Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Paranoia anticomunista e autoritarismo

Conforme experiências passadas mostraram, quando discursos pseudomoralistas foram acatados pela sociedade civil, nosso país atravessou sombrios períodos ditatoriais.


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Na clássica obra O mal-estar na civilização, Freud afirmava que a fomentação de um inimigo externo, ao qual todos os indivíduos de uma determinada sociedade devem direcionar seus instintos mais negativos, é um poderoso mecanismo de coesão social.

Nesse sentido, durante o século passado, a civilização ocidental, caracterizada pelo modo capitalista de produção, teve seu principal inimigo externo projetado na “ameaça comunista”.

Não obstante, o discurso anticomunista gerou grande repercussão no Brasil, país da periferia do capitalismo, subordinado aos interesses das grandes potências imperialistas.

Em períodos pontuais de nossa história republicana, a “ameaça comunista” foi utilizada como pretexto para rupturas antidemocráticas e a instalação de regimes de cunho autoritário.

No ano de 1937, o então presidente Getúlio Vargas, em vez de convocar eleições para a sua sucessão, forjou a existência de um plano comunista com o objetivo de implantar um regime de viés esquerdista no Brasil, para, sob o pretexto de livrar o país do “perigo vermelho”, instituir a ditadura conhecida como “Estado Novo”.

Quase três décadas depois, o herdeiro político de Vargas, João Goulart, sofreu um golpe articulado por civis e militares, que novamente recorreram à retórica de defender o Brasil dos comunistas.

Os resultados dessas experiências autoritárias foram cerceamento das liberdades individuais e políticas, censura à atividade artística, perseguições, torturas e prisões arbitrárias.

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Por outro lado, acontecimentos como a redemocratização do Brasil, a queda do Muro de Berlim e o consequente colapso do socialismo na URSS e no leste europeu, fizeram com que muitos analistas acreditassem que o paranoico discurso anticomunista havia sido definitivamente extirpado.

Ledo engano. Eis que, em pleno século 21, a retórica contra a “ameaça vermelha” ressurge das cinzas e ganha consistência entre aqueles que alegam estar nosso país atravessando uma “ditadura comunista” comandada pelo PT.

Para estes indivíduos, somente a destituição da presidenta Dilma Rousseff a todo custo e uma nova intervenção militar podem tirar o Brasil das crises econômica e política.

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Diante dessa realidade, é preciso ficar em alerta para que os preceitos democráticos básicos não voltem a ser ameaçados.

Conforme experiências passadas mostraram, quando discursos pseudomoralistas foram acatados pela sociedade civil, nosso país atravessou sombrios períodos ditatoriais.

Além do mais, qualquer cidadão lúcido sabe que jamais houve uma possibilidade minimamente concreta de uma revolução socialista no Brasil. Movimentos como a Intentona Comunista e a Guerrilha do Araguaia pouco ameaçaram o status quo político.

Já quem considera que as Reformas de Base propostas por Jango ou as políticas sociais dos governos petistas são práticas comunistas deve procurar um psiquiatra o mais rápido possível.

Parafraseando a apresentadora Bela Gil, as pessoas poderiam substituir o discurso anticomunista e os pedidos de intervenção militar por uma aula de História do Brasil, por exemplo.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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