Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Heróis midiáticos

O presente artigo aborda a atuação da grande imprensa brasileira na construção de "heróis políticos"


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“Pobre do país que precisa de heróis”. A famosa frase cunhada por Bertolt Brecht se encaixa perfeitamente para ilustrar as relações entre mídia e política no Brasil contemporâneo.

Desde o advento da chamada “Nova República”, os principais veículos de comunicação e os setores mais conservadores de nossa sociedade têm constantemente se unido para criar “heróis” que possam se contrapor eleitoralmente às principais lideranças populares do país.

Na segunda metade da década de 1980, quando seriam realizadas as primeiras eleições diretas para a presidência da República desde o final do Regime Militar, não havia uma liderança conservadora viável para chegar ao cargo máximo da nação.

Na época, os dois nomes mais cotados para vencer o pleito presidencial eram Leonel Brizola e Lula, dois políticos que não agradavam os “donos do poder”.

Diante dessa situação adversa, era preciso criar um “herói” que pudesse derrotar os dois principais favoritos para a campanha presidencial. Eis que surgiu a figura de Fernando Collor de Melo, “o caçador de marajás”.

A construção da imagem midiática de Collor começou de maneira sutil, através da constante aparição do então jovem governador de Alagoas em programas televisivos não ligados à esfera política, como o famoso Cassino do Chacrinha, por exemplo.

Quando o público já estava familiarizado com a imagem de Collor, ele passou a ganhar destaque nos noticiários mais importantes (sobretudo no Jornal Nacional), sendo representado como um político diferentes dos demais, com novas ideias e disposto a combater a corrupção que se instalara no setor público brasileiro.

O restante da história é do conhecimento de todos: Collor seria eleito em 1989 (com um forte apoio dos principais veículos de comunicação do país) e sofreria um processo de impeachment três anos depois.

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Prática semelhante foi elaborada para impulsionar a carreira política de Aécio Neves. Enquanto governador de Minas Gerais, o neto de Tancredo era mais reconhecido por suas aparições em colunas sociais do que por seus feitos enquanto administrador de um dos estados mais importantes da federação.

Preparava-se assim o terreno midiático para o êxito eleitoral de um candidato com reais chances de retirar o Partido dos Trabalhadores do Palácio do Planalto. Todavia, nos últimos anos a influência da grande mídia já não é a mesma de outrora e Aécio Neves foi derrotado por Dilma Rousseff no pleito de 2014.

Por outro lado, membros do judiciário também podem se transformar em “heróis midiáticos”, desde que, evidentemente, tenham posturas favoráveis à ideologia dos proprietários dos grandes grupos de comunicação.

Perseguir políticos com tendências políticas à esquerda é condição sine qua non para um magistrado ter uma representação positiva nos principais canais de televisão, jornais e revistas do país.

Nesse contexto surgiram os paladinos da justiça Joaquim Barbosa e Sérgio Moro, respectivamente protagonistas do Mensalão e da Operação Lava-Jato.

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Ao que tudo indica, neste início de ano temos assistido ao surgimento de um mais um “herói midiático”: trata-se do empresário e recém-empossado prefeito de São Paulo, João Doria Júnior.

Em uma época de profundo desencanto com a atividade política, Doria surge como “apolítico”, o indivíduo que levará o “dinamismo do setor privado para a administração pública”. Nada mais do que um novo eufemismo para as velhas práticas de liberalismo econômico.

Com a devida cobertura midiática, Doria tem transformado os seus primeiros dias à frente da prefeitura da maior cidade brasileira em grandes espetáculos de autopromoção.

Parafraseando uma personagem de telenovelas: “cada ato público é um flash”. Vale tudo para aparecer na imprensa: vestir-se de gari em seu primeiro compromisso de governo, apagar pichações e “conversar” com moradores de rua. Isso é apenas o começo.

Ainda é cedo para falar se Doria será o candidato da grande mídia nas eleições presidenciais do ano que vem, ou se será cuidadosamente “construído” para 2022.

Fato é que os exemplos do passado nos servem como alertas para não cairmos nas artimanhas da mídia hegemônica que está a serviço, exclusivamente, dos setores mais abastados de nossa sociedade em detrimento das demandas populares.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
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