Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

O golpe será televisionado

Denunciar o movimento golpista que está em marcha no Brasil não é relativizar casos de corrupção ou tampouco defender incondicionalmente o Partido dos Trabalhadores.Não concordar com um governo não é um motivo plausível para derrubá-lo. Infelizmente, muitas pessoas não aprenderam com o triste exemplo de 1964.


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Os acontecimentos políticos registrados nas últimas semanas desmascararam definitivamente a aliança formada entre a mídia hegemônica e setores do judiciário com a intenção de derrubar Dilma Rousseff e, não obstante, inviabilizar qualquer possibilidade de candidatura do ex-presidente Lula ao Palácio do Planalto em 2018 (o chamado “impeachment preventivo”).

Nesse sentido, uma série de eventos jurídico-midiático foi estrategicamente criada para desestabilizar ainda mais o governo federal e desgastar a imagem do ex-presidente petista junto à população.

Analisemos os fatos. O fracasso das manifestações pelo impeachment de Dilma, ocorridas em dezembro passado; a anulação, por parte do Supremo Tribunal Federal, do rito de impeachment proposto pela Câmara dos Deputados e o tradicional recesso parlamentar de final de ano diminuíram o ímpeto daqueles que desejam depor a presidenta a todo custo. Desse modo, para dar novo fôlego à empreitada golpista, seria essencial que os atos contra o governo, realizados no último dia 13 de março, tivessem enorme “adesão popular”.

Eis então que, ”coincidentemente”, na sexta-feira (4/3), portanto poucos dias antes das manifestações antigoverno, foi criado um espetáculo midiático (sob a direção do atual paladino da ética – o juiz Sérgio Moro) para a condução coercitiva de Lula para depoimento junto à Polícia Federal. Este fato, somado à intensa “convocação” dos meios de comunicação durante os dias posteriores, foi peremptório para o “êxito” do “coxinhato”.

Ainda no domingo das manifestações pelo impeachment, Sérgio Moro, em mais uma “coincidência”, declarou ser importante que as autoridades e os partidos ouçam a voz das ruas. Lembrando um antigo dito popular, “para quem sabe ler, um pingo é letra”. Não é difícil entender a qual “voz das ruas” o juiz paranaense se referiu.

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Por outro lado, o ato ilegal e arbitrário comandado por Moro, amplamente divulgado pela grande imprensa, ironicamente, também fortaleceu a imagem de Lula. “Se quiseram matar a jararaca, não acertaram na cabeça, acertaram no rabo porque a jararaca continua viva”, afirmou o ex-presidente no mesmo dia em que prestou depoimento à Polícia Federal.

Diante dessa intempérie, em mais uma oportunidade, a aliança mídia-judiciária precisaria agir rapidamente. Assim, na segunda-feira (14/3), a juíza Maria Priscilla Ernandes, da 4ª Vara Criminal de São Paulo, decidiu mandar denúncia e pedido de prisão de Lula para o juiz Sérgio Moro.

Não cabe a este artigo julgar se o ex-presidente Lula é inocente, mas é fato que, pela atuação seletiva do juiz Moro, independente do que se possa comprovar, Lula já é considerado culpado. Consequentemente, a única maneira de o ex-presidente não ser julgado em Curitiba é se tornar Ministro de Estado, adquirir o chamado foro privilegiado e seu caso ser julgado direto em última instância, no Supremo Tribunal Federal.

“Coincidentemente”, na véspera de Lula tomar posse como Ministro da Casa Civil, o juiz Sérgio Moro divulgou “grampos” de conversas entre Lula e Dilma. Como era de se esperar, a mídia hegemônica deu ampla cobertura e superdimensionou o fato.

Os objetivos de mais este evento político-midiático foram, além de evidentemente impedir a posse de Lula, causar um mal-estar entre o ex-presidente e os ministros do Supremo Tribunal Federal e possivelmente esvaziar as manifestações contra o golpe, marcadas para sexta-feira (18/3).

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Novamente, em parte, o tiro jurídico-midiático saiu pela culatra. Mesmo sem a “convocação” da imprensa hegemônica ou metrôs liberados, os atos pela democracia e contra o golpe (insistentemente chamado pela mídia de “manifestação a favor do governo”) mobilizaram milhares de pessoas em todo o país.

Porém, a reação golpista foi extremamente perspicaz. Concomitantemente às mobilizações pela democracia brasileira, o ministro Gilmar Mendes, famoso por seus discursos raivosos contra o Partido dos Trabalhadores e por suas “reuniões” com políticos tucanos, suspendeu a nomeação de Lula para a Casa Civil.

E ainda há quem, inocentemente, acredite na neutralidade dos veículos midiáticos e de alguns magistrados. Historicamente, não há nenhuma novidade neste modus operandi. Lembrando Gramsci, em épocas de crise das tradicionais organizações partidárias de direita, a grande imprensa assume o papel de principal partido político das forças conservadoras.

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Uma breve análise hermenêutica sobre duas manchetes do jornal O Globo ilustram bem o caráter tendencioso de nossa mídia. Sobre as manifestações pró-impeachment, o periódico da família marinho noticiou em sua capa: “Brasil vai às ruas contra Dilma e Lula e a favor de Moro”, podendo assim, capciosamente, levar o leitor à falsa conclusão de que toda a população brasileira compactua com a ideologia exaustivamente difundida pelos principais veículos de comunicação.

Em contrapartida, a manchete de O Globo no dia seguinte aos “atos pela democracia” apontava que “Aliados de Lula e Dilma fazem manifestação em todos os estados”, como se tais mobilizações populares representassem somente os ideais petistas e não os anseios de todos aqueles que lutam contra a execução de um novo Golpe de Estado no Brasil, independente de sigla partidária.

Em outros termos, de acordo com essa lógica de manipulação, manifestações pró-impeachment representariam o clamor coletivo, enquanto a defesa do mandato de Dilma seria uma demanda restrita a determinados segmentos de nossa sociedade.

Como bem enfatizou Marx, esta é a função da ideologia: fazer com que os pensamentos da classe dominantes sejam tacitamente compreendidos como se fossem as ideias de toda a sociedade.

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Por fim, é importante frisar que, ao contrário do que muitos apedeutas pensam (os famosos “comentaristas de internet”), denunciar o movimento golpista que está em marcha no Brasil não é relativizar casos de corrupção ou tampouco defender incondicionalmente o Partido dos Trabalhadores. A realidade vai muito além do maniqueísmo “petistas versus antipetistas”.

Também temos críticas às gestões de Dilma Rousseff e Luis Inácio Lula da Silva, não a partir de falsos moralismos e clichês midiáticos, mas, principalmente, pelas alianças espúrias e ideologicamente incoerentes feitas pelo PT ao longo de sua trajetória como governo.

Mas, obviamente, nada disso justifica um golpe contra uma mandatária democraticamente eleita. Não concordar com um governo não é um motivo plausível para derrubá-lo. Infelizmente, muitas pessoas não aprenderam com o triste exemplo de 1964.

Em suma, as elites econômicas definitivamente não aceitaram os tímidos avanços sociais ocorridos nos últimos anos. Realmente, para quem tem uma mente estamental e escravocrata não deve ser fácil digerir a presença de pobres em aeroportos, de negros em universidades públicas, os atendimentos de médicos cubanos ou a conquista de alguns direitos por parte dos empregados domésticos.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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