Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Consequências do golpe

O golpe abriu a Caixa de Pandora do obscurantismo. A partir de então, os diferentes setores da direita – fascistas, fanáticos religiosos, “liberais”, homofóbicos, escravocratas, entre outros – estão se aproveitando do processo de ruptura democrática em curso e da relativa fragilidade das forças progressistas para tentar impor os seus ideais retrógrados a toda sociedade brasileira


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O golpe de Estado realizado ano passado no Brasil não trouxe apenas consequências políticas – com a substituição de Dilma Rousseff por Michel Temer – e econômicas – com o retorno da agenda neoliberal, repudiada em quatro processos eleitorais consecutivos.

O golpe abriu a Caixa de Pandora do obscurantismo. A partir de então, os diferentes setores da direita – fascistas, fanáticos religiosos, “liberais”, homofóbicos, escravocratas, entre outros – estão se aproveitando do processo de ruptura democrática em curso e da relativa fragilidade das forças progressistas para tentar impor os seus ideais retrógrados a toda sociedade brasileira.

Conforme a história nos tem exaustivamente mostrado, o “projeto de escola” vigente em um determinado contexto histórico está intrinsecamente ligado ao “projeto de poder” existente. Governos ilegítimos, como os que se instalam após golpes de Estado, geralmente promovem grandes modificações nos currículos escolares.

Não por acaso, a “contrarreforma” educacional conhecida como “Novo Ensino Médio”, ao retirar da matriz curricular obrigatória dos anos finais da educação básica disciplinas como Geografia e História, privilegia uma formação “tecnicista” em detrimento de uma formação “reflexiva”.

Não obstante, outras propostas de mudanças educacionais, como o projeto intitulado “Escola sem Partido”, ao eliminar as discussões políticas em sala de aula (sob o pretexto de uma suposta neutralidade ideológica), tendem a comprometer a formação de cidadãos críticos.

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Como na educação golpista nada é tão ruim que não possa piorar, no final do mês de setembro o Supremo Tribunal Federal autorizou o ensino religioso de natureza confessional nas escolas públicas brasileiras, fator que, na prática, significa promover a doutrina católica nas salas de aulas Brasil afora. Mais catecismos e menos ciência. Em outros termos, uma espécie de volta à Idade Média.

Aliás, a promoção de valores retrógrados é uma das tônicas do Brasil pós-golpe. Com a direita de volta ao poder máximo da nação, questões absolutamente anacrônicas como a “cura gay”, intervenção militar e censura a obras de arte e peças de teatro voltaram à tona. Só falta ressuscitarem o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da época da Ditadura Vargas.

Como dizem os seguidores de um certo “mito”, é melhor “jair” se acostumando com essa nova realidade mórbida. Os fascistas nunca se sentiram tão à vontade no Brasil.

Já as redes sociais são um dos espaços onde os coxinhas mais despejam os seus delírios ideológicos. Não é difícil encontrar no Facebook textos argumentando que o nazismo é de esquerda, que Fidel Castro possuía uma fortuna maior do que a da rainha da Inglaterra ou que a Ditadura Militar que vigorou no Brasil possuía um viés marxista, entre outras falácias.

Conforme sabiamente apontou Umberto Eco, as redes sociais deram voz a imbecis que antes restringiam seus discursos incoerentes à comunidade onde vivem. Trata-se dos efeitos colaterais das modernas tecnologias da informação.

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Para o trabalhador brasileiro, o atual golpe de Estado, em apenas um ano, trouxe consequências mais devastadoras do que as duas décadas de regime militar. Para o deleite dos saudosistas do período escravocrata, isto é, boa parte da elite econômica tupiniquim, o presidente Temer tem promovido o fim da CLT e o sucateamento da previdência social. Nem os militares chegaram tão longe. Só falta revogar a Lei Aurea.

No Brasil atual, Paulo Freire foi substituído por Alexandre Frota, movimentos estudantis foram substituídos por Kim Kataguiri, grandes historiadores foram substituídos por Zezé de Camargo, Zumbi dos Palmares foi substituído por Fernando Holiday e nomes controversos como Luiz Felipe Pondé, Lobão e Olavo de Carvalho foram alçados ao status de “grandes pensadores contemporâneos”.

Seria cômico se não fosse trágico. E segue o golpe...


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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