Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

A Guerra Fria e seus desdobramentos

O marco inicial da Guerra Fria foi a Doutrina Truman (1947), política da Casa Branca que pretendia conter um suposto avanço das ideias socialistas pelo planeta. Em seguida, os Estados Unidos lançaram o Plano Marshall, em que cediam consideráveis créditos para reestruturar as economias europeias sem condições de reagir aos prejuízos proporcionados pela Segunda Guerra. Consolidava-se assim a liderança ianque sobre as principais potências do Velho Continente.


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Houve um período da História (não tão remoto assim) em que o planeta esteve sob constante ameaça de um grande conflito nuclear; a Alemanha dividida em duas nações; os comunistas (e não os terroristas islâmicos) eram os principais inimigos do Ocidente; a maioria dos países latino-americanos passava por sangrentas ditaduras militares, e, por mais paradoxal que possa parecer, Osama Bin Laden e Saddan Hussein eram aliados dos Estados Unidos.

Essa época turbulenta ficou conhecida como Guerra Fria; uma espécie de conflito não declarado entre duas superpotências – Estados Unidos (capitalista) e União Soviética (socialista) – pela hegemonia planetária. Ordem mundial bipolar que emergira dos escombros da Segunda Guerra Mundial.

O marco inicial da Guerra Fria foi a Doutrina Truman (1947), política da Casa Branca que pretendia conter um suposto avanço das ideias socialistas pelo planeta. Em seguida, os Estados Unidos lançaram o Plano Marshall, em que cediam consideráveis créditos para reestruturar as economias europeias sem condições de reagir aos prejuízos proporcionados pela Segunda Guerra. Consolidava-se assim a liderança ianque sobre as principais potências do Velho Continente.

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Em resposta às políticas de Washington, o governo soviético procurou consolidar sua área de influência no Leste Europeu e em alguns países do Terceiro Mundo, como Cuba. Aliás, a Revolução Socialista na Ilha Caribenha foi pretexto para o apoio dos Estados Unidos a sangrentas ditaduras militares de direita na América Latina. Regimes estes que manteriam tais nações na esfera de influência ianque e livres da “ameaça vermelha”.

Duas alianças militares caracterizaram a Guerra Fria: OTAN – EUA e países da Europa Ocidental – e Pacto de Varsóvia – URSS e países do Leste Europeu. Outros fatos que marcaram a Guerra Frua foram a corrida armamentista e espacial, a propaganda ideológica, as disputas esportivas, a divisão do mundo em zonas de influência capitalista e socialista, a hostilidade mútua entre soviéticos e americanos e a descolonização afro-asiática.

Apesar de não ter ocorrido um confronto direto entre Estados Unidos e União Soviética (o que quase veio a acontecer no acontecimento conhecido como Crise dos Mísseis), as duas superpotências, conforme o mencionado anteriormente, disputaram várias áreas de influência em todo o planeta.

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Em uma dessas empreitadas militares, o exército soviético invadiu o Afeganistão, em 1979. Por sua vez, o governo estadunidense apoiou a resistência afegã. Entre os resistentes estavam Osama Bin Laden e o Talibã. Por mais incongruente que possa parecer, Bin Laden foi armado e treinado pela CIA. Anos mais tarde, por uma dessas ironias da vida, “o feitiço viraria contra o feiticeiro” e o milionário saudita organizaria o “maior atentado terrorista da História” em 11 de setembro de 2001.

Nesse mesmo ano de 1979, ocorria no Irã a Revolução Islâmica comandada pelo aiatolá Khomeini. Temerosos que o “mau exemplo” xiita iraniano se difundisse por todo o mundo muçulmano, os EUA e seus aliados ocidentais incentivaram o Iraque do sunita Saddan Hussein a começar um conflito com o vizinho persa.

Como se sabe, Bin Laden e Saddan Hussein foram mortos pelo Governo de Washington em sua “Guerra ao Terror”. Em geopolítica, o aliado de ontem pode ser o inimigo de hoje, e vice-versa.

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Problemas políticos (em decorrência de uma pesada burocracia estatal), econômicos (agravadas por uma economia fechada) e conflitos étnicos (inúmeras nacionalidades e culturas em um mesmo território) contribuíram para o colapso da URSS em 1991. Este fato histórico também representou o término da Guerra Fria.

É importante ressaltar que a primeira nação socialista do planeta não promoveu a almejada sociedade igualitária. Muito pelo contrário: só veio a aumentar a exploração do homem pelo homem, sustentar um aparelho estatal extremamente centralizado e burocratizado, oprimir liberdades individuais e promover vastos genocídios contra minorias étnicas em seu território. O Estado soviético foi uma poderosa máquina de extermínio que matou mais de 20 milhões de pessoas.

Sendo assim, o fenecer do “socialismo real” foi utilizado por muitos autores como argumento para justificar a impossibilidade de regimes voltados para melhorias e reformas sociais.

Para Francis Fukuyama, o capitalismo e a democracia burguesa enfim triunfaram, e a humanidade havia atingido o estágio final de sua evolução. Segundo Thomas Friedman, o término da Guerra Fria “inclinou a balança do poder mundial para o lado dos defensores da governança democrática, consensual, voltada para o livre mercado, em detrimento dos adeptos do governo autoritário, com economias de planejamento centralizado”.

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Os Estados Unidos realmente “venceram” a Guerra Fria? O sistema capitalista é realmente a única saída para a humanidade? Estaríamos fadados a viver em uma sociedade cada vez mais voltada para o consumo?

Talvez Fukuyama e Friedman tenham sido atingidos pelo calor dos fatos; é extremamente complicado e controverso realizar determinada análise histórica sem o distanciamento temporal necessário. O fracasso do socialismo soviético não significa necessariamente que o modelo capitalista tenha sido bem sucedido.

Como bem lembrou Bruno Latour no livro Jamais Fomos Modernos, o “triunfo capitalista” foi efêmero. Concomitante à queda do socialismo no Leste Europeu e na União Soviética, as primeiras conferências sobre o estado ambiental do planeta frustraram as esperanças capitalistas de conquista ilimitada sobre a natureza.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, no princípio da década de 1990, o mundo capitalista “viu-se novamente às voltas com os problemas da época do entreguerras que a Era de Ouro parecia ter eliminado: desemprego em massa, depressões cíclicas severas, contraposição cada vez mais espetacular de mendigos sem teto a luxo abundante”.

Também é importante salientar que a atual crise econômica capitalista, iniciada com o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, evidenciou um sistema não tão sólido quanto aparenta.

Assim como os socialistas ficaram constrangidos com o colapso soviético; atualmente os capitalistas precisam explicar uma crise econômica provocada justamente pelo excesso de liberdade do mercado. A crença de Adam Smith em um mercado autorregulável que promove o bem estar dos homens é tão falaciosa quanto a sociedade comunista de Marx.

Tanto o “socialismo real” quanto o sistema capitalista não conseguirem resolver as mazelas que afligem a humanidade. Dessa forma, fomentar um sistema político-econômico que possa conciliar liberdade individual e igualdade social surge como um grande desafio neste início de século XXI.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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