Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Estratégias na perseguição a Lula

Para a direita brasileira, patrocinada pelo imperialismo ianque, Lula não pode ser candidato; se for, não pode ser eleito; se eleito, não pode tomar posse; se tomar posse, não pode governar


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Em junho de 1950, o jornalista Carlos Lacerda dizia que o então senador Getúlio Vargas não poderia ser candidato a presidência da República; caso fosse, não poderia ser eleito; se eleito, não poderia governar.

Conforme é do conhecimento de todos, Vargas não somente concorreu ao Palácio do Catete, como saiu vitorioso nas urnas. No entanto, conforme preconizou Lacerda, o mandato presidencial de Vargas foi bastante conturbado, pois sua governabilidade tornou-se comprometida após as investidas contrárias por parte da grande imprensa e dos principais setores conservadores da sociedade na época. Além do mais, a política econômica varguista não agradava ao imperialismo estadunidense.

Qualquer semelhança com o atual cenário político não é mera coincidência. Para a direita brasileira, patrocinada pelo mesmo imperialismo ianque, Lula, que assim como Vargas, goza de enorme popularidade, não pode ser candidato; se for, não pode ser eleito; se eleito, não pode tomar posse; se tomar posse, não pode governar.

Vejamos as estratégias utilizadas na perseguição a Lula.

Para que o ex-presidente não possa participar das eleições de 2018 foi criado todo um espetáculo jurídico/midiático com o objetivo de condená-lo por corrupção (mesmo que sem provas, mas com convicções). Coincidentemente a mesma pauta moralista utilizada na perseguição a Vargas.

Para tanto, figuras esdrúxulas como Sérgio Moro e Deltan Dallagnol foram alçadas pela grande mídia aos postos de heróis nacionais. Desse modo, os mínimos direitos democráticos duramente conquistados pelo povo brasileiro vão se diluindo na ditadura judicialesca que vem se configurando em nosso país.

Condenado em primeira instância pelo juiz Sérgio Moro, em julho de 2017; Lula terá o julgamento em segunda instância realizado em tempo recorde: já no primeiro mês de 2018. Caso seja novamente condenado, ele também correrá o risco de ser impedido de se candidatar nas próximas eleições por causa da chamada Lei da Ficha Limpa.

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Seguindo a cartilha lacerdista, se conseguir se candidatar, Lula, no que depender dos setores direitistas, não poderá ser eleito em hipótese alguma. E a campanha do PIG – Partido da Imprensa Golpista – já está em curso e a todo vapor.

Com Lula, representante da “extrema-esquerda”, primeiro colocado nas pesquisas eleitorais; e Jair Bolsonaro, representante da “extrema-direita”, em segundo, a grande mídia tenta criar um candidato “moderado”, “sem radicalismos”, “de centro”, que seja capaz de “unir” a sociedade brasileira. Uma espécie de Emmanuel Macron dos trópicos. Isto é, um direitista sob o verniz centrista.

Os golpistas não depuseram a presidenta Dilma Rousseff para, pouco mais de dois anos depois, entregar o poder novamente ao PT. Seria muita ingenuidade política pensar assim.

Portanto, uma possível candidatura Lula sofrerá uma perseguição midiática jamais vista em toda a secular história brasileira.

Por outro lado, é importante ressaltar que os golpistas vão controlar o próximo processo eleitoral. Não por acaso, as últimas eleições hondurenhas foram descaradamente fraudadas pela direita. Coincidentemente, Honduras também passou recentemente por um golpe de Estado; em 2009, com a deposição de Manuel Zelaya.

Não obstante, para dar um ar de “legitimidade” frente à Comunidade Internacional, em 2018 a OEA – Organização dos Estados Americanos – pela primeira vez vai observar “imparcialmente” o pleito brasileiro. Só para constar, uma das principais funções da OEA, instituição a serviço de Washington, é apoiar os governos golpistas de direita na América Latina.

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Caso seja eleito, Lula poderá não tomar posse. Segundo recente entrevista do ministro Gilmar Mendes, o TSE pode cassar uma eventual diplomação de Lula ou Bolsonaro se comprovado abuso de poder econômico.

Como diria um clássico dito popular: para quem sabe ler, um pingo é letra. A elite brasileira, a quem o TSE representa, não quer a eleição de Lula, que representaria o fim do golpe, conforme o afirmado anteriormente; e tampouco uma eventual vitória de Bolsonaro, pois os grandes capitalistas não vão querer um fascista imprevisível administrando os seus negócios.

Se empossado, muito provavelmente Lula terá sua governabilidade comprometida, seja por obstrução do congresso conservador, seja por propostas de emenda constitucional que visam modificar o próprio sistema político do país e instaurar uma espécie de semipresidencialismo, o que, na prática, representaria a retirada de poderes do presidente da República. Se for preciso, os golpistas não se intimidam em rasgar a Constituição.

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Como já dizia Marx, “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. O exemplo de Vargas, bastante semelhante à atual conjuntura, mergulhou o país em uma crise sem precedentes que culminou no golpe civil-militar de 1964, responsável por uma sangrenta ditadura que perdurou por duas décadas.

Infelizmente, muitos movimentos e partidos políticos que se consideram de esquerda fazem coro com a direita na perseguição a Lula e ao PT. Acreditam que vão ocupar um possível espaço deixado pelo Partido dos Trabalhadores. Mal sabem (ou fingem não saber) que se trata de uma grande perseguição a toda esquerda nacional.

Em pouco mais de um ano, o governo Temer trouxe mais derrotas para a classe trabalhadora do que os governos militares e FHC juntos. Caso a situação se torne insustentável para os golpistas, questões como a anulação das próximas eleições e um novo golpe militar não serão descartadas.

Diante dessa realidade, somente a mobilização popular pode derrotar o golpe e toda a onda de retrocessos por ele instalada. Nunca as massas foram tão importantes para mudar os rumos da sociedade brasileira.


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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