Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Esquerda e pautas secundárias

O presente artigo debate as posições de partidos políticos, movimentos sociais e indivíduos que se consideram ideologicamente à esquerda frente ao atual contexto político


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Em um momento como o atual, marcado por grande instabilidade política no planeta de maneira geral, e no Brasil, em particular, é importante refletirmos sobre as bandeiras levantadas por partidos políticos, movimentos sociais e indivíduos que se consideram ideologicamente à esquerda.

O termo “esquerda”, relacionado ao espectro político, tal como seu antípoda “direita”, surge a partir dos acontecimentos que desencadeariam na Revolução Francesa, no final do seculo XVIII. Na época, os adjetivos esquerda e direita foram utilizados em referência à disposição dos assentos na Assembleia dos Estados Gerais. O Terceiro Estado, defensor de reformas liberais, posicionou-se à esquerda do rei.

Já os setores da sociedade francesa favoráveis à manutenção do status quo dominante, clero e nobreza (respectivamente Primeiro e Segundo Estado), estavam à direita do monarca.

No decorrer dos anos novas acepções foram incorporadas aos conceitos de esquerda e direita.

De acordo com Norberto Bobbio, esquerdistas são os partidários da melhoria das condições de vida da maioria da população, enquanto direitistas são os partidários da conservação dos privilégios das elites tradicionais.

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Feitas as devidas ressalvas, é imprescindível destacar que, em uma sociedade predominantemente capitalista como a nossa, a luta de classes representa o principal antagonismo social.

Portanto, causas como diretos LGBT, feminismo, ecologia, entre outras, apesar de serem pertinentes, se forem levantadas sem levar em consideração a dicotomia entre burguesia e proletariado, tornam-se inócuas enquanto reivindicações realmente revolucionárias.

Não se trata de negar as lutas de mulheres, homossexuais ou qualquer minoria, mas ressaltar que tais bandeiras podem ser apropriadas tanto pelo oprimido quanto pelo opressor.

Vejamos alguns exemplos. Uma das justificativas morais para as investidas das grandes potências imperialistas, sobretudo os Estados Unidos da América, contra os povos muçulmanos afirma que o Islã, ao contrário do "Ocidente Liberal", oprime as mulheres.

Consequentemente, é preciso invadir nações do Oriente Médio para "libertar" as mulheres do machismo lá vigente.

Não por acaso, a Rede Globo de Televisão, um dos maiores baluartes do conservadorismo no Brasil, tem lançado campanhas pseudo-progressistas em nome do sexo feminino.

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Colocar questões de gênero à frente de questões de classe levam a equívocos gravíssimos.

Muitas feministas, inclusive, defendem símbolos do pensamento direitista, como a blogueira cubana Yoani Sánchez ou a apresentadora Rachel Sheherazade, pelo simples fato de serem mulheres.

Do mesmo modo, ativistas do Movimento Negro alegam que Fernando Holiday, um tipo "Capitão do Mato moderno", não pode ser criticado por causa de sua cor.

Quando a Suprema Corte dos Estados Unidos reconheceu a União Homoafetiva, imediatamente as redes sociais foram tomadas por fotos com as cores do arco-íris (símbolo LGBT).

Assim, os estadunidense foram celebrados como exemplos de tolerância e medidas progressistas. De uma hora para outra, todas as repressões realizadas pela grande potência global contra povos de todo o planeta foram esquecidas.

Nessa mesma linha, um conhecido deputado federal diz não poder apoiar a causa do trabalhador, pois este, supostamente, seria machista e homofóbico.

Promover beijos gays em novela, fazer programas temáticos sobre empoderamento feminino ou trazer uma mulata sambando vestida durante o carnaval são práticas que não vão fazer com que a já citada Rede Globo se torne uma emissora progressista.Longe disso.

É muito pouco provável (para não dizer impossível) que algum órgão da grande imprensa brasileira vá aderir realmente à questões politicamente exclusivas da esquerda, isto é, que beneficiem realmente a classe trabalhadora, como a reforma agrária, direito a moradia digna para todos ou políticas sociais consistentes.

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Em nome da causa ecológica, os "capitalistas verdes" exploram seus empregados sem nenhum tipo de pesar, podem dormir com a consciência tranquila, pois, como contrapartida, foram responsáveis pelo plantio de algumas mudas de árvores.

Em suma, sem o risco de ser redundante, sempre é bom frisar: enquanto houver capitalismo, a causa primordial, realmente revolucionária para a esquerda, é a luta de classes.

Outras bandeiras, como as citadas anteriormente, apesar de importantes, são secundárias.

Discursos moralistas, contra a corrupção, por exemplo, são bons para as classes médias e altas, que já têm as suas necessidades básicas devidamente satisfeitas e podem se dar ao luxo de elaborar debates abstratos em universidades ou então, nos casos mais extremos, vestir a camisa da CFB e participar dos "coxinhatos".

O trabalhador, pelo contrário, não quer saber de verborragia politicamente correta, ele quer coisas mais concretas como emprego e melhorar suas condições de vida.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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