Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Considerações sobre algumas características que nos tornam humanos

Mas, afinal, o que nos faz realmente humanos? Durante séculos, inúmeros pensadores, das mais variadas tendências ideológicas e áreas de estudo, se debruçaram sobre esta integrante questão existencial.


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Ao longo de nosso processo de socialização, desde a mais tenra idade, “aprendemos” que nós, humanos, somos “superiores” aos demais seres vivos.

Diferentes maneiras de conceber a realidade veem o homem como a mais divina das criações (religião cristã), como ser que age exclusivamente de maneira racional em detrimento dos instintos (filosofia iluminista) ou como ente fadado a dominar a natureza (ciência positivista).

Na mitologia judaico-cristã, base espiritual da civilização ocidental, o homem é à imagem e semelhança de Deus, a mais importante de suas criações. Segundo a narrativa bíblica, todas as outras espécies e os recursos naturais de nosso planeta teriam sido criados pela Providência exclusivamente para servir aos desejos e aspirações dos seres humanos.

Com o advento do pensamento moderno, após o movimento cultural conhecido como Renascimento, e, sobretudo com o Iluminismo, no século XVIII, o paradigma teocêntrico é paulatinamente substituído pelo modelo antropocêntrico. Em outros termos, a razão substituiu Deus como centro do pensamento.

Mesmo com sua relativa dessacralização, o ser humano continuou a ocupar uma posição de destaque no mundo, não mais por ser a principal criação divina, mas por suas capacidades racionais, que poderiam ensejar a derradeira libertação do homem em relação à natureza.

Com a escola positivista, o paradigma antropocêntrico ganhou contornos radicais. Intelectuais dessa corrente de pensamento consideravam que a ação humana não apenas dominaria a natureza, mas, a partir de pontuais intervenções racionais e científicas, seríamos capazes de engendrar uma sociedade ideal.

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Entretanto, a Teoria da Evolução, formulada pelo naturalista britânico Charles Darwin, demonstrou que o homo sapiens é apenas mais uma, entre milhões de espécies, não sendo o ápice e tampouco o propósito do processo evolutivo, retirando assim o homem de seu suposto pedestal frente à natureza. Em resumo: não somos “especiais” como pensávamos.

Por outro lado, é patente que o ser humano, ao transformar constantemente seu meio ambiente e a si próprio, transcendeu a mera existência biológica. Somos também seres culturais.

Mas, afinal, o quê nos faz realmente humanos? Durante séculos, inúmeros pensadores, das mais variadas tendências ideológicas e áreas de estudo, se debruçaram sobre esta integrante questão existencial.

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Na clássica definição de Aristóteles, o homem é considerado um “animal político”, pois, ao contrário de todos os outros animais, é dotado da razão e do discurso. Por meio da razão e do discurso, o ser humano, teoricamente, desenvolveu noções morais como justo, injusto, bem e mal.

Todavia, o surgimento da racionalidade humana trouxe como maior efeito colateral a consciência de nossa finitude. Esta constatação, obviamente, é fonte de enorme angústia. Para amenizar essa inquietude perante a certeza da morte, as diversas formas de organização social criaram deuses e a ideia de uma existência pós-mundana (como o paraíso cristão, por exemplo).

Nesse sentido, para Nietzsche o homem só conseguirá superar sua simples condição animalesca, e se tornar verdadeiramente “humano”, quando for capaz de se libertar de todas as amarras morais e religiosas que obstruem o seu desenvolvimento intelectual.

“O homem se acha no meio de sua rota, entre animal e super-homem, e celebra seu caminho para a noite como a sua mais alta esperança; pois é o caminho para uma nova manhã./ Então aquele que declina abençoará a si mesmo por ser um que passa para lá; e o sol do seu conhecimento permanecerá no meio-dia/ ‘Mortos estão todos os deuses: agora queremos que viva o super-homem”, apontou Nietzsche, em seu essencial livro Assim Falou Zaratustra.

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Já os pensadores marxistas e anarquistas consideram que a capacidade de modificar a natureza, através do trabalho, é a atividade que nos torna essencialmente humanos.

Na sociedade capitalista, um determinado indivíduo, ao vender sua força de trabalho para o patrão e não se reconhecer no resultado de sua labuta, estaria, de fato, “vendendo” sua própria condição humana.

De acordo com o pensador libertário Mikhail Bakunin, o trabalho não se converte em trabalho propriamente humano a não ser quando começa a servir a satisfação não só das necessidades físicas, e fatalmente circunscritas à vida animal, como também do ser social, que tende a conquistar e realizar plenamente a sua liberdade.

Portanto, nossa condição humana requer o desenvolvimento satisfatório das potencialidades e capacidades tanto do indivíduo, em particular, quanto da sociedade, de maneira geral. Dito de outro modo, ensejar uma realidade que permita ao sujeito ser realmente “ele mesmo” e liberto do trabalho alienador.

Em suma, lembrando as oportunas palavras de Rousseau, nossa sociedade será legitimamente humana somente quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém seja tão pobre que tenha de se vender a alguém.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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