Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

2015: Um ano extremamente conturbado

Nos principais noticiários de 2015, predominaram palavras e expressões com forte carga semântica negativa como “crise”, “inflação”, “terrorismo”, “estiagem”, “racismo”, “corrupção” entre outras. Em suma, para o deleite dos pessimistas, foi um ano extremamente difícil.


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O ano recém-terminado não foi tão aguardado quanto 2012 (quando chegaria o "final dos tempos"), nem presenciou grandes mobilizações populares como as de junho de 2013 ou tampouco foi marcado por importantes eventos como a Copa do Mundo no Brasil e as eleições presidenciais, conforme o ocorrido no ano passado.

Nos principais noticiários de 2015, predominaram palavras e expressões com forte carga semântica negativa como “crise”, “inflação”, “terrorismo”, “estiagem”, “racismo”, “corrupção” entre outras. Em suma, para o deleite dos pessimistas, foi um ano extremamente difícil.

No ano passado um espectro rondou o Brasil. Trata-se do espectro da intolerância. Logo no primeiro mês do ano, artigos de colunistas do jornal O Globo hostilizaram os segmentos economicamente inferiores da pirâmide social. A cena de um beijo lésbico em uma telenovela da Rede Globo e um comercial de perfumes com casais homoafetivos geraram vários comentários homofóbicos.

Corroborando a atual onda de radicalismos ideológicos, simpatizantes e políticos petistas foram achincalhados em vários pontos do país. No subúrbio do Rio de Janeiro, cinco jovens negros foram praticamente fuzilados por policiais militares. Em abril, professores paranaenses em greve foram covardemente atacados por PMs. Já a presença da temática feminista no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) ensejou fortes reações machistas nos setores conservadores de nossa sociedade.

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O ano que terminou foi marcado pelo maior acidente ambiental da história do Brasil. Em novembro, após o rompimento de duas barragens da mineradora Samarco, localizadas no município mineiro de Mariana, milhares de quilômetros quadrados foram inundados de lama tóxica, gerando um grande número de desaparecidos, mortos e desabrigados.

Não obstante, nosso país também foi assolado pelo surto de microcefalia, atribuído ao zika vírus, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo da dengue.

Contrariando promessas de campanha, o Governo Federal cortou benefícios e direitos trabalhistas. Na internet, vídeos sobre brigas entre adolescentes e triângulos amorosos tiveram milhões de acessos e viraram assuntos nacionais, gerando os nefastos bordões “Já acabou, Jéssica?” e “Foi fazer a unha né, Fabíola”?. Tristes retratos daquilo que Zygmunt Bauman chama de “erosão do anonimato”.

Em 2015, faleceram, entre outras personalidades, o escritor e ativista social uruguaio Eduardo Galeano, o cantor estadunidense B. B. King, o professor Joel Rufino dos Santos, a atriz Marília Pêra, o apresentador e ator Antônio Abujamra, o compositor Fernando Brandt e o ex-jogador Ghigia, autor do lendário gol que deu o título da Copa do Mundo de 1950 para o Uruguai, vencendo a seleção brasileira em pleno Maracanã.

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Nos noticiários internacionais, os antagonismos entre o imperialismo ocidental e o radicalismo muçulmano foram destaque com a crise dos refugiados no continente europeu e os ataques terroristas na França, Mali, Líbano, Afeganistão e Iraque. No Nepal, terremotos de grande magnitude causaram perdas materiais e humanas. Gâmbia se tornou o primeiro Estado oficialmente islâmico da história do continente africano.

Já a América do Sul registrou uma relativa guinada à direita com as vitórias de Mauricio Macri para a presidência da Argentina, da oposição ao chavismo nas eleições parlamentares venezuelanas e com a chegada ao poder do militar reformado David Granger na Guiana, derrotando o Partido Progressista do Povo (PPP), que estava há vinte e dois anos no comando do país.

No entanto, nem só de notícias ruins viveu o ano. No estado de São Paulo, estudantes ocuparam escolas e conseguiram fazer com que o governador Geraldo Alckmin postergasse seu projeto neoliberal de reorganização escolar, que previa o fechamento de instituições de ensino básico e transferência unilateral de alunos. Para o desespero dos conservadores, a Suprema Corte dos Estados Unidos legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todo o país.

O já citado Zygmunt Bauman, talvez o maior cientista social vivo do planeta, esteve pela primeira vez no Brasil. Em Gâmbia e na Nigéria a mutilação genital feminina foi oficialmente proibida.

Ainda no continente negro, uma equipe internacional de cientistas descobriu uma nova espécie de hominídeo, o Homo naledi, que, com características ainda simiescas e outras muito semelhantes ao Homo sapiens, lançou novas questões sobre o nosso processo evolutivo.

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No Brasil de 2015, a palavra “impeachment” virou eufemismo para “golpe de Estado”. A movimentação golpista ganhou força em fevereiro, com a eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara dos Deputados, aumentou com as “manifestações” anti-Dilma “convocadas” pela mídia hegemônica e pela elite econômica, culminando na aceitação do pedido de impeachment por parte de Cunha em dezembro.

Entretanto, articulações do governo federal, mobilizações populares pela permanência da presidenta Dilma e decisões desfavoráveis do Supremo Tribunal Federal frearam paliativamente o ímpeto golpista. Desse modo, diante de um 2015 extremamente atribulado, esperamos que em 2016 pelo menos os preceitos democráticos duramente conquistados sejam respeitados em nosso país.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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