Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Algumas considerações sobre o conhecimento científico

Embora os feitos científicos sejam extremamente notáveis, o maior mito moderno é a crença positivista na ciência como solução para todos os problemas que assolam a humanidade


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Desde o seu surgimento enquanto espécie racional, o ser humano tem elaborado inúmeras formas de interpretar a realidade à sua volta.

A primeira representação humana sobre o mundo foi por meio de mitos, isto é, narrativas orais que procuravam explicar a origem das coisas.

Muitas sociedades tribais acreditavam que seus membros descendiam de um animal, um vegetal ou algum tipo de objeto (prática definida por antropólogos como totemismo).

Já o pensamento religioso (pelo menos o predominante no Ocidente) concebe o mundo como criação divina. Nesse sentido, Deus estaria por trás de todos os fenômenos naturais.

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Diferentemente do mito e da religião, os conhecimentos filosóficos e científicos buscam explicar a realidade através da razão.

A filosofia está baseada na constante indagação sobre as mais variadas temáticas, sendo as perguntas mais importantes do que propriamente as respostas.

No mundo contemporâneo, a ciência desponta como a forma privilegiada do saber.

Através de uma rigorosa metodologia de estudos e pesquisa, o ser humano pôde conhecer, com relativa pertinência, as leis físicas e químicas que regem o universo, transformar de forma decisiva seu meio ambiente natural, clonar outros seres vivos, desvendar seu código genético e lançar-se à observação detalhada de outros corpos celestes, entre outras façanhas.

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Entretanto, todos estes feitos não fazem com que a ciência seja neutra, infalível ou tampouco responsável por produzir “verdades inquestionáveis”.

Aliás, o maior mito moderno é a crença positivista na ciência como solução para todos os problemas que assolam a humanidade.

Assim, o cidadão comum tende a considerar que o aval científico traz a resposta definitiva para qualquer tipo de assunto: se está comprovado cientificamente, não há o que questionar. Esta premissa está longe de ser corroborada pela prática.

O próprio sistema escolar privilegia a ciência como único tipo de conhecimento válido em detrimento de outras maneiras de representar a realidade como a arte, a literatura e a filosofia.

Desse modo, o aluno sem maiores aptidões para questões científicas (mas que pode possuir outras habilidades) passa a se sentir frustrado por não ser “tão inteligente” conforme o esperado por seus professores.

Não por acaso, o atual ensino médio outrora era conhecido como “científico”.

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No clássico A Estrutura das Revoluções Científicas, Thomas Kuhn aponta que as “verdades científicas” (designadas por ele como “paradigmas”) não decorrem simplesmente de despretensiosas buscas pelo conhecimento, mas são influenciadas por fatores econômicos, políticos e culturais.

Seguindo essa linha de raciocínio, no provocador livro Jamais fomos modernos, Bruno Latour afirma que não há pureza no mundo científico: os objetos e resultados produzidos neste meio são, concomitantemente, “científicos” e “políticos”.

Embora os feitos científicos sejam extremamente notáveis, em muitas oportunidades (sobretudo em temas relacionados a passados longínquos que extrapolam a temporalidade humana) a ciência consegue formular apenas hipóteses. Pertinentes, diga-se de passagem, mas nada além de especulações.

Evidentemente, este artigo não tem a pretensão de subestimar a importância da ciência para a nossa civilização.

Uma grande vantagem da ciência em relação à religião, por exemplo, é que enquanto a primeira admite rever seus conceitos, a segunda está calcada em dogmas que são, inerentemente, inquestionáveis.

O que se pretende aqui é somente chamar atenção para o fato de que o cientista, como qualquer outro ser humano, é vulnerável a todo tipo de paixões, subjetividades, juízos de valores e equívocos.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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