Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Cracolância, gentrificação e grande mídia

As ações arbitrárias na chamada Cracolância continuam corroborando a tese de que, no Brasil, pobreza ainda continua sendo caso de polícia e não de política


Texto escrito em parceria com Uriana Ribeiro (especialista em “Fundamentos sociais e políticos da educação” pela UESB)

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Em meio ao turbilhão de notícias que agitam os bastidores da política nacional, uma questão municipal tem ganhado bastante destaque na grande imprensa brasileira.

Trata-se das ações da prefeitura de São Paulo sobre a região pejorativamente conhecida como Cracolândia, em alusão à histórica concentração de traficantes e usuários de crack, entorpecente que, segundo especialistas, é altamente viciante.

Para compreendermos os reais motivos para essa empreitada da prefeitura paulistana, é fundamental recorremos ao conceito de “gentrificação”, isto é, o “fenômeno que afeta uma região ou bairro pela alteração das dinâmicas da composição do local, tal como novos pontos comerciais ou construção de novos edifícios, valorizando a região e afetando a população de baixa renda local”.

Segundo a urbanista Ermínia Maricato, professora aposentada da USP, “os centros das cidades estão sob disputas há décadas”.

Portanto, as remoções de dependentes químicos, alcoólatras e “doentes mentais” da região central de São Paulo não têm sido realizadas por razões humanitárias, é apenas um álibi para expandir o setor imobiliário e gerar lucros, pois, no sistema econômico vigente, não existem mudanças no espaço urbano sem a influência do capital.

A lógica da busca desenfreada por lucros reflete no uso do espaço geográfico, direcionando a estruturação das cidades como se fosse uma empresa.

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Por outro lado, enquanto este processo está em curso, a mídia cuida para que as ações do poder público em prol do capital sejam apresentadas como benéficas para toda a população citadina.

Como dizem “os homens de bem”: “estamos limpando a cidade”, ou seja, enobrecendo os espaços, construindo a cidade do espetáculo.

Percebe-se assim como a mídia tenta impor uma ideologia.

Conforme aponta vasta bibliografia disponível na área de ciências sociais, uma das principais funções da ideologia é justamente apresentar os interesses da classe dominante como se fosse os mesmos interesses de todo o conjunto social.

Nesse sentido, a ação da poderosa máquina de publicidade midiática se torna uma arma indispensável.

Não por acaso, inúmeras reportagens nas principais emissoras brasileiras são produzidas para demonstrar como a sociedade paulistana tem ganhado com o suposto fim da Cracolândia, como se questões extremamente complexas como tráfico de drogas, uso de drogas e marginalização social fossem solucionadas de uma hora para outra.

Já a imprensa escrita tem divulgado pesquisas que apontariam que a opinião pública seria favorável as ações da prefeitura na Cracolância e à internação forçada de usuários.

Outra característica marcante da ideologia é não se apresentar enquanto tal.

É fato que João Dória, longe de ter uma postura “apolítica”, é um prefeito a serviço do grande capital.

Entretanto, como teoricamente o chefe do Executivo Municipal representaria os interesses de toda a sociedade, suas ações em favor dos grandes empresários do ramo imobiliário são representadas midiaticamente através de eufemismos como “modernização”, “higienização”, “inovação” e “Cidade Linda”.

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É doloroso perceber ações tão repressivas para se tratar de um problema tão complexo.

Não é com soluções simplistas que a questão do uso de drogas será resolvida.

Práticas como esta nos mostram apenas que um dos objetivos da prefeitura paulistana é limpar o espaço urbano, afastar os indesejáveis que insistem em existir.

A cidade capitalista continua sendo moldada pela dinâmica da acumulação, reproduzindo as desigualdades sociais advindas da apropriação e circulação do dinheiro.

Em suma, as ações arbitrárias na chamada Cracolância continuam corroborando a tese de que, no Brasil, pobreza ainda continua sendo caso de polícia e não de política.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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