Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

"Fake news" e a propagação em larga escala de "Teorias da Conspiração": efeitos colaterais das novas tecnologias da comunicação

Com o advento da Internet, o clássico modelo de comunicação proposto por Harold Lasswell, baseado em quatro perguntas básicas, “quem diz o quê? Em qual meio? Para quem? E com qual consequência?”, tornou-se obsoleto. Isso significa que, ao contrário de outros veículos como rádio, televisão, jornal impresso e revista, a rede mundial de computadores reconfigurou a seta comunicativa, fazendo com que os seus usuários não sejam somente “receptores”, mas também potenciais “emissores” de informações.


fake-news_istock1.jpg

Recentemente, o dicionário Collins, da Grã-Bretanha, elegeu a expressão “fake news” (notícias falsas) como a palavra de 2017. No ano passado, um outro dicionário, o também britânico Oxford, escolheu o termo “pós-verdade” como a palavra do ano em 2016.

De acordo com o dicionário Collins, “fake news” são informações falsas, frequentemente de caráter sensacionalista, disseminadas sob o disfarce de notícia. Já pós-verdade é um adjetivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais.

Ambos os conceitos são bastante similares e foram mundialmente popularizados ao serem amplamente utilizados por Donald Trump para se referir ao elevado número de notícias negativas sobre ele divulgado na grande mídia estadunidense. Ironicamente, o próprio Trump usa sistematicamente a sua conta no Twitter para divulgar informações inverídicas.

Com o advento da Internet, o clássico modelo de comunicação proposto por Harold Lasswell, baseado em quatro perguntas básicas, “quem diz o quê? Em qual meio? Para quem? E com qual consequência?”, tornou-se obsoleto.

Isso significa que, ao contrário de outros veículos como rádio, televisão, jornal impresso e revista, a rede mundial de computadores reconfigurou a seta comunicativa, fazendo com que os seus usuários não sejam somente “receptores”, mas também potenciais “emissores” de informações.

A Internet pode ser considerada o meio de comunicação mais pluralista, pois concede aos diferentes agentes sociais a livre expressão de suas ideias e opiniões, possibilitando, diferentemente de outras mídias, uma diversidade de pontos de vista sobre um determinado assunto.

Em outros termos, ela propicia um auspicioso espaço para que grupos sociais que dificilmente têm acesso aos tradicionais meios de comunicação de massa possam divulgar suas ideias em larga escala.

Transferir uma determinada questão política também para o âmbito virtual é condição sine que non para a sua popularização, pois, a partir do momento em que pertencer a uma militância não requer necessariamente frequentar seus debates físicos, mais pessoas se sentem motivadas para aderir a uma causa.

Ativistas negros, ateus, feministas e membros de comunidades LGBT cada vez mais têm se apropriado do meio virtual para criarem espaços de discussões, trocarem experiências e divulgar suas demandas, explorando assim novas formas de opinião pública.

Nesse sentido, conforme afirma Henry Jenkis, em seu livro A cultura da convergência, em todo o planeta, novos formatos de exercício da cidadania são construídos com o uso dos espaços públicos online e meios digitais.

Desta forma, convocar protestos, comunicar reivindicações, elaborar discursos políticos por meio de vídeos, áudios, imagens e/ou textos digitados, bem como veiculá-los no espaço público, são tarefas cada vez mais desempenhadas pelos cidadãos, com o uso facilitado dos aparatos tecnológicos, bem como das redes sociais e de aplicativos baixados nos celulares smarthphones.

Seguindo essa linha de raciocínio, o pesquisador tunisiano Pierre Lévy aponta que o ciberespaço pode se constituir em agente de libertação, pois permite que textos e imagens de todos os tipos circulam livremente sem passarem pelo crivo de qualquer editor, redator ou censor.

terra plana.jpg

Por outro lado, os avanços do universo informacional do século XXI e a sensação de anonimato ao divulgar um determinado conteúdo no meio virtual também facilitam novas formas de manipulação e a divulgação em larga escala, e de uma maneira extremamente rápida e eficiente, de informações falsas, pensamentos controversos e hipóteses falaciosas, sem nenhum tipo de respaldo científico.

Não por acaso, as chamadas “teorias da conspiração”, como a “Terra Plana”, têm na Internet um terreno fértil para a sua propagação.

Para os “terraplanistas”, o formato do planeta Terra não é esférico, mas plano. De acordo com essa teoria, não existe gravidade, o Polo Norte está localizado no centro do planeta, que tem o formato de um disco circular. As estrelas estão “presas” ao céu.

O Sol tem apenas 51,5 km de diâmetro e fica a 5 mil km de altitude, funcionando como uma espécie de lanterna que ilumina cada porção do planeta em momentos determinados. A Lua é somente quatro vezes menor do que a Terra (com 3.476 km de diâmetro) e está a 384.400 km de distância de nosso planeta.

Ao contrário da perspectiva heliocêntrica, para os “terraplanistas”, Sol e Lua estão “dentro” de nossa atmosfera e giram em torno da Terra. A Antártida é um paredão de gelo que serve de moldura para a superfície terrestre, segurando a água dos oceanos.

Diante dessa lógica, o Tratado da Antártida, de 1959, foi assinado para esconder esse “fato”. Segundo o site BBC Brasil, há pelo menos trinta grupos sobre a “Terra Plana” no Facebook.

Consequentemente, basta um perfil em uma rede social para que qualquer indivíduo possa “refutar” teorias científicas corroboradas há séculos. Copérnico, Newton, Einstein, entre outros pensadores, estariam perplexos.

cnn-1.jpg

De acordo com o jornal britânico The Telegraph, as “fake news” podem existir por cinco motivos: com o intuito de enganar o leitor; como uma tomada acidental de partido que leva a uma mentira; com algum objetivo escondido do público, motivado por interesses; com a propagação acidental de fatos enganosos; ou com a intenção de fazer piada e gerar humor.

No caso brasileiro, o momento de grande radicalização ideológica ao qual estamos atravessando oferece ainda mais combustível para a difusão das “fake news”.

Alguns estudos em Psicologia apontam que há uma tendência no ser humano em se lembrar, interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais, prática conhecida como “viés da confirmação”.

Em outras pessoas, podemos dizer que muitas pessoas recorrem a certos livros, revistas ou sites não para formarem suas opiniões, mas para reforçarem seus argumentos.

coxinha no computador.jpg

Basta averiguar a timeline do Facebook para constatarmos que, se um indivíduo é favorável a um determinado político, provavelmente só compartilhará notícias positivas sobre ele, independentemente de ser verídica ou não.

O contrário também é válido: várias pessoas postam notícias falsas sobre alguém, somente pelo fato de ser seu adversário ideológico.

Como outrora afirmou o escritor e filólogo italiano Umberto Eco, as redes sociais concederam o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.

Normalmente, os imbecis eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. Desse modo, o grande drama da Internet é que ela promoveu o “idiota da aldeia” a portador da verdade. Infelizmente, a livre circulação de ideias também traz seus efeitos colaterais.


Francisco Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
Saiba como escrever na obvious.
version 41/s/sociedade// @obvious //Francisco Ladeira