Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Anos 90 e a Degradação da Música Radiofônica no Brasil

Relativismos à parte, qualquer pessoa com o mínimo bom senso sabe que impera no mainstream musical brasileiro, salvo raríssimas exceções, músicas de péssimo nível. Para começar a entender o porquê de tanta alienação sonora, devemos buscar as origens da decadência musical no Brasil. Tal declínio nos remete à década de 1990. Desde então, as paradas de sucesso predominantes nas emissoras de rádio e televisão são ditadas por “ciclos musicais”: “ciclo sertanejo”, “ciclo do pagode”, “ciclo do axé”, “ciclo do forró”, “ciclo do funk carioca”.


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Escrever um texto sobre música pode ser tão polêmico quanto falar sobre política ou religião. Evidentemente cada indivíduo tem suas preferências, seus cantores e bandas preferidos. Isso é fato, e, segundo o senso comum, não cabe a ninguém opinar a respeito do gosto alheio.

Um sujeito pode não gostar de samba, mas não pode contestar a importância desse gênero para a formação da cultura brasileira e para a afirmação do elemento afro-descendente em nossa sociedade. Assim como alguém pode não admirar o rock n’roll, mas deve ter em mente que não há como entender os movimentos de contestação juvenil em nível global a partir dos anos 1960 sem remeter ao estilo musical consagrado por Elvis Presley, The Beatles e tantos outros. “Gosto musical não se discute”, diriam alguns. Será?

A máxima “gosto não se discute” não se mostra assim tão verdadeira quando tratamos de determinados “estilos musicais” difundidos pelos meios de comunicação de massa. A partir do momento em que os “gostos” das pessoas em geral passam a ser “sugestionados” pela mídia, devem sim ser questionados.

Assim, quando a discussão foge do âmbito estritamente sonoro, precisamos buscar em fatores extra-musicais (situação política, social, econômica) as razões para entender porque algumas tendências prevalecem em determinadas épocas. É muito ingênuo acreditar que as canções que ocupam os primeiros lugares nas paradas de sucesso sejam necessariamente o que a população em geral queira ouvir.

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Em se tratando da música feita no Brasil, é inegável o valor artístico e cultural de nossas composições. Poucos povos podem se orgulhar da variedade de ritmos, da riqueza melódica e da alta qualidade de suas produções musicais. Estes e outros motivos fazem da Música Popular Brasileira (rótulo genérico, porém ainda válido de alguma forma) uma das mais respeitadas e admiradas do planeta. Não se trata de chauvinismo, mas poucas nações têm entre seus maiores músicos nomes como Tom Jobim, Chico Buarque, Noel Rosa, Luiz Gonzaga e Baden Powel. Enfim, a lista é imensa e não caberia aqui.

Pois bem, daí alguém pode se perguntar: com tanta qualidade musical, por que ao sintonizar a maioria de nossas rádios nos deparamos com músicas de “qualidade um tanto quanto duvidosa”? Como pode, no mesmo país que produziu grandes nomes da música mundial, as emissoras de rádio em geral insistirem em privilegiar axé Bahia, sertanejo universitário, pagode ou funk carioca em detrimento da boa música?

Relativismos à parte, qualquer pessoa com o mínimo bom senso sabe que impera no mainstream musical brasileiro, salvo raríssimas exceções, músicas de péssimo nível.

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Para começar a entender o porquê de tanta alienação sonora, devemos buscar as origens da decadência musical no Brasil. Tal declínio nos remete à década de 1990. Desde então, as paradas de sucesso predominantes nas emissoras de rádio e televisão são ditadas por “ciclos musicais”: “ciclo sertanejo”, “ciclo do pagode”, “ciclo do axé”, “ciclo do forró”, “ciclo do funk carioca”.

A receita é demasiadamente simples: a população é bombardeada incessantemente por um determinado “estilo” musical, grupos surgem por atacado, ouve-se um único tipo de música até a sua exaustão, e depois, quando todos estão saturados, parte-se para outro estilo musical (o anterior é peremptoriamente esquecido), e seguem-se as mesmas etapas desse processo.

Mas por que tal declínio surge justamente nos anos 1990? Bom, alguns puristas vão afirmar que a decadência musical começou na década de 1980, com o chamado “rock nacional”, “quando a música ‘legitimamente brasileira’ foi substituída nas rádios por um ritmo alhures”. “O rock é “aquela maldita música americana que ‘usurpa’ o espaço da música brasileira nas rádios” diria o mais imediatista dos conservadores.

