Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Comentarista coxinha

Como outrora afirmou o saudoso escritor e filólogo italiano Umberto Eco, as redes sociais concederam o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”


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A combinação entre a possibilidade de livre expressão via internet e a radicalização ideológica que tem crescido no Brasil fez com que surgisse um novo tipo social. Trata-se do “comentarista coxinha”.

Isoladamente, seja por receio de repúdio de outras pessoas ou autocensura, um sujeito não expõe certas ideias preconceituosas, guardando-as para si mesmo.

Já a partir do momento em que acessa a internet e entra em contato com outros indivíduos que assumem posições tão equivocadas quanto as suas, ele se fortalece e passa a não mais temer a possibilidade de revelar os aspectos mais obscuros de sua personalidade.

O “comentarista coxinha” acha que deve opinar sobre tudo e se considera especialista em vários assuntos. Basta a postagem do link de um texto qualquer nas redes sociais para ele entrar em ação.

Geralmente, o “comentarista coxinha” é bastante prático. Somente o título já é o suficiente para formar um posicionamento.

Todo “comentarista coxinha” que se preze deve utilizar um repertório linguístico composto por palavras, expressões e chavões como “mi-mi-mi”, “feminazi”, “ditadura gayzista”, “isso é vitimismo”, “bandido bom é bandido morto” e “não tenho bandido de estimação”.

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Os “comentaristas coxinhas” também têm os seus “formadores de opinião”, a quem recorrem fielmente. Qualquer político, humorista, filósofo midiático ou apresentadora de telejornal que tenha algum discurso que ataque uma minoria é idolatrado. Não raro, chamado de “mito”.

Já as páginas virtuais seguidas por este novo tipo social demonstram o seu pseudo-moralismo (sobretudo o seletivo posicionamento contra a corrupção) e também reforçam sua condição de “maioria” (bandeiras como “orgulho de ser hétero”, “orgulho de ser homem” ou “orgulho de ser branco”, por exemplo, combatem o que ele chama de “preconceito às avessas”).

Para o “comentarista coxinha”, o mundo atual é muito chato, pois não se pode mais ser classicista, homofóbico, racista ou machista como se era em outras épocas. Bom mesmo é ser politicamente incorreto.

Ele sente saudade da mulher refinada ao âmbito doméstico, do bullying nas escolas, do negro fora da universidade, do gay restrito a guetos e de quando o pobre não frequentava lugares destinados às classes médias e altas.

“Esta é a geração mais fresca que existe”, esbraveja o “comentarista coxinha” quando percebe que algum pobre, negro, homossexual ou mulher se manifesta contra o preconceito e exige os seus direitos.

Como outrora afirmou o saudoso escritor e filólogo italiano Umberto Eco, as redes sociais concederam o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.

Normalmente, os imbecis eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. Desse modo, o grande drama da internet é que ela promoveu o “idiota da aldeia” a portador da verdade. Infelizmente, a livre circulação de ideias também traz seus efeitos colaterais.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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