Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Direita e esquerda na América Latina contemporânea

A experiência nos mostra que uma nova guinada à direita na América Latina, em alguns casos, inclusive passando por cima da democracia, representará a volta de tempos sombrios de mandatários que só governam para as parcelas mais abastadas da população.


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Nos anos 1990, praticamente toda a América Latina foi tomada por uma onda de governos de direcionamento econômico neoliberal. Nesse sentido, ações como a total abertura das fronteiras nacionais para o capital especulativo, privatizações de empresas estatais, diminuição de direitos trabalhistas e encolhimento de programas sociais foram adotadas em larga escala no nosso subcontinente.

Se essas medidas foram extremamente benéficas para os grandes capitalistas, que aumentaram sumariamente seus lucros, para as parcelas mais pobres da população, em contrapartida, a aplicação do receituário neoliberal representou uma deterioração considerável em suas condições de vida.

Sendo assim, já no final da década de 1990 e início dos anos 2000, em repulsa ao neoliberalismo, a população da maioria das nações latino-americanas elegeu governos mais à esquerda que, se não romperam com o paradigma econômico vigente, ao menos foram responsáveis pelo aumento da participação estatal na economia e introduziram políticas relativamente consistentes de redistribuição de renda.

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Nesse contexto, foram eleitos Hugo Chávez (Venezuela), Lula (Brasil), Manuel Zelaya (Honduras), Néstor Kirchner (Argentina), Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador), Fernando Lugo (Paraguai) e Pepe Mujica (Uruguai), entre outros.

Embora apresentem divergências, estas gestões têm um ponto em comum: são governos de conciliação de classes. Em outros termos, procuram contemplar as demandas da elite econômica e, devido à sua base popular, também atendem a alguns anseios dos setores sociais menos abastados.

Mesmo com a forte oposição dos setores mais conservadores, este modelo conciliatório foi relativamente estável até o início da presente década, quando os efeitos da crise econômica capitalista de 2008 foram sentidos com maior intensidade.

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Apesar de a crise ter surgido nos países centrais do capitalismo, de acordo com a lógica do sistema, são as nações periféricas que devem pagar pelas intempéries econômicas, através da pilhagem de suas riquezas, facilitadas por governos vassalos às grandes potências.

Daí o fato de chefes de Estado que possam representar o mínimo entrave para a recuperação dos lucros dos grandes capitalistas, como os citados anteriormente, serem alvos de campanhas difamatórias.

Assim, o imperialismo (leia-se: grandes potências ocidentais, sobretudo os Estados Unidos) e seus simpatizantes latino-americanos vêm incessantemente tentado desestabilizar os governos mais à esquerda, seja através de mecanismos extra-parlamentares como o judiciário e a mídia ou até mesmo chegando às vias de fato (como os “golpes parlamentares” em Honduras e no Paraguai).

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A eleição de Mauricio Macri para a presidência da Argentina, a abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff no Brasil e a vitória da oposição ao chavismo nas eleições legislativas na Venezuela são exemplos recentes que se encaixam na atual ofensiva conservadora em nosso subcontinente.

Enfim, a experiência nos mostra que uma nova guinada à direita na América Latina, em alguns casos inclusive passando por cima da democracia, representará a volta de tempos sombrios de mandatários que só governam para as parcelas mais abastadas da população. Um tenebroso retrocesso para o historicamente sofrido cidadão latino-americano.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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