Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Simone de Beauvoir, Enem e o pensamento conservador

Nos últimos anos, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem sido marcado por alguns pontos negativos, como supostos vazamentos de gabarito e falta de organização na aplicação das provas. Entretanto, a edição de 2015 certamente será lembrada pela afirmação da questão feminista e a necessidade de se refletir sobre a violência contra a mulher como importantes bandeiras de nossa contemporaneidade.


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O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano certamente será lembrado durante muito tempo por causa da polêmica gerada pela questão de número 5 da prova de Ciências Humanas.

O motivo para tal imbróglio está relacionado à citação de um trecho com a célebre frase “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, presente no livro “O segundo sexo”, da ativista e filósofa francesa Simone de Beauvoir, que inspirou intelectualmente as lutas feministas a partir da segunda metade do século passado. Desse modo, uma questão aparentemente simples de se resolver foi motivo de inúmeros xingamentos por parte dos setores mais conservadores de nossa sociedade.

Como vivemos na Era da informação instantânea, logo que foram publicadas as primeiras notícias sobre o Enem, as redes sociais foram inundadas por postagens dizendo que o Ministério da Educação (MEC), ao citar Simone de Beauvoir em uma questão, estaria “doutrinando” os estudantes brasileiros com “ideias marxistas, feministas e comunistas” e “fazendo propaganda ideológica de esquerda”. Nada mais falacioso.

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Ora, qualquer pessoa que exerça minimamente sua capacidade cognitiva é capaz de concluir facilmente que a frase “Não se nasce mulher, torna-se mulher” sintetiza a idéia de que os conceitos de “masculinidade” e “feminilidade” não são dados naturais, mas socialmente construídos.

Em outros termos, os papéis sociais que cada gênero deve desempenhar, como a suposta submissão das mulheres em relação aos homens, foram criados pelas diferentes organizações sociais ao longo da história. Isso sim é ideologia: querer “naturalizar” ideias que pertencem a um determinado estrato da sociedade como se fossem universais e atemporais.

Ademais, não há como negar a influência de movimentos como o feminismo para as mudanças de hábitos e costumes que ocorreram em praticamente todo o planeta após a década de 1960. Concordar ou não com as ideias de Simone de Beauvoir é outro assunto.

Muitas ativistas acusam o feminismo da filósofa francesa de ser “elitista”, pois não contemplaria demandas e reivindicações históricas de mulheres negras e pobres.

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Seguindo a lógica do raciocínio distorcido dos conservadores brasileiros, então uma questão sobre o nazismo influenciaria os estudantes a se tornarem intolerantes?

Na verdade, o que essas pessoas não aceitam é qualquer tipo de engajamento social que represente a mínima possibilidade de melhoria nas condições de vida de grupos historicamente inferiorizados como mulheres, pobres, negros ou homossexuais.

Os mesmos indivíduos que utilizam termos como “feminazis” para se referirem às mulheres que defendem as causas de seu gênero, apoiam políticas retrógradas como a ”cura gay”, a volta da Ditadura Militar, o Estatuto da Família ou o Projeto de Lei 5069/2013, que na prática dificulta o acesso ao aborto legal para vítimas de estupro, recentemente aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

Enfim, parafraseando a própria Simone de Beauvoir, podemos dizer que “não se nasce idiota, torna-se idiota”.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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