Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Reflexões sobre a olimpíada

Evidentemente, não há como afirmar se a primeira olimpíada realizada na América do Sul deixará mais heranças positivas ou negativas para o nosso país. Alguns analistas dizem que o evento foi benéfico para a autoestima do brasileiro e muitos jovens se sentirão mais motivados a praticar algum esporte. Por outro lado, o jornalista e escritor estadunidense Dave Zirin considera que os Jogos Olímpicos se tornarão menos populares a partir do momento em que a população começar a se dar conta do dinheiro gasto em sua organização.


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No domingo, 21 de agosto, tivemos o encerramento da 28ª Olimpíada da Era Moderna, realizada no Rio de Janeiro. Em ciências sociais a expressão “Estado Agonal” é utilizada para designar as modalidades esportivas, que consistem em simulações dos conflitos e antagonismos entre os povos. Com certeza é bem melhor atletas disputando medalhas a soldados pegando em armas.

Cercados de expectativa (devido ao momento politicamente conturbado pelo qual estamos passando) os Jogos Olímpicos da capital fluminense trouxeram importantes reflexões.

Logo na abertura do evento, práticas de manipulação midiática já se fizeram presentes.

Durante o brevíssimo discurso de Michel Temer, a Rede Globo capciosamente aumentou o áudio do presidente interino e diminui o do público para que os telespectadores não tivessem a real dimensão da grande vaia que ocorria no estádio do Maracanã. “O presidente interino da República, Michel Temer, declara aberto os Jogos, sob vaias e também alguns aplausos”, afirmou um constrangido Galvão Bueno.

Já a transexual Lea T., apesar de ter desfilado à frente da delegação brasileira, praticamente não apareceu na transmissão global. Conceder visibilidade às minorias definitivamente não é o forte da emissora da família Marinho.

Diversos segmentos da sociedade relacionaram suas causas e valores aos acontecimentos esportivos. Militares exaltaram a medalha de prata conquistada pelo sargento Felipe Wu no Tiro Esportivo.

Feministas destacaram o relativo êxito das mulheres em contraste com os vexames iniciais dos homens no futebol. “Marta é melhor que Neymar”, foi uma das frases mais replicadas na primeira semana olímpica.

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Já a inédita medalha de ouro no judô, conquistada por Rafaela Silva – negra e ex-moradora de uma comunidade carente do Rio de Janeiro – foi utilizada pela grande mídia para propagar o discurso meritocrático: “o ouro de Rafaela Silva no judô, é claro, uma maravilhosa história de sacrifício e de superação individual de quem lutou de verdade para escapar da miséria. Nem em filme se tem um final tão perfeito e verdadeiro. Rafaela é o triunfo da vontade de vencer as circunstâncias que o poder público não foi capaz sequer de remediar”, argumentou Willian Waak no Jornal da Globo.

Um meme conservador viralizou nas redes sociais ao apontar que a judoca carioca “nunca precisou do feminismo ou de cotas, conquistou tudo por mérito próprio”.

De acordo com uma matéria divulgada pelo site BBC Brasil, as diferentes interpretações sobre a vitória de Rafaela remetem a uma prática conhecida da psicologia humana: o viés de confirmação.

Grosso modo, trata-se da tendência que temos de, uma vez adotada uma convicção ou crença, buscar apenas exemplos que a confirmem. “O bom de a Rafaela Silva ter origem pobre, ser negra e militar é que dá para ela agradar esquerda e direita”, sintetizou um internauta.

Além de Rafaela, as medalhas conquistadas por outros atletas de origem econômica desfavorecida em esportes que exigem grande habilidade física (como boxe, canoagem e taekwondo) corroboram a tese do historiador Sérgio Buarque de Holanda de que, no Brasil, o povo é mais forte do que a elite.

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Conforme bem colocou o site da revista Superinteressante, os jogos olímpicos de 2016 nos deram vários exemplos de aceitação. Depois de uma abertura cheia de diversidade, com mulheres negras na liderança e LGBTs em destaque, atletas e organizadores também protagonizam cenas de tolerância e respeito às diferenças.

