Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

A trilha sonora da “nova classe média”

Infelizmente, mais um período de grande ascensão econômica no Brasil não foi acompanhado por semelhante processo de conscientização coletiva.


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Músicas são bons retratos de uma época. Certa vez, um crítico afirmou que bastava ouvir o último disco do Chico Buarque para saber como estava o Brasil durante os anos do Regime Militar. Assim como o samba-exaltação durante a Ditadura Vargas, as composições românticas dos anos 40 aos 60, as letras mais engajadas no já citado período militar, os questionamentos juvenis na década de 80 e a sexualidade nos anos 90, podemos afirmar que a ostentação de determinados bens materiais é a temática mais recorrente nas letras da maioria das músicas hodiernas.

É certo que em países como o Brasil, onde o capitalismo ainda preserva fortes traços aristocráticos, ostentar é uma condição sine qua non para alguém poder se identificar com determinado setor da sociedade. Entretanto, nos últimos anos, com o surgimento da chamada “nova classe média”, a questão do consumo se tornou uma obsessão extremamente doentia em nosso país.

Nesse sentido, não é por acaso que o sertanejo universitário (que ressalta em suas letras o “carrão”, a roupa de grife e a balada da moda) e o funk ostentação (o nome já diz tudo) compõem a trilha sonora dessa “nova classe média” extremamente consumista.

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De acordo com os mais recentes estudos sociológicos, o termo “nova classe média” é utilizado para designar os cerca de quarenta milhões de brasileiros das classes baixas que ascenderam socialmente na última década. Ao contrário da tradicional classe média (relativamente politizada), a “nova classe média” é alienada e pouco instruída. Enquanto a “antiga classe média” tinha como principal característica a capacidade de converter capital econômico em capital cultural, ou seja, um estilo de vida que pressupõe o hábito de leitura ou frequentar lugares como teatros e feiras culturais; a “nova classe média” é composta basicamente por indivíduos que têm no consumismo exacerbado praticamente a única forma de legitimar sua atual posição social.Isso explica, em parte, porque a antiga classe média apreciava composições com conteúdos engajados e a “nova classe média” prefere músicas com temas mais leves.

As letras das canções que fazem a trilha sonora da “nova classe média” têm basicamente os mesmos enredos. O sujeito era desprezado na época em que era pobre, mas passa a ser valorizado socialmente quando melhora sua condição econômica. “Já não faz muito tempo que eu andava a pé. Não pegava nem gripe, muito menos mulher. Agora eu tô mudado. O meu bolso tá cheio. Mulherada atrás”. “Quando eu passava por você na minha CG você nem me olhava. Do dia pra a noite, eu fiquei rico. Tô na grife, tô bonito, tô andando igual patrão. Tô tirando onda de Camaro amarelo. E agora você diz: vem cá que eu te quero”.

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As letras que mencionam marcas famosas também não poderiam faltar no repertório da “nova classe média”. “A nossa roupa é da Ed Hardy, Rio Local ou da Armani”. “Tapa, tapa, tá patrão. Tênis Nike Shox, Bermuda da Oakley. Camisa da Oakley, olha a situação”. “Vem ni mim Dodge RAM Focker duzentos e oitenta. A mulherada louca”. Em relação às baladas da moda, os anseios por distinção social são citados sistematicamente. Todavia, não basta apenas frequentar os lugares mais disputados, é preciso se destacar (pela ostentação, é claro) na multidão. “Camarote já tá reservado. Uísque, Redbull. Elas mandam buscar”.“Áreavip, uísque, no camarote só as top de elite”. Em suma, a nova classe média, que ao ascender socialmente poderia contribuir para construir um país melhor, prefere se limitar ao consumo desenfreado e à completa alienação política.

Por outro lado, seria extremamente inócuo (e até injusto) exigir engajamento social de indivíduos formados pelo péssimo sistema público de ensino, por faculdades particulares caça-níquéis, e que, não obstante, são telespectadores de programas de auditório, novelas e reality-shows. Infelizmente, mais um período de grande ascensão econômica no Brasil não foi acompanhado por semelhante processo de conscientização coletiva. Lastimável realidade.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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