Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Trump, mídia e personalismos

Com o objeto de tornar inteligível para o grande público as complexas questões que envolvem aspectos administrativos de outras nações, a mídia fornece determinados “atalhos cognitivos” (personificações, estereótipos, maniqueísmos, etc.) que auxiliam o entendimento de telespectadores, leitores e ouvintes, gerando assim a (errônea) sensação de realmente conhecer com pertinência um determinado acontecimento.


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Nos últimos dias, a eleição do republicano Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos da América foi o assunto mais comentado no Brasil (pelo menos nas redes sociais e na grande mídia).

Milhões de brasileiros, em sua maioria normalmente alheia à política, fizeram questão de expressar suas opiniões sobre a sucessão estadunidense.

Diferentemente de outras temáticas, os posicionamentos geopolíticos do cidadão comum, devido à ausência de experiências diretas com os acontecimentos, são construídos tendo exclusivamente como base a grande mídia.

Nesse sentido, é imprescindível analisarmos como a política internacional é abordada pelos meios de comunicação de massa.

Com o objeto de tornar inteligível para o grande público as complexas questões que envolvem aspectos administrativos de outras nações, a mídia fornece determinados “atalhos cognitivos” (personificações, estereótipos, maniqueísmos, etc.) que auxiliam o entendimento de telespectadores, leitores e ouvintes, gerando assim a (errônea) sensação de realmente conhecer com pertinência um determinado acontecimento.

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No caso das eleições estadunidenses, devido ao personalismo com que a mídia retrata questões políticas, o receptor mediano, desprovido de um senso crítico apurado, tende a confundir a própria personalidade de Trump com os rumos que serão tomados pela política estadunidense pelos próximos quatro anos.

Ora, por mais influência que um político possa ser, um mandato presidencial é algo demasiadamente complexo, que está muito além de personalidades individuais.

Ainda mais em um país como os Estados Unidos, onde o capital especulativo, interesses corporativos e lobbies, entre outros poderosos condicionantes, norteiam o andamento estatal.

Não obstante, a principal potência imperialista do planeta não precisa de um Donald Trump para tomar medidas consideradas como islamofóbicas, racistas e que desrespeitem as minorias.

A administração estadunidense e as relações sociais no país são inerentemente preconceituosas, independente do excêntrico milionário.

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Situação contrária ocorreu há oito anos, quando muitos acreditavam que a eleição do carismático Barack Obama, primeiro negro a chegar à Casa Branca, traria uma política externa estadunidense mais tolerante com outros povos. Lego engano.

Em mais uma oportunidade o personalismo dos noticiários demonstrou não ter respaldo na realidade empírica. O governo Obama foi tão arbitrário com povos alhures como o seu antecessor, o arrogante George W. Bush. Sírios e líbios que o digam.

Mesmo medidas consideradas como “progressistas”, como a aproximação diplomática à Cuba, foram tomadas a partir de fortes interesses econômicos.

Da mesma maneira, a eleição de Nelson Mandela para presidência da África do Sul não quis dizer a chegada dos negros ao poder no país do Apartheid, ou a vitória do ex-operário Lula tenha representada a Revolução Proletária no Brasil.

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Pois bem, segundo os “atalhos cognitivos” da mídia, se Trump representa o “mal”, Hillary Clinton, logicamente, representa o “bem”. Grande equívoco de interpretações maniqueístas.

A esposa do ex-presidente Bill Clinton é notoriamente conhecida como uma das figuras que pertencem à ala mais retrógrada do Partido Democrata.

Como secretária de Estado do governo Obama, Hillary foi uma das mais fortes defensoras das intervenções estadunidenses em outras nações. Mais imperialista impossível.

A diferença entre Trump e Hillary é que ele expõe abertamente seus preconceitos, ela esconde.

Ou, conforme já afirmara um analista político, enquanto os republicanos defendem que os Estados Unidos entrem em várias guerras simultaneamente, os democratas preferem se concentrar em um conflito de cada vez.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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