Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Movimentos golpistas e meios de comunicação de massa

Embora as movimentações golpistas de 1937,1964 e 2016 remetam a contextos históricos e modus operandi diferentes, elas têm pelo menos um ponto em comum: a decisiva participação dos meios de comunicação de massa.


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12 de Maio de 2016. Uma data que ficará marcada para todos nós, brasileiros. Pela terceira vez em sua história republicana, o Brasil assiste a concretização de um golpe de Estado.

Em 1937, Getúlio Vargas, em vez de convocar eleições para sua sucessão, forjou a existência de um suposto projeto de implantar o comunismo em nosso país, e, sob o pretexto de combater o "perigo vermelho", deu início a um governo ditatorial, denominado Estado Novo.

Em 1964, civis e militares, com o apoio logístico dos EUA, depuseram o então presidente João Goulart e criaram as condições necessárias para a consolidação do capitalismo dependente no Brasil, sob o respaldo de uma sanguinária ditadura que durou duas décadas.

Já em 2016, grupos políticos cansados de perder eleições (e incomodados com os tímidos avanços sociais registrados durante os governos petistas) articularam um golpe parlamentar para retirar a presidenta Dilma Rousseff.

Embora as três movimentações golpistas remetam a contextos históricos e modus operandi diferentes; 1937,1964 e 2016 têm pelo menos um ponto em comum: a decisiva participação dos meios de comunicação de massa.

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Durante o Estado Novo, Getúlio Vargas utilizou as ondas radiofônicas para dar um “ar ameno” à maneira autoritária com que conduziu seu mandato. Na época, a música popular, por meio do chamado “samba-exaltação”, foi de suma importância para o projeto ufanista de fomentar uma cultura nacional em detrimento das identidades regionalistas.

Já o golpe civil-militar de 1964 contou com o apoio de poderosos empresários da comunicação, como Roberto Marinho e Octávio Frias de Oliveira. Durante o período ditatorial, a grande mídia brasileira sempre esteve ao lado do poder. Antes da ruptura democrática, através de uma intensa campanha de difamação ao governo Jango, fator que atraiu o apoio da opinião pública para o movimento golpista.

Nos dias subsequentes ao golpe, jornais como O Globo e Tribuna da Imprensa publicaram eufóricos editoriais que exaltavam os “bravos militares” que “salvaram” o Brasil do “perigo comunista”. Concretizada a ditadura, os grandes veículos de comunicação não noticiavam as atrocidades cometidas pelos militares.

Nos últimos anos do regime, quando multidões foram às ruas para pedir a volta da democracia, a mídia hegemônica fez questão de ocultar as primeiras mobilizações que reivindicavam por eleições diretas para presidente.

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Por fim, o “golpe parlamentar” contra Dilma Rousseff contou com todo o aparato tecnológico disponível neste início de século. Desde 2002, com a chegada do Partido dos Trabalhadores à presidência da República, a direita brasileira têm decaído progressivamente nas eleições.

Sendo assim, as principais lideranças conservadoras de nosso país buscaram vias extraparlamentares, como a mídia e o Supremo Tribunal Federal, para voltar ao Poder máximo da nação.

A mídia hegemônica promoveu uma intensa campanha contra os governos petistas, e, por outro lado, obliterou casos de corrupção envolvendo políticos da oposição.

Pelas redes sociais, figuras anedóticas como Kim Kataguiri e Fernando Holiday convocaram setores alienados e histéricos das classes média e alta para engrossar as manifestações contra Dilma Rousseff.

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Lembrando Guy Debord, na sociedade do espetáculo, imagens são mais importantes do que ideias ou argumentos. Prevalece a forma em detrimento do conteúdo. No processo golpista, sessões dos poderes legislativo e judiciário se transformaram em grandes eventos midiáticos, estrategicamente arquitetados para o formato televisivo.

Confundindo o enquadramento e a seletividade dos noticiários políticos com a própria realidade, muitos brasileiros aderiram ao discurso univoco dos grandes veículos de comunicação e passaram a acreditar que todos os males do país realmente acabariam com a simples deposição da presidenta Dilma.

Em suma, a democracia brasileira só pode existir enquanto os resultados das urnas favorecerem totalmente as elites. Caso contrário, o governo que minimamente propuser alguma medida que beneficie os estratos mais pobres da população será deposto, através de meios violentos ou simbólicos, ou então, a partir da combinação de ambos.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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