Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

A votação do impeachment: um evento "político/midiático"

As retóricas pseudo-moralistas contra a corrupção deram a tônica dos discursos parlamentares e as palavras que mais se ouviram na Câmara foram “Deus” e “família”. Em raras oportunidades foram apresentados argumentos para o afastamento da presidenta. “Discutir ideias não rende votos”, pensaram muitos deputados.


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A votação favorável pela continuidade do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados já passou para a posteridade como uma das páginas mais infelizes da secular história brasileira ao lado de acontecimentos como a ascensão do regime escravista, a Guerra de Canudos ou o Golpe Militar.

A referida sessão legislativa - marcada para um domingo, dia da semana em que a maioria dos brasileiros tem tempo disponível para estar em frente à TV - foi estrategicamente planejada para ser uma espécie de evento “político/midiático”.

Todo evento midiático que pretende atingir uma grande audiência deve ser de fácil assimilação. Desse modo, o que deveria ser um debate sobre diferentes argumentos políticos, transformou-se em um “épico”, tendo Eduardo Cunha alçado ao status de “herói” e, por sua vez, Dilma Rousseff retratada como “vilã”.

O fato de este evento “político/midiático” apresentar como personagem principal um dos políticos mais corruptos de nossa história e, de outro lado, como antagonista, uma das únicas personalidades do alto escalão da política brasileira que nunca foi investigada por corrupção foi um mero detalhe.

Como diria um clássico pensamento político (erroneamente atribuído a Maquiavel), “os fins justificam os meios”. O importante é o “final feliz”, com a deposição da presidenta.

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De maneira geral, os discursos proferidos pelos parlamentares foram pensados levando em consideração a grande visibilidade midiática que aquele momento único proporcionaria. Diante das câmeras, era preciso passar uma imagem de cidadão de bem, extremamente ético e honrado em suas atitudes. Em suma, perfeito exemplo de um membro da tradicional família cristã brasileira.

Não por acaso, as retóricas pseudo-moralistas contra a corrupção deram a tônica dos discursos parlamentares e as palavras que mais se ouviram na Câmara foram “Deus” e “família”. Em raras oportunidades foram apresentados argumentos para o afastamento da presidenta. “Discutir ideias não rende votos”, pensaram muitos deputados.

A transmissão ao vivo do impeachment de Dilma Rousseff trouxe para o grande público as inúmeras incoerências do Congresso mais conservador da Nova República. Ouvimos rasgados elogios a figuras controversas como torturadores do regime militar, grileiros e políticos reconhecidamente corruptos.

Não obstante, as vaias e os aplausos que acompanharam cada voto dos parlamentares nos deram a impressão de estarmos assistindo a um programa de auditório e não a uma reunião de indivíduos que possuem a prerrogativa de tomar decisões que influem no cotidiano de todos os brasileiros.

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Por outro lado, não há como inocentar setores de nossa imprensa que divulgaram inconsequentemente vazamentos seletivos de informações ou projetarem todos os males do país em um único partido, contribuindo assim para conturbar ainda mais o cenário político brasileiro.

A história certamente os julgará. Então, quem sabe, cinquenta anos depois, assim como recentemente fizeram em relação ao apoio dado ao Golpe Militar, alguns veículos midiáticos reconhecerão os equívocos de sustentar um processo ilegítimo de ruptura democrática. Aí, infelizmente, será tarde demais.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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