Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Mídia e criminalização dos movimentos sociais

Desse modo vai se consolidando o novo período da história do Brasil: os três poderes (executivo, legislativo e judiciário) garantem que o governo seja exercido por um grupo exclusivamente a serviço das elites e do grande capital internacional (mesmo que para isso seja preciso passar pelos mínimos preceitos democráticos); os aparelhos repressivos, por sua vez, garantem pela força a manutenção do status quo, e a imprensa hegemônica, finalizando o processo, presta o devido apoio simbólico, manipulando a realidade na tentativa de neutralizar qualquer tipo de oposição à ordem vigente. Também foi assim em 1964.


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Após a concretização do processo de ruptura democrática no Brasil, com a deposição de Dilma Rousseff e a ascensão definitiva de Michel Temer ao poder, nosso país vem assumindo, paulatinamente, as características de um verdadeiro Estado de exceção.

Como em todo governo ilegítimo, temos presenciado nos últimos dias a emergência de políticas públicas que têm o intuito de retirar os mínimos direitos sociais e, não obstante, assistimos bestializados o surgimento de uma poderosa campanha de criminalização de movimentos sociais, a partir da atuação sistemática dos aparelhos repressivos do estado com o apoio simbólica da grande mídia.

Um exemplo emblemático dessa relação entre governo, polícia e mídia pôde ser constatado em uma reportagem do Fantástico de domingo (6/11) sobre uma quadrilha que supostamente atuaria por trás de um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no interior do Paraná.

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De acordo com o programa da Rede Globo, os líderes do acampamento, aproveitando de suas posições privilegiadas, criaram uma espécie de Estado paralelo, em que cobravam taxas por serviços básicos, como água e energia elétrica.

Caso alguém infringisse alguma “regra” seria severamente castigado, pagaria multa e, em casos mais radicais, havia a possibilidade de expulsão do acampamento.

Como não poderia faltar em uma matéria midiática que visa direcionar o público para um determinado viés ideológico, foram exibidas imagens impactantes, com homens derrubando árvores e provocando incêndios.

Já invasão da polícia militar paulista na escola Florestan Fernandes, centro de formação do MST, foi mencionada de maneira extremamente rápida, sem maiores detalhes e justificada como uma ação em busca de criminosos do acampamento paranaense.

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Por outro lado, os abusos de autoridade policial, com prisões arbitrárias e violência desmedida, ocorridos na escola do MST, fartamente registrados nas redes sociais, foram qualificados pela reportagem do Fantástico como “tumultos em que duas pessoas foram detidas”.

Definitivamente, o direcionamento jornalístico da emissora da família Marinho tem um lado: o dos grande latifundiários, setor mais conservador da anacrônica elite econômica brasileira.

Em aproximadamente seis minutos de reportagem, apenas vinte segundos foram dedicados à contra-argumentação por parte do MST, mesmo assim, por meio de frases soltas de uma nota. Nenhum líder do movimento foi ouvido.

Um telespectador desatento, comovido pelo teor parcial e tendencioso da reportagem, pode generalizar o caso paranaense para todo o Movimento Sem-Terra.

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Como já dizia o ativista negro Malcolm X, a imprensa é tão poderosa que, se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e amar as pessoas que estão fazendo a opressão.

E desse modo vai se consolidando o novo período da história do Brasil: os três poderes (executivo, legislativo e judiciário) garantem que o governo seja exercido por um grupo exclusivamente a serviço das elites e do grande capital internacional (mesmo que para isso seja preciso passar pelos mínimos preceitos democráticos); os aparelhos repressivos, por sua vez, garantem pela força a manutenção do status quo, e a imprensa hegemônica, finalizando o processo, presta o devido apoio simbólico, manipulando a realidade na tentativa de neutralizar qualquer tipo de oposição à ordem vigente. Também foi assim em 1964.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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