Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor.

Maquiavel e o Congresso Nacional

Perto de alguns homens públicos brasileiros, Maquiavel é apenas um principiante na arte de “justificar o injustificável”


maquiavel.jpg

Em 1523 foi lançada a primeira edição do clássico livro O Príncipe, escrito pelo pensador florentino Nicolau Maquiavel, um dos maiores nomes do pensamento político moderno.

Diferentemente de seus antecessores – Platão, Rousseau e Thomas Morus – que em seus escritos enfatizam um tipo de sociedade ideal, com um funcionamento quase perfeito, Maquiavel teve a grande sacada de compreender a política não a partir de modelos utópicos, mas como uma atividade sujeita aos vícios e virtudes humanas. Segundo Maquiavel, a ética política não corresponde, necessariamente, à ética da “vida cotidiana”.

Ou seja, valores que são colocados como prioritários para nós, simples cidadãos, no campo político, nem sempre são bem-vindos. O principal objetivo do governante, para o pensador florentino, é manter-se no poder, e, para tanto, ele precisa lançar mão de todo tipo de artifício, “moral” ou “imoral”, para preservar sua posição.

“Os fins justificam os meios”, diz uma frase que, embora não se saiba se realmente teria sido cunhada pelo próprio Maquiavel, resume muito bem o conteúdo de O Príncipe.

No entanto, se vivo fosse, Maquiavel provavelmente ficaria no mínimo bestializado com o andamento da votação na Câmara dos Deputados que decidiu pela aprovação do relatório elaborado pelo deputado Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), que recomendava a rejeição da denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o presidente Michel Temer.

plenário-congresso.jpg

Não cabe aqui fazer juízo de valores sobre esta complexa questão, mas é interessante analisar os argumentos utilizados por alguns parlamentares que optaram em votar a favor do arquivamento da denúncia da PGR. “Michel Temer tem que ser julgado sim, mas no final de seu mandato, pela justiça comum”, foi uma explanação bastante repetida durante a votação.

Ora, como bem enfatizou o ator e escritor Gregório Duvivier, ser favorável à investigação de Temer após o fim do mandato é o mesmo que ser favorável à prisão do goleiro Bruno só depois do término do Brasileirão.

Outros deputados votaram “sim” para “preservar a estabilidade política e econômica, a inflação baixa e a segurança jurídica”. Em uma linguagem “maquiavélica”, isso significa “se Temer está colocando o ‘Brasil nos trilhos’, logo ele tem carta branca para agir como quiser, sem necessidade de prestar contas a ninguém”.

Paradoxalmente, muitos parlamentares que, em abril do ano passado, foram favoráveis ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff, sob a abstrata alegação de combate à corrupção, decidiram que Michel Temer sequer deveria ser investigado.

Não se tratava nem de uma condenação definitiva, perda de mandato, ou algo similar, mas apenas de apuração dos fatos. Como diz o ditado: “Dois pesos, duas medidas”.

Não obstante, alguns deputados deixaram de lado a denúncia da PGR contra o presidente e utilizaram argumentos sem nenhum tipo de relação com o tema para justificar posicionamentos. Entre as alegações estavam a não implantação da “ideologia de gênero” nas escolas brasileiras, a liberdade religiosa e um suposto projeto petista de implantar o comunismo no Brasil.

Enfim, perto de alguns homens públicos brasileiros, Maquiavel é apenas um principiante na arte de “justificar o injustificável”.


Francisco Ladeira

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei; Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// //Francisco Ladeira
Site Meter