Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Zeca Carmargo e os cantores sertanejos

Na era das redes sociais qualquer assunto é motivo para gerar polêmica. No país do personalismo, geralmente os indivíduos preferem dirigir insultos pessoais ao invés de debater sobre argumentos. Não obstante, um quarto da população brasileira é analfabeta funcional, ou seja, são pessoas que podem distorcer totalmente o conteúdo de um texto.


Na era das redes sociais qualquer assunto é motivo para gerar polêmica. No país do personalismo, geralmente os indivíduos preferem dirigir insultos pessoais ao invés de debater sobre argumentos. Não obstante, um quarto da população brasileira é analfabeta funcional, ou seja, são pessoas que podem distorcer totalmente o conteúdo de um texto.

Essa “mistura explosiva” pôde ser constatada na repercussão da morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo. Boa parte dos fãs do músico ficou bastante indignada com o simples fato de que muitos indivíduos nunca ouviram falar no cantor, ou tampouco conhecia suas músicas, como se todos os brasileiros fossem obrigados a seguir fielmente todos os modismos sugeridos pelos meios de comunicação de massa.

Eu mesmo fui alvo de ofensas de cunho pessoal, achincalhado em uma rede social e tratado por epítetos como “palhaço”, “desinformado” e “desrespeitoso”, entre outros xingamentos impublicáveis, por ter afirmado não saber quem era Cristiano Araújo. Seria a “ditadura das massas”, que tanto temia o filósofo espanhol Ortega y Gasset?

Por outro lado, o apresentador da Rede Globo Zeca Camargo foi escolhido como bode expiatório para ser atacado nessa grande “catarse-comoção coletiva” que tomou conta do Brasil após o falecimento de Cristiano Araújo. Em uma crônica escrita para o “Jornal das 10”, do canal a cabo GloboNews, Zeca Camargo considerou exagerada a cobertura midiática sobre a morte do cantor sertanejo, pois se tratava de uma figura relativamente desconhecida que ainda não havia alcançado o status de “ídolo nacional”.

O apresentador também criticou o atual cenário musical brasileiro, dominado por “revelações de uma música só”. Não há, no decorrer do texto, juízo de valores especificamente sobre as composições de Cristiano Araújo ou tampouco críticas negativas aos fãs.

Entretanto, talvez levados pelo “analfabetismo passional” (a análise do conteúdo de um texto, quando realizada sobre forte impacto emocional também conduz a equívocos), alguns cantores sertanejos distorceram completamente a crônica de Zeca Camargo e acusaram o apresentador de desrespeitar a família e os fãs de Cristiano. Desse modo, Zeca Camargo foi execrado nas redes sociais, teve sua sexualidade questionada, chamado de “babaca”, “futil” e “raso”, comparado a fezes e acusado de “estar sob o efeito de drogas” ao escrever seu polêmico texto (qualquer semelhança com os xingamentos que citei acima não é mera coincidência).

Em contrapartida, Israel Novaes, ao fazer uma boa análise sobre o conceito de cultura, foi o único cantor sertanejo que se propôs a refutar os argumentos de Zeca Camargo. Em suma, o cerne desse artigo não é discutir se esse ou aquele estilo musical é melhor ou pior do que os demais. O debate principal é sobre incapacidade de muitas pessoas em ouvir opiniões contrárias às suas e não conseguir manter uma discussão no âmbito argumentativo.

Na “censura branca” que tomou conta de nosso cotidiano, criticar o status quo é pecado mortal. Daqui a alguns anos, um indíduo vai ter que pedir desculpas por pensar. Como diria o cantor e compositor Lobão, “no país da fofoca, ter opinião é tabu”.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// //Francisco Ladeira