Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Estereótipos de gênero em questão

A noção de competição feminina inata é uma construção social que tem por objetivo separar as mulheres e impedir que elas se engajem para causas em comum, como, por exemplo, lutar contra o sexismo que impera em vários âmbitos de nossa sociedade.


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A ideia de que as mulheres seriam “naturalmente inimigas" tem sido amplamente disseminada tanto pelo senso comum quanto por setores da ciência. Não é raro, em nosso cotidiano, ouvirmos das próprias mulheres frases preconceituosas como “prefiro ter amizade masculina, é mais sincera”; “mulher não se veste para um homem, mas para competir com outra mulher” ou “mulher não tem amiga, tem rival”.

Segundo pesquisas relacionadas à Psicologia Evolutiva, existe uma raiz biológica nas manipulações lançadas pelas mulheres contra suas concorrentes. Para a pesquisadora britânica Paula Stockley, há cada vez mais evidência da importância evolucionária da competição feminina.

Entretanto, conforme apontam intelectuais que militam em movimentos feministas, as hipóteses que ligam competição entre mulheres a causas biológicas são absolutamente falaciosas e ideológicas. “Se o comportamento competitivo fosse completamente biológico, nós não teríamos amigas, não teríamos afinidade com nossas mães, irmãs, primas”, argumenta a antropóloga Michele Escoura.

Nesse sentido, a noção de competição feminina inata é uma construção social que tem por objetivo separar as mulheres e impedir que elas se engajem para causas em comum, como, por exemplo, lutar contra o sexismo que impera em vários âmbitos de nossa sociedade.

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De acordo com o psicanalista da Universidade Federal de Minas Gerais, Alberto Timo, “contribuir para que as mulheres se dividam, e não para que se unam, faz parte de jogos de poder em que os homens preferem as mulheres em campos de competição do que em campos de alinhamento”.

Trata-se assim da velha máxima “dividir, para dominar”. Uma clara tentativa de obstruir, através de uma determinada prática discursiva, o surgimento de uma “consciência de gênero”.

O fato é que os homens também competem desde as mais tenras idades, mas, devido ao discurso machista predominante, somente as mulheres são qualificadas como “falsas”. “Se você fala que um grupo historicamente oprimido nunca vai poder se unir, que sempre será um sexo ‘ruim’ e traiçoeiro, você contribui para que ele não se una mesmo”, concluiu Lola Aronovich, professora da Universidade Federal do Ceará.

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Evidentemente, competição (assim como colaboração) faz parte da humanidade desde tempos imemoriais. Em uma visão mais radical da questão, Thomas Hobbes afirmava que a guerra de todos contra todos na luta pela sobrevivência, durante nosso estágio pré-civilizacional, consistia na principal característica da humanidade.

Todavia, sem a cooperação entre os seres humanos dificilmente teríamos conseguido fomentar organizações sociais relativamente estáveis. Por outro lado, é preciso quebrar estereótipos de gênero que se perpetuam por gerações e, não obstante, trazem inúmeros efeitos negativos para a nossa sociedade.

Parafraseando a filósofa e ativista feminista Simone de Beauvoir, as mulheres não nascem amigas nem inimigas, tornam-se.

Referência:

SODRÉ,Raquel. Competição feminina é criação da sociedade.O Tempo. Tempo Livre, Belo Horizonte, p. 2,3. 13 mar. 2016.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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