Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

O “moralista virtual”

O “moralista virtual”, em seu cotidiano, pratica “pequenas corrupções” – “fura” a fila do banco, estaciona seu carro em local destinado a deficientes físicos, sonega impostos - e, não raro, obtém favores ilegais de autoridades públicas. “Faça o que eu digo e não o que eu faço”. Mais do que um analfabeto político ou “midiota”, o “moralista virtual” é, sobretudo, um caso psiquiátrico.


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Antes do advento das redes sociais, se quiséssemos conhecer alguns dos aspectos mais obscuros da personalidade, ou entender até que ponto pode chegar a incoerência humana, devíamos fazer extensas pesquisas sobre diagnósticos relatados em obras acadêmicas de cunho psicanalítico. Já nos dias de hoje, para a mesma tarefa, basta acessarmos o feed de notícias do Facebook.

Numa época de crise política, e consequente radicalização ideológica, um peculiar tipo de internauta tem chamado bastante a atenção: trata-se do “moralista virtual”. Conforme o epíteto sugere, o “moralista virtual” se considera o guardião da ética e de tudo o quê se possa esperar de um “cidadão de bem”. Seu principal mantra é verbalizar contra a corrupção.

Entretanto, embora aparentemente bem intencionado, este discurso é extremamente seletivo: localiza práticas consideradas ilícitas somente na esfera estatal e, sobretudo, em um partido político específico. Como diz um conhecido ditado popular: de boas intenções há um lugar metafísico que está cheio.

O “moralista virtual” adora compartilhar frases de efeito tipo “sou contra a corrupção, todos os políticos devem ser presos, doa a quem doer, independente do partido”, mas, curiosamente, suas críticas só são destinadas a políticos petistas.

O “moralista virtual” vestiu a camisa da seleção brasileira e foi protestar contra o governo na Paulista, bateu panela durante os discursos da presidenta Dilma Rousseff em cadeia nacional e soltou foguetes quando Lula foi coercitivamente conduzido para depor na Polícia Federal.

Em contrapartida, as citações de políticos da oposição ao Governo Federal em delações premiadas, o “trensalão tucano”, os desvios de merenda escolar em São Paulo ou a violência policial contra os professores paranaenses são questões tabus. Consistem em intrigas de “petralhas” que querem tumultuar o país. Aí está outra característica do “moralista virtual”: projetar suas incongruências em todos aqueles que pensam diferente. Jung explicaria isso.

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Alias, por cegueira ideológica ou mesmo incapacidade cognitiva, para o “moralista virtual”, em sua análise maniqueísta da realidade, denunciar a intensa empreitada contra o governo federal, levada a cabo pela mídia e por setores do judiciário, seria defender incondicionalmente o PT. Nada mais falacioso e delirante.

Quando quer se mostrar “humanista”, o “moralista virtual” posta frases de Nelson Mandela, mas, no convívio social, prefere o “apartheid”. Ele também se orgulha de atrelar sua conduta exemplar a forte religiosidade. Segue piamente o mandamento que diz para se amar ao próximo como a si mesmo, desde que o “próximo” não seja negro, pobre, comunista ou LGBT.

Para o “moralista virtual”, “bandido bom é bandido morto” (de preferência morador de comunidade carente), feminismo é coisa de “mulher mal comida”, reforma agrária representa “dar terra para os vagabundos do MST”, Jean Wyllys quer implantar uma “ditadura gayzista” no Brasil, cotas raciais é preconceito às avessas e o mundo hoje, “politicamente correto”, é um tédio. “Não posso nem mais expressar meus preconceitos em paz”, deve pensar sistematicamente o “moralista virtual”.

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O “moralista virtual” demoniza o Estado e idolatra o mercado. O discurso da “meritocracia” é um dos seus preferidos: “as oportunidades são iguais para todos, só não se dá bem na vida quem não quer ou não tem capacidade”. Contudo, as ideias liberais só valem para o âmbito econômico.

Liberdades políticas como legalização das drogas, permissão do aborto, união homoafetiva ou regulação da prostituição estão fora de cogitação, pois coloca em risco a tradicional família brasileira.

O “moralista virtual” não vive apenas de críticas negativas. Ele tem seus ídolos, aos quais não se cansa de elogiar em suas postagens. Bolsonaro (ou “Bolsomito” para os íntimos ideológicos) deve ser presidente do Brasil para limpar o país da bandidagem. Articulistas da grande mídia que apresentam discursos inflamados - como Arnaldo Jabor, Boris Casoy ou Rachel Sheherazade - representam a “indignação” da “opinião pública”.

Já o ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, e o juiz Sérgio Moro são os paladinos da justiça, responsáveis por colocar os “corruptos” na cadeia.

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Nessa lógica, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, apesar das inúmeras denúncias de condutas ilícitas devidamente comprovadas, deve ser preservado de qualquer tipo de explanação contrária, pois foi ele quem deu aval ao processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Nem Maquiavel, com todo o seu pragmatismo político, teria pensado em algo tão sagaz.

Em tempo, já se antecipando às prováveis reações negativas, é importante frisar que este artigo não é uma apologia petista. Longe disso. Também temos críticas ao PT, não como “moralista virtual”, mas pelo fato de o partido ter aderido ao fisiologismo, por se curvar ao grande capital e se aliar ao que há de mais retrógrado e conservador no espectro político brasileiro. Ou seja, como bem frisou Frei Betto, trocou um projeto de país por um projeto de poder.

Por outro lado, o moralismo aqui citado só se aplica ao Facebook. A realidade é bem diferente. O “moralista virtual”, em seu cotidiano, pratica “pequenas corrupções” – “fura” a fila do banco, estaciona seu carro em local destinado a deficientes físicos, sonega impostos - e, não raro, obtém favores ilegais de autoridades públicas. “Faça o que eu digo e não o que eu faço”.

Este é o típico “moralista virtual”, indivíduo que faz da contradição um estilo de vida. Mais do que um analfabeto político ou “midiota”, o “moralista virtual” é, sobretudo, um caso psiquiátrico.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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