Todavia, os Jogos Olímpicos não foram marcados somente por aspectos positivos. A proibição de manifestações políticas nos locais de competição lembrou os períodos ditatoriais. Atletas da Austrália, Estados Unidos e França se envolveram em imbróglios dentro e fora das disputas esportivas.

Um treinador do atletismo francês protagonizou um caso de intolerância religiosa ao sugerir que um saltador brasileiro recorreu “a forças místicas, talvez do candomblé”, para conquistar a medalha de ouro.

Se retoricamente a olimpíada do Rio de Janeiro foi apresentada ao mundo como um evento esportivo comprometido com o meio ambiente, na prática foi bem diferente.

Apesar da abertura olímpica ecologicamente sustentável, antes mesmo do início dos jogos a onça Juma foi abatida por soldados do exército brasileiro durante a passagem da tocha por Manaus.

Não obstante, as partidas de Golfe foram realizadas em uma área considerada de preservação ambiental.

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Olimpíadas são excelentes oportunidades para estudar Geografia. Com os jogos muitas pessoas puderam constatar a existência de mais de duzentos Estados-Nacionais (e não apenas algumas dezenas que aparecem nos noticiários internacionais), que “África” é um “continente” e não um “país”, fazer a distinção entre turcos e libaneses e entender como os antagonismos geopolíticos também estão presentes nos esportes (a recusa de um judoca egípcio em apertar a mão de um colega israelense foi uma resposta simbólica às inúmeras humilhações impostas pelo Estado Sionista aos povos árabes e muçulmanos).

A propósito, ao longo de sua centenária história, os jogos olímpicos sempre estiveram relacionados ao contexto geopolítico no qual foram realizados.

Na primeira olimpíada após a Primeira Guerra Mundial, em Antuérpia, os perdedores do conflito que devastou a Europa – alemães, turcos, húngaros e austríacos – não foram “convidados”. Em 1936, Hitler utilizou os jogos de Berlim para tentar corroborar sua teoria de uma suposta superioridade ariana frente aos outros povos.

O México queria mostrar ao mundo que realmente era uma nação emergente ao organizar a olimpíada de 1968. Os Jogos de Munique, em 1972, ficaram marcados pelo atentado do grupo palestino Setembro Negro contra a delegação de Israel.

Como protesto à invasão soviética ao Afeganistão, os Estados Unidos e dezenas de aliados boicotaram os jogos de Moscou em 1980. Quatro anos depois foi a vez dos países socialistas darem o troco e não comparecerem em Los Angeles.

Por fim, a escolha do Rio de Janeiro como sede olímpica, durante o mandado do ex-presidente Lula, simbolizava a ascensão do Brasil no cenário internacional. Ainda em relação aos jogos da capital fluminense, a severa punição imposta pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) ao atletismo russo demonstra que os fantasmas da Guerra Fria ainda assolam as relações internacionais.

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Na sociedade do espetáculo, a olimpíada não se restringe à esfera esportiva, também é um grande evento midiático apresentado para uma plateia global.

Ter uma marca atrelada aos jogos é sinal de vendas garantidas. Aliás, muitos esportistas competem por suas nações ou pelos seus patrocinadores?

Nomes como Micheal Phelps, Usain Bolt ou Rafael Nadal, mais do que atletas de alto rendimento, são celebridades mundiais que têm todas as suas ações estrategicamente pensadas por seus respectivos empresários.

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Evidentemente, não há como afirmar se a primeira olimpíada realizada na América do Sul deixará mais heranças positivas ou negativas para o nosso país.

Alguns analistas dizem que o evento foi benéfico para a autoestima do brasileiro e muitos jovens se sentirão mais motivados a praticar algum esporte.

Por outro lado, o jornalista e escritor estadunidense Dave Zirin considera que os Jogos Olímpicos se tornarão menos populares a partir do momento em que a população começar a se dar conta do dinheiro gasto em sua organização.

Fato é que, findada a olimpíada, nos voltamos para uma questão muito mais importante: às vésperas do julgamento de Dilma Rousseff devemos nos mobilizar para não perdermos os mínimos preceitos democráticos que foram duramente conquistados em nosso país. É imprescindível que o Brasil não seja novamente medalha de ouro em Golpe de Estado.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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