Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Breves reflexões sobre um golpe de Estado em pleno século XXI

Acreditávamos que os mínimos preceitos democráticos estavam consolidados no Brasil. Ledo engano. As palavras e expressões utilizadas neste texto poderiam retratar décadas longínquas de nossa história, mas refletem o momento atual de nosso país.


dois golpes.jpg

Poderia ser 1937, ocasião em que Getúlio Vargas implantou o Estado Novo. Poderia ser 1954, quando o próprio Vargas, pressionado por forças conservadoras, cometeu suicídio. Poderia ser 1964 e a tomada do poder pelos militares com o apoio de setores influentes da sociedade civil. Mas é 2016.

Poderia ser “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, mas são manifestações dominicais de pessoas trajando camisas da CBF. Poderia ser Carlos Lacerda, mas é Arnaldo Jabor. Poderia ser Tribuna da Imprensa, mas é Veja. Poderia ser IPES, mas é Instituto Millenium. Poderia ser Roberto Marinho, mas são seus herdeiros. Poderia ser a “paranoia anticomunista”, e ainda é a “paranoia anticomunista”. Poderia ser a classe média histérica como massa de manobra, e ainda é a classe média histérica como massa de manobra. Poderia ser Joaquim Silvério dos Reis, mas é Michel Temer.

Substituíram cinquenta e quatro milhões de votos pela decisão de algumas centenas de parlamentares. Substituíram os (poucos) avanços sociais pelo retorno maciço do projeto neoliberal. Substituíram uma diplomacia independente pela submissão. Substituíram Paulo Freire por Alexandre Frota.

Substituíram apoio ao ensino superior público pela mercantilização da educação. Substituíram movimentos estudantis por Kim Kataguiri. Substituíram Chico Buarque por Lobão. Substituíram direitos das minorias por Bolsonaro. Substituíram agricultura familiar pelo agronegócio. Substituíram “Mais Médicos” pela privatização da saúde. Substituíram “pobres em aeroportos” por “ricos em Miami”. Substituíram imprensa alternativa pela grande mídia. Substituíram treze anos pelos seus quinhentos antecessores.

Poderia ser João Goulart, mas foi Dilma Rousseff. Substituíram tanques e armas por togas e martelos. Poderia ser um pesadelo, mas, infelizmente, é a realidade.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// @obvious //Francisco Ladeira