Não creio que o rock nacional dos anos 80 represente uma página vergonhosa na história da música brasileira. Evidentemente muita coisa ruim foi produzida na época, mas não há como negar que alguns nomes do período apresentaram obras memoráveis.

Bom, conforme o mencionado anteriormente, não se pretende colocar aqui preferências musicais, mas os leitores hão de convir que a partir dos anos 1990 uma série de “ídolos” foram “fabricados” no Brasil menos por suas qualidades do que pela sugestão midiática. Grupos de pagode e axé music venderam milhões de cópias. “Músicas descartáveis” foram produzidas em série.

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É difícil encontrar as razões dessa decadência musical, mas podemos listar pelo menos quatro causas básicas. 1) A grande concessão radiofônica durante o governo Sarney, responsável pela difusão em larga escala do “jabá”. 2) O acesso aos meios de comunicação por parte de segmentos sociais com baixos índices de instrução. 3) A grande pressão de grupos conservadores pela volta da “música brasileira” às rádios após a “grande invasão” das FM’s pelo Rock. 4) O “ministério da vingança”, “instituído” pelo governo Collor contra os artistas que apoiaram Lula no segundo turno da eleição presidencial de 1989.

Vamos ao primeiro argumento. Em 1987 José Sarney enviou ao Congresso uma emenda constitucional que apresentava a proposta de postergar seu governo, que terminaria no ano seguinte, por mais um ano. Visando o apoio do Legislativo para sua emenda, o então presidente da República fez uma série de concessões de rádio para deputados federais. Surgia assim um grande número de novas emissoras de rádio por todo o país e o ex-presidente maranhense atingira seus objetivos.

Se Sarney saiu vitorioso no Congresso Federal, a cultura brasileira sofreu um grande baque. Como esses novos meios de comunicação não estavam comprometidos com a qualidade de sua programação e sim com a possibilidade de lucrar cada vez mais, enraizou-se na mídia brasileira a prática do “jabá”. Ou seja, a execução de uma determinada música em uma emissora de rádio mediante ao pagamento de certa quantia em dinheiro. Tudo isso veio a ensejar o surgimento de “ídolos fabricados”. Subitamente novos cantores e grupos musicais apareciam na mídia já como detentores de discos de platina e ouro.

Diante dessa realidade, cabe aqui uma pergunta capciosa: “determinada música é a mais tocada na rádio por que o público gosta, ou o público gosta por que é a mais tocada”? Sem menosprezar a capacidade de escolha de cada indivíduo, acredito na influência midiática em médio/longo prazo. Em várias ocasiões uma pessoa é levada a aderir ao gosto da maioria como maneira de se inserir em determinado grupo social.

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Por outro lado alguém poderia argumentar que uma música não é mantida no topo das paradas de sucesso sem o apoio popular. Pois bem, é exatamente aí que se enquadra a segunda causa para a decadência da música brasileira. A maior parte da população do Brasil não tem boa instrução; assim surge um grave problema: os meios de comunicação de massa se expandiram no país antes que a educação de qualidade se universalizasse. Apesar de seu pensamento elitista, temos que concordar com o filósofo alemão Adorno quando dizia que o efeito colateral da vertiginosa expansão dos meios de comunicação de massa seria o nivelamento cultural por baixo.

Evidentemente não estou sendo contrário ao acesso das classes menos favorecidas aos veículos de comunicação, mas seria mais plausível primeiramente educar esses segmentos antes de os “expor” aos mecanismos sedutores da cultura de massa. Uma população marcada por baixos índices de escolaridade não é capaz de refletir e questionar, e assim acaba aceitando tudo o que é ditado pela mídia.

Já o terceiro argumento, a grande pressão de grupos conservadores pela volta da “música brasileira” às rádios após a “grande invasão” das FM’s pelo Rock, já foi debatido anteriormente. Contudo, não foram somente os setores conservadores que insurgiram contra o rock. Setores ditos “progressistas” criticavam veementemente a origem elitista dos componentes das bandas de rock nacional. Sendo assim, era preciso ceder espaço para as classes mais baixas, representadas por pagodeiros, cantores e cantoras de axé music e funkeiros.

