos fatos) para influenciar as principais decisões políticas tomadas no país.

Nesse contexto, o julgamento da Ação Penal 470, mais conhecida como “mensalão”, deixou de ser um fato jurídico para se transformar em um evento midiático, com Joaquim Barbosa alçado ao status de “herói nacional” (chegando inclusive a ser cotado para a presidência da República) e, em contrapartida, políticos petistas foram representados como “vilões”.

É a espetacularização da realidade a serviço do movimento golpista.

Para reforçar o discurso antipetista a mídia hegemônica ainda conta com seus oradores mais raivosos como Rachel Sheherazade, Diogo Mainardi, Alexandre Garcia, Danilo Gentili e Arnaldo Jabor (o “Carlos Lacerda” contemporâneo).

O movimento golpista não seria tão eficaz se não fossem os “formadores de opinião” e suas falas inflamadas.

jabor.jpg

Conforme apontam os atuais estudos na área de comunicação, apesar de a mídia não afetar a audiência de maneira imediata, sua influência pode ser sentida a longo prazo, em aspectos emocionais, comportamentais e estéticas.

Desse modo, como há pelo menos uma década a mídia tem incessantemente divulgado notícias negativas (e não raro caluniosas) em relação aos governos petistas, é normal que boa parte da audiência, bombardeada pelo acúmulo de informações, também passe a adotar a indignação seletiva e o discurso ideológico dos grandes veículos de comunicação, passando assim a acreditar que a corrupção estatal em nosso país começou somente em 2003, quando a “quadrilha” dos “petralhas” se apossou do aparelho estatal.

Ademais, ao superdimensionar e não contextualizar a crise econômica pela qual passamos, a grande mídia também contribui para o clima de pessimismo que impera no Brasil e para direcionar a população contra o governo.

A título de comparação, em 1999, durante o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, quando nosso país também passava por um período econômico conturbado, um anúncio do SBT dizia que a crise representava um momento propício para o crescimento do Brasil. Hoje, a emissora de Silvio Santos só apresenta matérias pessimistas sobre a conjuntura econômica. Dois pesos, duas mediadas.

crise se cresce.jpg

Por outro lado, o governo federal, ao se aliar com o que de mais pernicioso na política brasileira para se manter no poder, ao capitular diante dos setores conservadores ou não procurar solapar o vergonhoso oligopólio dos meios de comunicação que impera em nosso país também tem sua parcela de culpa para alimentar as forças políticas que pedem o impeachment.

Entretanto, nada disso justifica um golpe contra uma presidenta democraticamente eleita. Em uma apreciação técnica, para muitos analistas, o pedido de impeachment aceito por Cunha não está corroborado em bases jurídicas. Ou seja, trata-se de uma mera perseguição política. “O impeachment ter que ser baseado em atos do mandato atual e que caracterizem crimes de responsabilidade. Isso não está no documento. Ele não diz em momento algum que a presidente teve vantagens pessoais. Não vejo consistência jurídica no pedido e estou convencido de que ele não coloca o mandato de Dilma em risco”, destacou o professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Dalmo de Abreu Dallari, em matéria publicada no jornal O Tempo.

golpe-1964.jpg

Em última instância, denunciar o golpe que está sendo gestado no Brasil não se trata de defender este ou aquele partido político, mas prezar pelos mínimos preceitos democráticos duramente conquistados nas últimas décadas pelo povo brasileiro.

A história nos mostra que será extremamente nocivo para nosso país se Dilma Rousseff tiver os mesmos destinos de Getúlio Vargas ou João Goulart.

Seria mais honroso se a oposição tentasse chegar ao poder pela via eleitoral, e não por meios ilícitos, através de mais um golpe de Estado.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// //Francisco Ladeira
Site Meter