Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Televisão e subjetividade

Frente às faculdades mentais humanas, os meios de comunicação agem como espécies de “id personalizados” quando realizam gozos do indivíduo ou satisfazem determinadas pulsões. Por outro lado, ao legitimar normas sociais, ditar padrões de conduta ou apresentar julgamentos de valores sobre determinados fatos, a mídia, sobretudo a televisão, também é responsável pela “construção” de um “superego”.


1-Televisao.jpg

Entre os meios de comunicação de massa, a televisão é certamente o que possui maior popularidade. Talvez a principal razão para o êxito da televisão seja a sua capacidade de despertar aspectos subjetivos dos telespectadores. Mais do que um simples aparelho eletrônico na decoração da sala de visitas, em muitos lares a TV é praticamente um membro da família, “babá-eletrônica” ou a companhia noturna para os solitários.

Personagens de ficção ou celebridades midiáticas cumprem funções de verdadeiros alteregos dos telespectadores e fazem com que projeções, sonhos e desejos inconscientes que jamais seriam alcançados na “vida real” possam ser realizados simbolicamente. Não obstante, a televisão também pode lançar padrões de comportamento ou legitimar determinadas normas sociais.

No livro Espreme que sai sangue - um estudo do sensacionalismo na imprensa, Danilo Angrimani Sobrinho faz uma oportuna analogia entre mídia e os clássicos conceitos freudianos que abordam as instâncias da personalidade - id, ego e superego – para demonstrar como os meios de comunicação agem psiquicamente sobre os diferentes indivíduos. De maneira resumida, o termo id refere-se às pulsões e vontades inconscientes do sujeito; o superego às normas e tabus sociais introjetados pelos indivíduos e o ego à hercúlea tentativa de equilibrar a princípio do prazer (id) com o princípio da realidade (superego).

Frente às faculdades mentais humanas, os meios de comunicação agem como espécies de “id personalizados” quando realizam gozos do indivíduo ou satisfazem determinadas pulsões. Segundo Edgar Morin, os fait-divers (notícias bizarras) propiciam que sentimentos reprimidos possam ser “midiaticamente sublimados”.

“No fait-divers, as proteções da vida normal são rompidas pelo acidente, catástofre, crime, paixão, ciúmes, sadismo. O universo do fait-divers tem em comum com o imaginário (o sonho, o romance, o filme) o desejo de enfrentar a ordem das coisas, violar os tabus, levar ao limite, à lógica das paixões”, escreveu Morin no livro Cultura de massas no século XX, o espírito do tempo.

Já os reality-shows, ao exporem e socializarem aspectos íntimos de seus participantes, satisfazem simbolicamente aspirações relacionadas a práticas como voyeurismo, fetichismo ou onanismo. Por sua vez, o pensador francês Pierre Charaudeau adverte que o âmbito televisivo, ao exibir incessantemente cenas potencialmente chocantes ou empregar termos pertencentes ao campo semântico da emoção, é suscetível de produzir variados efeitos patêmicos em sua audiência como ira, compaixão, angústia, desprezo, revolta, simpatia e repulsa.

br-urgente.jpg

Por outro lado, ao legitimar normas sociais, ditar padrões de conduta ou apresentar julgamentos de valores sobre determinados fatos, a mídia, sobretudo a televisão, também é responsável pela “construção” de um “superego”. Nessa lógica, noticiários sensacionalistas nos moldes de Cidade Alerta ou Brasil Urgente exercem o papel de “punir” comportamentos considerados socialmente transgressores.

Também é importante destacar o mórbido sentimento de prazer despertado com o sofrimento alheio ocasionado pelas coberturas de tragédias naturais e humanas, nas transmissões “ao vivo” de sequestros ou nas cenas de truculentas abordagens policiais em comunidades carentes. É a inconsciente descarga sádica que os seres humanos possuem à serviço do aumento dos índices de audiência.

Evidentemente, este artigo não teve a pretensão de esgotar as possibilidades de análise sobre os diferentes estados emocionais que podem ser condicionados pelo âmbito televisivo. Conforme apontamos em outro artigo, não há como fazer uma análise holística de nossa contemporaneidade sem levar em consideração a influência da televisão.

Sendo assim, é inconcebível que as concessões desse poderoso veículo de comunicação estejam concentradas nas mãos de poucas famílias que estão, sem exceção, atreladas aos setores mais conservadores da sociedade brasileira e ao grande capital. Diante dessa realidade, é imprescindível a fomentação de políticas públicas que assegurem o acesso aos meios de comunicação de massa por parte dos diferentes grupos sociais. Em última instância, uma democracia realmente autêntica requer impreterivelmente o fim do coronelismo midiático.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Francisco Ladeira
Site Meter