Em entrevista à Bruna Lombardi, o cantor Ed Motta dizia ser “sociologicamente interessante” o declínio do rock e a ascensão de gêneros como o pagode, pois assim novos estratos sociais passariam a se expressar nos meios de comunicação.

Não faz sentido fazer da música brasileira uma espécie de “luta de classes”. Ed Motta foi totalmente infeliz em sua declaração. Ao contrário do que pensa o sobrinho de Tim Maia, os grupos citados não “representam” a população pobre, mas sim a imagem passiva e alienada que a elite brasileira espera das classes mais baixas.

Não é por ter uma origem humilde que um músico deve apresentar composições de baixa qualidade. Pelo contrário, há inúmeros casos de músicos nascidos ou criados em áreas pobres que possuem obras do mais alto nível. Cartola, por exemplo, é sem dúvida um dos maiores nomes da MPB.

No entanto, alguns podem falar que o músico carioca pertence à outra época, que sua trajetória não pode ser aplicada ao contexto contemporâneo. Devemos assim nos apegar a nomes atuais.

Pois bem, para citar um exemplo hodierno temos Mano Brown e os Racionais MC’s. Um indivíduo pode não gostar de rap, mas é inegável a crítica social contundente apresentada nas composições dos Racionais.

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Finalmente vamos ao quarto e mais polêmico argumento. As eleições de 1989 foram uma das mais disputadas e emocionantes da história do Brasil. Depois de duas décadas de Regime Militar (1964-1985), os brasileiros enfim poderiam escolher seu presidente. Dessa forma, as mais diversas expressões ideológicas se manifestaram nesse pleito (ao todo foram 22 candidatos). Como se sabe, Fernando Collor de Mello (Partido da Reconstrução Nacional) e o ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores), foram para o Segundo Turno.

Bom, mas o que isso tem a ver com o tema deste texto? Tudo. Devido ao seu caráter histórico, o pleito de 1989 movimentou amplos setores da sociedade brasileira, e com a classe artística não foi diferente. Boa parte dos músicos se posicionou a favor da candidatura petista. A favor da candidatura Collor de Mello estavam (principalmente) as duplas sertanejas e os músicos da Lambada, antecessor da atual axé music.

Em uma disputa acirrada, marcada por inúmeras polêmicas, Collor vence Lula e, conforme anunciavam jornais da época, prepararia uma espécie de “ministério da vingança” contra aqueles artistas que apoiaram seu rival. Já os sertanejos, fiéis aliados do “caçador de marajás”, viveram tempos de glória durante a Era Collor. Dominaram as principais paradas de sucesso e venderam milhões de discos.

Coincidência? Não por acaso, Collor, que assumiu em março de 1990, em seu primeiro ano de mandato transformou o Ministério da Cultura em Secretaria da Cultura (o que veio a ensejar grandes restrições orçamentárias para as políticas culturais no Brasil). A partir de então os grandes nomes da MPB apresentaram um paulatino declínio de execução em rádios, e os músicos fabricados para tentar alienar a população começariam a viver seus melhores momentos.

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Para concluir este texto, devo fazer algumas elucidações. Não pretendo acusar este ou aquele governo como responsável direto pela decadência da música brasileira, tampouco apontar os anos 1990 como a “década perdida” da música. Importantes e inovadores nomes do cenário musical, como Chico Science, apareceram na época.

Essa crise de criatividade e produtividade musical apresentada no Brasil também foi sentida, em maior ou menor grau, em várias partes do planeta. Também é importante ressaltar que eu não quis apresentar uma visão saudosista da música brasileira. Sou a favor da renovação do cenário musical, desde que prevaleça o bom senso.

Obviamente existem milhares de cantores e bandas por todo o país que produzem trabalhos excelentes, mas infelizmente não têm seu espaço na mídia nem são conhecidos do grande público. Não apregoo que somente um estilo deva estar em evidência. Seria interessante que a população pudesse escolher através de uma grande gama de opções musicais.

Muitos podem argumentar que o advento da Internet tornou bem mais fácil o acesso a qualquer tipo de música. Entretanto no Brasil a grande maioria da população ainda tem contato com as novidades musicais somente através da grande mídia. E infelizmente essa realidade está longe de ser revertida. Parece que o passar dos anos deixa as pessoas mais alienadas e vulneráveis a padronizações. Como diria Zé Ramalho, na canção “Admirável Gado Novo”: “vida de gado, povo marcado ê, povo feliz...”.

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Francisco Ladeira

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